Faz anos que não apareço por aqui. Acho que perdi o jeito. Antes, as palavras me saíam sem esforço, sem consideração, como se o papel fosse uma extensão de mim. Meus pensamentos desordenados pareciam encontrar um ritmo na escrita. Hoje, não mais. Parece que não encontro mais a poesia em cada esquina. Há excessões, claro. Uma vista, o sorriso dele, um momento que me enche os olhos. Acho que é porque estou melhor. Grande parte desse livro foi escrito em enorme confusão e, às vezes, sofrimento. Olho para trás e vejo minhas frases enganchadas e pretensiosas, lembro de escrevê-las em prantos, com o coração acelerado, tarde da noite. Eu passei 2017 inteiro sem dormir. Eu me achava tão pequena e fraca e pouca. Ainda me sinto assim às vezes, é inerente ao mundo em que vivemos, mas não é mais a regra. Eu durmo quase oito horas por noite na maioria dos dias, me exercito e converso com as pessoas. Eu fiz amigos e consegui ser eu mesma. Sinto que tenho um rumo, um que eu mesma escolhi. E, mais importante, eu não me sinto sozinha. Resolvi escutar o Artur, que passou os últimos oito anos me dizendo que eu sou o suficiente e que ele estaria ao meu lado. Não era mentira, ele esteve ao meu lado em tantos momentos e fizemos tantas coisas juntos. Minha terapeuta me perguntou, em 2023, se esse relacionamento não der certo, você vai se culpar por ter permanecido nele? E a resposta foi, e continuará sendo, jamais. Jamais me arrependeria de pedi-lo para ficar em 2017, ou de ficar quando ele me pediu. Eu sou feliz, tenho uma vida maravilhosa, mas essa vida faz muito mais sentido com ele. Eu vi cachoeiras lindas, fui a países novos, comi pratos únicos, provei vinhos de todas as qualidades, nadei com os golfinhos, vi dezenas de tartarugas, eu fui o próprio vento e o próprio mar. Tudo isso foi incrível, mas queria que ele estivesse comigo. São momentos em que penso em escrever, gosto de escolher as palavras ao contar pra ele, tento dar uma descrição exata e sentimental, porque tudo o que eu queria é que ele estivesse comigo. Eu não duvido mais, não acho que ele vai embora e sei que teremos muito tempo para viver coisas lindas juntos e para compartilharmos as que vivermos separados. Às vezes, ainda me sinto uma menina insegura, mas sei onde pisar e continuo uma boa nadadora. Acho que é por isso que não escrevo mais tão bem, é o perigo de estar lúcida que Rosa Monteiro descreveu. A loucura, a tristeza, o medo, esses sentimentos desenfreados servem muito mais à arte do que meu atual estado pacato. Não trocaria por nada, porém, meu amor tranquilo e aventureiro. Estou bem e feliz. Tenho uma família, uma gata, um caminho e um amor. O amor da minha vida, diga-se de passagem. Eita vida besta, meu deus! Mas que delícia é vivê-la com leveza.
Ao Artur, caso leia, obrigada por ver em mim o que eu não conseguia, por não me deixar desistir, por encarar comigo o abismo e por me amar profunda e sinceramente.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Avidez
PoetryApenas uma vontade sôfrega de escrever. Capa e ilustrações da mesma por Cassy Frost | Niffler Covers
