Uma fina chuva caía sobre nós, encharcando as roupas de todos. Mais duas mortes. Mais duas perdas. Mais duas lápides.
Ficava difícil suportar as coisas. Todos ali, chorando, sem se importar se os pingos gelados aterrizavam nas nossas peles como pequenas facas cortantes.
Eu tentava me manter forte como um rocha. Toda lágrima que insistia cair, eu mudava meus pensamentos e os focava em outra coisa. Alan, Maethe, Gabs e Felps estavam juntos num canto, chorando desesperadamente. Satty e Damiani voltaram lá para cima, onde geralmente ficavam, observando tudo de longe. Apesar de que eu acho que ultimamente andam se estranhando.
Bianca então, estava desolada. Ela ficou abraçada com as lápides praticamente o dia inteiro, e às vezes acariciava a pedra fria, como se fizesse cafuné em alguém.
Caminhei para o outro lado disso tudo, tentando me livrar das memórias. Não me agradava ficar pensando em morte, pois isso me fazia relembrar de como eu perdi tudo, e consequentemente, vinha aquela onda de melancolia. Dispenso.
Cheguei perto da minha irmã, que segurava a mão de uma garota ruiva, que estava em prantos.
- Oi, Lu. - cumprimentei, e ela se virou para mim.
Seu rosto estava levemente manchado pelas poucas lágrimas. O cabelo escuro curto estava preto em um rabo de cavalo, e os olhos amarelados um pouco avermelhados. Ela deu um meio-sorriso e me abraçou com força.
- Como está, Lelena? - perguntou, com a voz mansa.
Algumas pessoas diziam que eu e Luísa nos parecíamos, mas em alguns aspectos nos diferenciávamos bastantes. Ela era mais sorridente, e eu séria. Seu cabelo batia nos ombros e eram mais alisados; o meu era um pouco mais longo e levemente cacheado. Seus olhos amarelados, os meus castanho-escuros. Ela tinha dezesseis anos, e eu, vinte e quatro.
- É, estou bem. - falei, me desvencilhando dos seus braços - E você?
- Hum, acho que sim. - respondeu, dando de ombros - O que vai fazer agora?
- Sei lá. Acho que... Checar a segurança.
Luísa secou o rosto e fixou seus olhos no chão. Aquilo foi como uma fincada em mim. Como se aquele simples gesto mostrasse o quanto era indefesa, e o quanto estava machucada. Ela precisava de mim e da minha proteção, e eu não podia me dar ao luxo de deixá-la desamparada.
- Vou lá. - falei, me levantando.
Andei até o enorme portão de ferro da entrada e ajeitei minha aljava nas costas.
- Oi, você! - alguém atrás de mim falou, o que me fez virar subitamente com o susto.
- Hum... Oi. - murmurei, um pouco grossa, olhando Júlio de cima a baixo. Ele ainda usava aquele boné aba reta que sempre fazia parte do seu "look". Ele o tirou da cabeça e passou a mão pelos seus bagunçados cabelos negros, que, cá entre nós, já precisava de um corte.
- O que vai fazer com isso? - perguntou, encarando o arco de prata nas minhas mãos, como se estivesse receoso com a possibilidade de eu cometer um homicídio.
- Eu vou fazer várias coisas com isso, exceto mirar na cabeça de certas pessoas que só vieram para ajudar. - falei, erguendo as sobrancelhas e ajeitando a ponta de uma das flechas.
- Qual é, já me desculpei, eu estava me defendendo dos desgraça lá. - falou ele, arregalando os olhos castanhos.
- Já mencionei que você parece uma lagartixinha? - perguntei, rindo. Ele apenas franziu a testa.
- O quê?
- Nada.
- Você disse que eu pareço uma lagartixinha?- Júlio passou os dedos pelo corpo extremamente magro.
- Achei que você não tinha escutado. – comentei num tom provocativo.
- Só se for um lagartixinha com AIDS, não é? - eu tentei segurar o riso, mas olhar para a cara dele já me divertia.
Okay, ele não era um cara que você olhava e pensava "puxa vida, que príncipe dos meus sonhos!" Mas eu não sei, eu me sentia bem, como se sua presença ali me fizesse cócegas...
Deus do céu, o que estava pensando?
- Eu vou sair. - falei, destrancando o portão de ferro.
- Está louca? Tem zumbis lá fora! - Júlio disse como se fosse novidade.
