Um zunido agudo e irritante invadiu meus ouvidos quando comecei a recobrar a consciência. A minha nova – e péssima – realidade foi vindo à tona aos poucos, e comecei a me lembrar de tudo: das invasões, das mortes, do sofrimento... e do Rezende. Não, eu não queria abrir os olhos. Não queria ver onde eu estava, não queria nem mais pensar. Primeiramente, eu nem queria ter acordado. Mas foi necessário.
Pisquei algumas vezes, tentando clarear minha visão, e levando os dedos a algum ponto da minha cabeça que latejava pra caramba. Eu me sentia totalmente debilitada, e eu simplesmente odiava me sentir daquela forma. Eu não conseguia nem apoiar meu pé no chão, por causa do estado da minha perna, que parecia pior. Estava mais inchada, com um alto-relevo na parte da canela, uma coloração arroxeada que me dava arrepios, e uma posição meio torta. Meu tornozelo estava apoiado sobre um bloco de pedra, e pelo que parece, tinham tentado enfaixa-lo. Mas só tentado; não sei se os esparadrapos acabaram, ou se eles só desistiram.
- Está melhor?- uma voz alta e irritantemente familiar me abordou, e eu o fitei, parado perto do batente da porta, com os braços cruzados, e me analisando com aquela cara pamonha dele.
- Não.- fui direta; eu não estava com muita paciência para rodeios- Mas não importa, na verdade.
- Ah, não seja tão dura consigo mesmo, querida.- Rezende chegou mais perto e se agachou na minha frente. Em seguida, puxou uma bandeja prateada e enferrujada que estava do meu lado, mostrando o pedaço de pão francês murcho e um copo de leite com café como se fossem as coisas mais saborosas do mundo.
Ele sorriu pra mim, me oferecendo, e eu queria muito socar a cara dele. No entanto, duas coisas me seguraram: o bom senso, e claro, duas correntes pesadas de ferro que prendiam minhas mãos à parede atrás de mim. Elas eram curtas, e mesmo se eu quisesse dar uma bofetada nele, elas não permitiriam. Então apenas cerrei os punhos, me contendo, e retribui à ele um sorriso amarelo.
- Não estou com vontade, obrigada.- respondi, virando o rosto para indicar que eu não queria nada daquilo. Quem me garantiria que ele não colocou veneno de rato no meio do pão? Ou, sei lá, que dissolveu heroína do meio do leite? Eu não podia confiar. E mesmo que eu resolvesse comer, era bem provável que vomitasse tudo aquilo depois.
- Hum... tudo bem, então. Você que sabe.- Rezende voltou a colocar a bandeja do meu lado, e por mais que eu tivesse nauseada, senti meu estômago reclamar. Ele continuou ali, me analisando- Não fique triste, Helena, você sabe que eu não gosto de vê-la assim.
Ah, a doce ironia do destino! Queria poder cuspir na cara dele que minha infelicidade era por sua causa. Sinceramente, não importava se tivesse um bando de zumbis cercando o prédio onde você estivesse tentando se esconder, ou te perseguindo floresta afora. Bem, se você estivesse com as pessoas mais queridas, não faria diferença nada disso. E havia alguns anos, Rezende e minha irmã eram os que eu mais amava, logo depois que meus pais morreram.
- Não quer me ver triste? Devia ter pensado nisso antes, então.- soltei, a voz carregada de sarcasmo e raiva. Eu não suportava nem olhá-lo nos olhos, quanto mais ouvir sua voz.
- Ah, por favor! Não me diga que queria permanecer lá, no meio de todos aqueles... babacas.- Rezende bufou, se levantando- Você morreria logo, logo, Helena. Não percebe? Aqueles são um bando de fracotes! Olhe só pra você! Olha o que aconteceu!
Ele apontou para minha perna, e eu senti meu estômago revirar. Ela pulsava forte, o que me dava calafrios. Eu tinha raiva daquilo, raiva porque eu não sabia lidar com aquele machucado, eu não era uma Maethe. Raiva de quem me fizera cair, principalmente porque eu tinha sido trouxa o bastante para confiar que essa pessoa não merecia minha desconfiança.
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No One Left
Fanfiction"O mundo não era mais dividido em quem influenciava as pessoas e em quem era influenciado. Agora, o mundo era dividido em quem matava e sobrevivia, em quem morria, e em quem era fadado a permanecer no mundo como um monstro. Três anos atrás, o mund...
