Capítulo XII - Helena - "Maybe I should Rethink Some Things"

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Saí da torre me sentindo uma fera. Passei por algumas pessoas a passadas longas e apressadas, atraindo olhares de todas as partes. Não sabia exatamente pra onde estava indo, mas para algum lugar vazio.
Cheguei perto do lago, que refletia a luz prateada da lua cheia. Me apoiei em meus joelhos, ofegando pelo cansaço de ter corrido tudo aquilo. Sentia minha cabeça quente, como se tivesse fervido meu cérebro ou algo do tipo.
Cheguei mais perto do carvalho frondoso. Minha respiração estava pesada e eu só conseguia ouvir seu som. Por um milésimo de segundo, canalizei toda a minha raiva em um soco no tronco da árvore, o que me causou uma dor excruciante.
Soltei um grunhido alto, segurando meu pulso com força e cerrando os dentes. Parecia que toda a minha força tinha se esvaído do meu corpo com o golpe, então apenas me deixei cair no chão, me sentando à beira do lago.
Com um suspiro longo, passei os dedos pela superfície da água gelada. Encarando meu reflexo, eu me achava uma pessoa desesperançosa. E triste. Bufei, esperando que minha cabeça esfriasse. Eu raramente tinha esses ataques de fúria, e só havia acontecido uma ou duas vezes. Mas Bianca sabia como me irritar, ela era astuta. Ela tinha a coragem de cutucar a onça com vara curta.
No entanto, mesmo por trás de toda aquela ousadia que ela deixava transparecer, pude ver como estava nervosa assim que saí. Como estava a ponto de chorar de desespero quando apontei o cano da minha pistola em direção a sua cabeça.
Como sabia que, mesmo com todo o esforço para evitar, tinha conseguido se transformar em um alvo de inimizade para mim.
A maioria das pessoas me olham com certo temor no olhar, o que me incomoda. Parecem aqueles vira-latas arruaceiros que fogem de você quando você está passando. Alguns acham que isso é respeitoso, mas eu não penso assim. Medo é diferente de respeito. E elas sentem pavor de mim. Um simples olhar meu faz várias pessoas tremerem.
Me lembro de algumas pessoas que se tornaram minhas inimigas no antigo acampamento. Eu tinha feito o possível para eliminá-las, como coloca-las em missões que sabia que não iriam sair vivas; não socorrer quando um infectado as agarravam. Mas isso fazia tanto tempo... Eu ainda era namorada do Rezende.
Mas quando saí daquele inferno pessoal, trouxe essas "lendas" comigo. A partir daí, todos me veem mais como uma ameaça, não como uma protetora. Só que... Eu não fazia por mal. E aquilo me entristecia.
Se eu pensei em atirar, e acabar de uma vez com todas com a vida da Bianca? Claro que sim. Se eu teria coragem? Naquele momento, era a coisa que eu mais desejava. Mas ali, fitando o lago, eu só consegui agradecer mentalmente à todos aqueles que me disseram para parar. E ao Damiani. Ele tinha mudado depois daquela conversa.
Só sabia que, naquela hora, eu estava fora do meu controle. E era isso que me deixava contrariada: eu sempre tive pavio curto, então por que diabos as pessoas insistiam em me provocar? Droga!
- Oi...- a voz suave da Luísa chegou como facadas em meu ouvido. Ela chegou mais perto, balançando seu braço enfaixado - Está tudo bem?
- Eu não sei, cara. - murmurei, segurando minha cabeça, como se ela fosse explodir - Eu não sei mesmo.
Ela se sentou ao meu lado, arrancando alguns pedacinhos de grama. Parecia escolher as palavras com cautela.
- Quer me contar o que aconteceu? Você parece... Irritada.
- Nhá. - balancei a cabeça e dei de ombros. Claro que os questionamentos não iriam demorar a começar, então teria que ter paciência para responder todos eles - Nada demais. Eu apelo com coisa à toa mesmo.
- Não preciso nem perguntar pra saber que se trata do Rezende. - deduziu, erguendo as sobrancelhas e enrolando o dedo nuns matinhos.
- Não aguento mais ouvir a desgraça desse nome. - confessei, esfregando o rosto por conta do nervosismo - Meu passado está literalmente me condenando.
Luísa se inclinou para mais perto de mim, tendo um suposto interesse na conversa.
- É sobre aquele lance do seu... - olhou para os lados, e em seguida abaixou o tom de voz - ... Do seu namoro?
- A questão é que isso não é mais um segredo, Lu. - comentei, com um suspiro desanimado - A Bianca sabe sobre isso. E ela está fazendo questão de me lembrar sobre esse fato todo o tempo.
- Puxa vida, vocês estão brigando? - perguntou arregalando os olhos amendoados.
- Não estamos brigando. - esclareci, batendo o dedo de leve na superfície da água - Digamos que estamos oficialmente brigadas.
- Sério mesmo? Caramba! - ela franziu o cenho - O que aconteceu? Me fala.
- Muitas coisas. Resumindo, ela ficou brava porque eu duvidei que o Polado podia ser um cara confiável, e depois disse que eu não tinha o direito de achar ruim porque tinha sido namoradinha do próprio Rezende. E aí a treta maligna começou.
- E então, tudo é motivo pra ela te relembrar isso? - especulou.
- Hm, é. Não vou dizer que não sou grossa também, seria mentira. - Luísa concordou, como se já esperasse esse fato - Mas agora aconteceu que... Ela disse isso na frente de um monte de gente, e eu meio que... Perdi o controle, sabe.
- O que você fez?
- Só...- sorri de lado, como se aquilo fosse uma piada idiota - Apontei uma arma pra cara dela.
- Você o que?! - minha irmã chegou perto de mim, tentando olhar nos meus olhos. Bem típico da minha mãe - Helena, ficou maluca?
- Calma... Eu confesso, não foi coisa mais inteligente a se fazer, mas você sabe, eu sou impulsiva. E além disso, não aconteceu nada, me disseram para parar, e eu deixei pra lá, e saí. Por isso você me viu nesse estado.
Luísa parou por um momento, o olhar fixo em um ponto qualquer, passando o dedo pelo queixo. Parecia considerar a situação, como se tivesse pensando em quem condenaria e em que absolveria.
- Acho que... Sei lá. - soltou o ar pelo nariz - Óbvio que os dois lados estão errados. Você, por ser tão impaciente, e ela por... Chantagear. É errado chantagear! Muito errado. E além do mais, a Bianca não tem medo de que você possa fazer algo mais...
- Não! - soltei, contrariada - Não vou fazer nada disso! Quem torturava pessoas era a namorada do Rezende. Pô Luísa, até você?
- Não foi isso que eu quis dizer, Lelena...
- Eu não sou assim mais, falou? - defini, me levantando - Isso já passou. Você é a que mais sabe.
Saí andando, indo para fora da base para ficar de guarda durante a noite e tentar me distrair com outra coisa.

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