-... Dã? - ele riu, e eu abri um pouco o portão, checando a área - É por isso que eu vou, né.
- Acho que faz sentido.
Tirei uma flecha da aljava, acertando dois zumbis que rugiam e corriam - ou tentavam - na minha direção. Logo outros chegariam. Caminhei até os cadáveres estirados no chão e arranquei minhas flechas, logo depois de cravar mais algumas vezes em suas cabeças para certificar não teria problemas com eles outra vez.
- Sempre quis aprender a atirar com isso. - Júlio falou enquanto eu limpava as pontas das minhas flechas com um paninho encardido.
- Talvez eu possa te ensinar. - franzi a testa com os raios de sol batendo em meus olhos. A garoa ainda caía, então tudo estava úmido e a terra tinha se transformado em lama.
Coloquei o arco em suas mãos e entreguei a ele uma flecha. Júlio me olhou meio desacreditado, como se eu fosse uma completa louca por ter entregado minha arma a ele.
- Você vai mesmo fazer isso?
- Disse que queria aprender.
- Não necessariamente agora, e se... - ele engoliu em seco e chegou um pouco mais perto, sussurrando - E se um zumbi aparecer?
- Tipo aquele ali? - apontei com a cabeça para um infectado que vinha se rastejando em nossa direção - Atira, oras!
Ele se desesperou totalmente, e eu tive que ajustá-lo com o arco. Levantei seu braço e cotovelo na altura certa, como pegar a flecha, a posição das pernas e da cabeça antes que o morto vivo nos alcançasse. Quando estava a uma distância de poucos metros, dei um tapa forte no ombro de Júlio e berrei:
- Anda, atira logo, pelo amor de Deus!
Ele emitiu um som agudo e soltou a flecha, que voou baixo e aterrissou no chão bem na frente do infectado. Praguejei e peguei o arco, nocauteando com ele mesmo o zumbi, que caiu no chão. Em seguida, terminei o trabalho com uma flecha. Eu e Júlio trocamos olhares assustados, até ele apontar para alguma coisa bem atrás de mim.
Quando me virei, vi cerca de uns oito zumbis caminhando na nossa direção. Senti minhas pernas estremecerem e uma pontada de covardia percorrer minha mente. No entanto, tentei afastar esses pensamentos e ser o mais rápida que eu poderia, alojando as flechas no arco e atirando sem pausa.
- Eles estão se aproximando! Têm muitos deles! Só estão chegando mais! - Júlio disse, atrás de mim - Helena, o que eu faço?
Parei ofegante, tentando recuperar o fôlego e olhei para ele, tentando raciocinar.
- Minhas flechas estão acabando, e se continuar assim, eu...- atirei mais uma, dando um passo para trás - Pegue as pedras, as pedras!
Júlio começou a jogar as pedras nos infectados, o que de certa forma, me ajudou bastante. Ele era bom de mira, e na maioria das vezes acertava bem na testa, o que os faziam cair ou cambalear para trás.
Quando finalmente derrubamos todos eles, apenas paramos e nos encaramos. A essa altura, estávamos ensopados pela chuva fina, e acho que minha aparência estava tão estranha quanto a dele, pois começamos a rir como se tivéssemos acabado de voltar de um show de comédia.
Entretanto, não tinha acabado ainda. Outro infectado surgiu de trás dos muros da casa, exatamente de onde os outros haviam saído. Tirei a adaga do meu cinto e lancei contra ele, acertando-o na testa. Eu e Júlio nos entreolhamos, e, lentamente, começamos a andar naquela direção. Claro que arranquei minhas flechas e as coloquei na aljava novamente.
Quando chegamos perto do muro de trás que separava o nosso abrigo do resto do mundo, vimos uma horda pequena de uns seis infectados, que eu e Júlio não tivemos muita dificuldade em abater. Contando com o resto que matamos, resultava em talvez, uns trinta ou mais.
- Passamos uma magrela aqui agora. - ele comentou, o que me fez rir.
- Na minha opinião, você é bem magro.
- Isso foi uma expressão. - explicou ele, erguendo as sobrancelhas - Expressão! Do tipo "vi minha vó pela greta", é o que significa.
Sorri de lado e cheguei mais perto do muro. Havia um buraco próximo ao solo, e a parede estava descascada. Olhei em volta, tentando ligar os fatos. Se tinham vários zumbis ali, e um buraco...
