Capítulo IX - Bianca - "We're here for you. Always"

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- E então? – Maethe perguntou após eu fechar a porta atrás de mim.
Neguei com a cabeça, olhando para o chão.
- Deixa pra lá... – falei – Eu fui uma idiota mesmo e... Ela precisa descansar. Não quero forçá-la a nada.
Maethe assentiu com a cabeça, embora parecesse não concordar.
Apesar de eu não querer discutir com Helena agora, em um ponto ela estava errada. Ela, Felps, Gabs... Tinham cada um sofrido nosso preconceito ao chegar na base. Mas não como Polado. Por exemplo, nenhum deles era obrigado a andar por aí com algemas nos pulsos.
Passei por toda a base sem olhar para nenhum outro lugar senão o chão. Mesmo que não quisesse ver os estragos agora, sabia que uma hora teria que enfrentá-los.
Cheguei ao cemitério rapidamente, deixando meu pensamentos se resolverem sozinhos. Esperava não encontrar ninguém ali a essa hora da noite. Acabei sentando-me ao lado de Emisu, que parecia fascinado com o absoluto nada à sua frente.
Segurei meus joelhos em um abraço e respeitei o silêncio do local. Após alguns minutos assim, Emisu começou a mexer em algo que havia em suas mãos. Parecia um pequeno objeto metálico e brilhante. Não identifiquei sua forma.
Quando ele colocou o pequeno objeto sobre o túmulo de Nilce, logo à sua frente, reconheci uma pequena chave prata, como aquelas de plástico que abriam diários ou algo assim. Ele olhou para mim com os olhos marejados e sorriu.
Sorri minimamente em resposta.
- Ela ficaria feliz sabendo que você achou a chave. – falei por fim.
Percebi que ele tentou sorrir novamente, mas tudo o que fez foi desabar em lágrimas silenciosas. Puxei-o pelo braço e encostei sua cabeça em meu ombro.
- Tanta gente, Bianca... – ele conseguiu dizer em meio aos soluços – T-todos inocentes.
- Eu sei, Emisu... Eu sei... – passei a mão em seus cabelos, tentando reconfortá-lo.
Eu achava que estava cada vez me tornando mais insensível com as mortes, mas eu simplesmente não derramei nenhuma lágrima após quinze dos nossos morrerem. Quinze.
Andressa, Muca, Bernardo, Beatriz, Authentic, Camila, Amanda, Bruno, Murilo, Paulo...
Não sabia se era o choque que me impedia de sentir algo mais. Talvez eu estivesse tão devastada que não conseguisse mostrar isso à mais ninguém além de mim mesma. Desejava poder chorar por fora, porque por dentro era dez vezes pior.
- E-e o Cellbit... – Emisu sussurrou, fazendo meu coração se apertar ainda mais.
Eu tinha até mesmo me dado o luxo de não pensar em todos os feridos. Os números só pioravam. Entre eles, os que estavam em estado realmente grave eram Cellbit e Luba. Porém parecia que todos na base estavam feridos de alguma forma. Ninguém saíra ileso. A própria Maethe tinha que parar de tratar dos feridos em alguns momentos para tratar de si mesma.
- Ele vai ficar bem. – tentei passar uma confiança que eu mesma não tinha.
- Bianca... – ele voltou a dizer.
- Eu prometo que vai, Emisu. – disse no momento de dor – Ele não vai morrer enquanto eu não for madrinha do casamento de vocês.
Consegui arrancar um sorriso mínimo dele. Infelizmente, eu mesma não consegui sorrir.
- Vamos para base... – falei vendo que Emisu estava quase adormecendo. Era horrível ver que ele dormia pelo cansaço de tanto chorar.
- Não quero... Ver ele daquele jeito... – presumi que falasse de Cellbit.
- E vai dormir aqui? Vamos, Emisu. – puxei seu braço, obrigando-o a ficar de pé. Não podia ter pena agora – Não vou deixar você ficar mal também. Quer que Cellbit te veja assim quando melhorar?
Ele negou com a cabeça com a expressão derrotada.
Enquanto andávamos de volta para base, pensei no clima que aquele evento traria para todos. Eu mesma estava mal; não sabia se teria condições de cuidar dos sentimentos de outros também.
Quando passamos pelo portão, imediatamente cuidei para que Emisu fosse dormir antes de ir checar como estava Maethe. Estava realmente preocupada com ela. Era uma carga extremamente pesada em seus ombros. Mesmo com a ajuda de Alan, nunca havíamos tido tantos feridos, e eu não via eles pararem por um segundo sequer.
Acabei não podendo falar com ela; estava cuidando do caso de Luba. Ele parecia ter tido uma recaída.
"Droga, Luba... Você ainda nem pagou minha aposta." – pensei com tristeza – "Ainda não é hora de ir."
O pior é que, com tantos feridos, nossos remédios estavam sendo gastos como água. Quase havíamos tido ideias malucas sobre parar a medicação de casos mais graves, como se eles não tivessem mais volta. Mas não conseguíamos ser frios a esse ponto.
Subi em nosso ponto de vigia mais antigo, já que o novo estava parcialmente destruído após o ataque. Polado, que já me esperava lá, entregou-me uma sniper e eu posicionei-me em vigia.
