Faz um tempo que não te escrevo sem motivo ou data específica. Digo, sempre há motivos, mas sei que me entendeu. De certa forma, sinto falta de lotar cubículos e cadernos e livros com post its amarelos cheios de piadas ruins e palavras melosas e, por mais que aquela época fosse bastante incerta e cheia de ansiedades, sinto falta de momentos bons que vivemos. Me pego com saudades de me forçar a não olhar para trás toda vez que ouvia sua risada e, pensando bem, não sei porque não me virava. Acho que era vergonha, o que é engraçado, porque você me conhece bem.
Sabe do que estou com saudades? De pipoca de cinema e de você me dizendo que era para eu escolher o filme. E de fazer planos de ficar atoa no fim de semana. E de te ouvir reclamar que eu falo demais. E de te acordar cedo, porque estou com fome, mas não quero tomar café sozinha.
Estou com saudade de ter tempo com você. Tempo de verdade, para a gente poder fazer de tudo ou quase nada.
Descobri porque estou levando dias para passar a porcentagem naquele livro, ele tem 800 e sei la quantas páginas. E eu espero que você tenha paciência de me ouvir contar depois, porque uma das coisas que eu mais gosto é de te contar uma história. Além disso, você me deve, já que não quis ouvir Anna Karienina.
(A quem possa interessar: ela se jogou nos trilhos do trem, depois de um período muito conturbado. Liev(in) descreve o sofrimento e os delírios dela de uma forma tão convincente que nos faz identificar e, quando ela pula entre aqueles dois vagões, somos nós que morremos um pouco. O Lievin personagem me lembra o você dos meus textos, porque é bom, tem um coração bonito, uma alma livre e rosto queimado pelo sol... e gosta de mexer na roça. Mas ele é um ótimo patinador e não sei se o você teria a coordenação motora).
Obrigada por sempre tentar me entender, mesmo quando é difícil. E por descruzar meus braços quando estou perto de muita gente. E por não rir quando danço mal. E por rir das minhas piadas. E por sorrir quando me vê.
Eu gosto de como seus olhos ficam pequenos quando sorri, porque me lembra o meu avô. Eu queria muito que ele tivesse te conhecido, acho que se dariam bem, no fim das contas. Sabe, antes de tudo o que aconteceu, ele era um senhor gentil e dava bons conselhos. Ele sempre dormia no meu quarto, daquele jeito estranho dele de dormir esticadinho na cama. Era muito alto, apesar de o meu pai ser baixinho. E tinha pintinhas por todo o corpo. A cabeça dele tinha uma parte funda, porque levou uma machadada do irmão (ele amava contar esse história). Ele também gostava de suspiro e de bife de fígado. Sinto falta dele. Sempre que como fígado acebolado de mãe eu lembro dele sentado na mesa de vidro grande (aquela que nunca usamos) comendo com olhos sorridentes e tirando um lencinho do bolso para limpar as mãos e a boca.
O tempo está chuvoso por aqui e eu sempre me lembro de você quando chove. Ou quando vejo algo bonito. Às vezes me pergunto se eu poderia ver uma paisagem deslumbrante sem querer te mostrar ou, ao menos, imaginar o que você acharia. Se fosse uma cor, acho que seria a cor que o mar fica ao pôr do sol, sabe? Azul bem esverdeado com manchas amarelas. Eu te pintaria dessa cor. Uma sensação eu acho que seria a que a gente tem quando vê uma coisa muito linda pela primeira vez, como quando você me levou à cachoeira que não tem formato de maçã. Mas, falando em cachoeira, acho que, fisicamente, você poderia ser aquela poeira de água que cai lá do alto, quando molha o rosto da gente de olhos fechados. Cheiro de chuva. Use o perfume que for, seu cheiro é, definitivamente, cheiro de chuva. Não chuva de capital. Chuva que molha a terra e que deixa cheiro de grama. Chuva sem barulho de buzina. Gosto. Seu gosto. Ponto. Não saberia descrever, mas é bom, reconfortante e carinhoso.
Você seria um livro de aventura, não um daqueles distópicos, seria algo mais real. Tipo aquele que você me deu. Você pode achar que não, mas seria um ótimo personagem, daqueles que passam por uma jornada incrível e desafiadora para, no final, descobrir que era capaz e corajoso.
Você não seria um filme, porque filmes sempre encurtam a história.
Já está tarde, acho que vou dormir. Sinto falta do seu boa noite. E do seu beijo de boa noite. Sinto falta de você. Muita mesmo.
Por favor, me dê um abraço apertado, estou precisando.
Amo você, meu amor.
Sua menina de orelhas grandes e peitos pequenos.
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Avidez
PuisiApenas uma vontade sôfrega de escrever. Capa e ilustrações da mesma por Cassy Frost | Niffler Covers