- Estamos em perigo. - falei, passando os dedos pelos riscos profundos e verticais na parede.
Júlio passou a língua pelos lábios e me olhou.
- O que vamos fazer então?
- Eu não sei.
, , ,
Subi correndo as escadas, dois degraus por vez, tentando não escorregar com meus sapatos molhados e sujos de lama. Tirei algumas mechas de cabelo grudadas em meu rosto e bati de leve na porta.
Esperei alguns segundos. Ninguém atendeu, então abri a porta de uma forma silenciosa.
- Não me venha com ignorância, Satty! - disse Damiani, fitando ela com o olhar - E pare de bobeira, porque eu já disse que não!
- Ah, pelo amor! Você acha que eu sou idiota, Guilherme? Acha que eu não percebo as coisas? Aquela prostituta está de papinho mole pro seu lado e você dá a maior bola!
Ergui as sobrancelhas. Nunca tinha visto Satty chamar o namorado pelo primeiro nome. Para falar a verdade, nunca tinha visto ninguém o chamar desse modo.
- Cara, como você é infantil! Quero dizer, estamos no meio de um apocalipse zumbi e você vem com esse draminha bobo!
- Okay então, estamos morrendo, e o nosso relacionamento de repente não importa mais. - ela disse, erguendo os braços e com a voz carregada de ironia.
- E-eu não disse isso... - Damiani passou o dedo pela sobrancelha.
- Oi vocês! - interrompi, esboçando um sorriso que sugeria que eu não tinha visto nada daquilo. Sério, eu não gostaria mesmo de testemunhar o término daqueles dois. Eu poderia até aguentar a separação do Mickey e da Minnie, mas da Satty e do Damiani...
- F-fala aí Helena! - Satty abriu um sorriso sem graça ao me ver e em seguida me analisou de cima a baixo, franzindo a testa - Nossa, o que aconteceu?
- Então... - puxei uma cadeira e coloquei meu pé direito nela - Estava eu, saindo do acampamento para caçar... Zumbis. O Júlio também estava, ele...
- Que Júlio?
- Cocielo. Ele estava junto. De repente, uma horda bem grandinha de infectados começou a nos atacar, e só ia chegando mais, e mais e mais... Eles fizeram um buraco no muro com as próprias unhas, com as unhas! Vocês têm ideia de quanto tempo eles estavam ali? Com certeza muito tempo! E ninguém percebeu!
- Nós precisamos de mais segurança... - Damiani disse, coçando o queixo.
- Nós precisamos de cercar todo o perímetro. Só deste ponto não conseguimos ver o que acontece lá atrás, só daqui pra lá. E ali. - gesticulei enquanto falava.
- Mas... O que podemos fazer então?
- Primeiro, temos que cobrir o buraco. Segundo, pessoas que fiquem de guarda nos lugares onde a torre não pode cobrir, e que não amarelem quando virem um zumbi, porque seria um desastre. E, claro, mais atiradores. Bem mais.
- Helena, não sei se temos armas para atiradores. Temos facão, espadas, pistolas, metralhadoras... Mas tenho quase certeza que no armazém não tem dessas que precisamos.- disse Damiani, pegando uma prancheta e checando os armazenados.
- Não, não, precisamos de armas que atirem à longa distância! E que não façam barulho.
- Mas não temos dessas!
- Então significa que precisamos sair para procurar. - falei com firmeza. Satty esfregou a testa com a palma da mão, como se estivesse apressando seu cérebro a pensar.
- Ninguém iria querer sair agora. Tipo, não agora que aconteceu o que aconteceu...
- Olha, eu posso fazer alguns arcos improvisados com madeira, mas eles não são resistentes e nem potentes como o de metal. - bati com as unhas em meu arco - Nem as flechas são tão cortantes.
- Mas não temos escolha! O que faremos?
- Eu não sei, mas... Se não andarmos logo, teremos problemas. E sérios.
.............................................................................................................................................
A garota da foto (Crystal Reed, Allison em Teen Wolf) é a que representa a personagem Helena)
VOCÊ ESTÁ LENDO
No One Left
Hayran Kurgu"O mundo não era mais dividido em quem influenciava as pessoas e em quem era influenciado. Agora, o mundo era dividido em quem matava e sobrevivia, em quem morria, e em quem era fadado a permanecer no mundo como um monstro. Três anos atrás, o mund...