Eu e ele éramos do grupo que tinha saído menos ferido.
Não por falta de luta. Talvez apenas sorte.
Polado estava algemado quando conseguiu uma arma de um dos corpos e permaneceu assim durante toda a luta. Sua coragem não impressionou somente à mim. Damiani devia sua vida ao garoto. Se ele não estivesse lá...
Esse devia ser o único ponto bom de tudo; Polado agora andava livremente pela base.
- O apocalipse lembra muito as guerras... – o garoto tirou-me de meus pensamentos – Estávamos tão felizes uma hora, e de repente... – ele fez uma onomatopeia de explosão.
Acabei sorrindo com sua representação.
- Merda de vida, não? – suspirei.
- Se você pensar em todos que morreram... Sim. – ele olhou para mim – Mas não se pensar que ainda estamos de pé.
Era uma boa perspectiva.
- Não pensava que um grupo pudesse aguentar um ataque dessa brutalidade. – ele falou – Não acho que Rezende aguentaria um desses.
- Nós somos mais fodas que ele, fazer o quê. – Polado riu – Mas, falando sério cara, somos uma família. E você é parte dela agora. – ele olhou para mim por um tempo antes de analisar os próprios pulsos, que estavam um pouco arranhados por causa das algemas.
Baixei meu olhar. Talvez não devesse ter falado aquilo. Realmente, ele parecia mais nosso prisioneiro do que parte de nós até o momento.
- Obrigado. – falou após um tempo.
Dei uma olhada rápida em seus olhos, sorrindo internamente.
Passamos o resto do turno em silêncio.
Quando estava quase amanhecendo, Calango e Pk trocaram de turno conosco. Pelo menos agora que estavam feridos, Damiani e Satty estavam sendo obrigados a descansarem um pouco.
Ainda sim, quando eu e Polado estávamos indo em direção ao portão, pude ver o casal saindo da casa. Eles deviam estar descansando. Eu não aceitaria outra desobediência dessas. Caraca, eu já estava pensando como uma tirana agora. De qualquer forma, eles tinham de repousar.
Porém, quando mudei minha rota para ir falar com os dois, senti uma pontada no estômago e minhas pernas perderam toda a força.
- Bianca! – Polado tentou me segurar, em vão. Eu já estava de joelhos antes disso.
Havia perdido a fala, parecia que mãos agarravam meu pescoço, impedindo-me de respirar. Em segundos, as pessoas que estavam por perto começaram a se aproximar, e tudo aquilo só me dava mais desespero.
Suas vozes estavam abafadas e eu comecei a suar frio.
- Ela está se transformando? – ouvi alguém perguntar quando comecei a me debater à procura de ar.
"Não. Não."
Entretanto, eu mesma fiz tal pergunta depois. Meu corpo não obedecia mais aos meus comandos. Minhas unhas arranhavam a pele de meu pescoço, e isso não ajudava em nada.
Polado havia se agachado ao meu lado e agora tentava segurar meus braços sem muito sucesso.
As vozes de meus amigos se misturavam em minha mente:
"Ela foi mordida?"
"Mais uma?"
"Bianca..."
"Precisamos atirar."
"Rápido."
Eu queria gritar para pararem. Eu não estava pronta. Estava com medo.
Muito medo. Muita dor.
À minha frente, vi alguém pegar um revólver e prepará-lo para atirar. Pelo menos a lágrima que passou por meu rosto foi realmente sobre o que sentia.
- Não! Para! – o grito de Polado foi tão alto que eu pude reconhecer sua voz – Ela não está se transformando! Não foi mordida!
- Talvez seja "Mordida Invisível". – alguém falou.
- Eu não sei que porra é essa! – Polado rebateu – Mas eu sei o que tá acontecendo! Vocês tem que me escutar! Você! – ele se dirigiu à uma pessoa específica – Eu sei que confia em mim. Preciso de água. Agora!
Houve alguns sussurros e uma movimentação entre as pessoas. Polado colocou minha cabeça sobre suas pernas ajoelhadas e tirou o cabelo grudado no suor de minha testa.
- Calma... Calma... – acho que ele falava mais consigo mesmo do que comigo.
Senti sua mão sobre meu peito, que descia e subia com rapidez. Sem que eu pudesse evitar, minhas mãos foram de encontro com a sua e eu arranhei-o com força. Ouvi seu protesto de dor.
- Segurem os braços dela! – pediu por fim, e duas pessoas imobilizaram meus braços.
Então, a pessoa que ele havia pedido água pareceu voltar e Polado colocou sua mão livre sobre meu nariz e boca. Tentei me desvencilhar dele, mas não consegui. Ele disse algo e reconheci Damiani à minha frente antes dele molhar a parte descoberta de meu rosto.
O líquido mais frio que meu corpo resfriou minha cabeça e eu parei de me debater. Polado retirou sua mão de meu rosto. Consegui respirar fundo novamente. Olhei para todas aquelas pessoas com olhares preocupados e assustado à minha volta e a única coisa que consegui fazer foi rir.
Um riso fraco e nervoso de alívio, após o medo e o desespero terem saído de meu corpo.
Polado acabou rindo também, e presumi que fosse pelo mesmo motivo. Ele descansou sua testa sobre a minha, sorrindo.
Foi minha última visão antes de adormecer subitamente.

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