Quando parecia que tudo havia acabado, um raio do céu desceu e descarregou milhões de volts de eletricidade em todos os infectados.
Porque estou dizendo uma baboseira dessas? Porque há quase duas semanas não tínhamos presenciado um ataque sequer. Nem quando os grupos de buscas foram atrás de mantimentos. Nenhuma invasão por parte dos infectados em nosso acampamento.
Estávamos de férias há quase duas semanas.
É claro que ainda colocávamos pessoas de guarda, e algumas não saíam de seus postos nunca -como era o caso do Damiani e da Satty. No entanto, a segurança andava muito mais precária do que antes, já que algumas pessoas realmente acreditavam que não sofreríamos ataques novamente, e até se aventuravam fora do base.
Tinha me aproximado mais do Júlio durante esse tempo, e ele se tornou um dos poucos amigos que eu tinha ali. Talvez o único, mas ninguém precisa saber disso.
E as coisas com a Bianca não andavam bem, pois eu odiava o simples fato de jogarem na minha cara algo que fiz no passado. Eu nunca fui uma pessoa rancorosa, mas tinha que desabafar. E não havia contado nada disso ao Júlio, e nem à Luísa. Eles poderiam criar uma ideia errada sobre ela, como se ela fosse chantagista, e a última coisa que queria era uma inimizade dentro do acampamento por minha causa, ainda mais quando Damiani não estava olhando muito bem para ela. Por causa do Polado, claro.
No início, todos o olhavam atravessado, como se fosse o cavalo de Tróia, e se déssemos uma deixa, ele iria fazer com que os gregos - no caso, os capangas do Rezende - entrassem e fizessem um estrago. Confesso que, a princípio, eu mesma idealizei essa possibilidade, porque eu tinha um pé atrás com tudo que se tratava do Rezende. Até que eu percebi que eu mesma tinha tido algo a ver com ele. E Gabs e Felps, mas ali estávamos. Se o cara estava ali, é porque ele procurava por redenção. Por isso, abri minha mente.
O sol havia se posto, mas o tempo parecia um pouco mais... Acinzentado do que normalmente. Eu estava sentada perto do lago, encostada numa árvore, esculpindo flechas, quando senti um odor um tanto anormal. Parecia carniça misturada com desinfetante.
Franzi o cenho e levantei os olhos, mas todos pareciam estáveis. Rindo, brincando, zoando...
Peguei as flechas de madeira e coloquei minha aljava e arco nas costas, me levantando. Passei os olhos pelo lugar, à procura de alguém que pudesse me informar sobre os postos.
Perto dali, encostados em um canto, avistei Emisu e Cellbit. Eles estavam de mãos dadas e cochichavam. Era uma cena tão fofa que por um momento pensei que iria vomitar arco-íris. Mas apenas abafei uma risadinha baixa e caminhei até eles.
Emisu só me notou quando cutuquei seu ombro. Ele pigarreou e se afastou automaticamente do namorado, enrubescendo. Cellbit apenas se mexeu, desconfortável.
- Oi! - disse ele, colocando a mão atrás da cabeça.
- Falaê! - disse, acenando pra ele com a cabeça. Rafael desviou os olhos. Porque toda vez que olhava pra alguém, desviavam os olhos? - Desculpa interromper a "luazinha de mel", mas, Emisu, você sabe se estão de guarda lá fora?
- C-claro que estão. - ele disse.
- Hum, e quem está lá fora?
- Acho que o Muca, a Andressa e a Luísa. - por algum motivo, eu gelei quando ele falou o nome da minha irmã. Ela já tinha ficado na guarda várias vezes, e eu sabia que não tinha que controlar o que ela fazia ou deixava de fazer, mas eu sentia que algo não estava certo.
- Só três pessoas? Só... Três?
- Sim, Helena. - falou Emisu, franzindo a testa- Faz um tempinho que estamos colocando só três pessoas de guarda, você sabe.
Parei um pouco para pensar. De fato, tínhamos decidido que três pessoas na guarda eram o suficiente. Olhei para ele.
- Não está sentindo esse cheiro? - perguntei.
- Eu não tomo banho todo dia, mas não precisa jogar na cara. - Emisu falou em tom de brincadeira, mas senti meu estômago revirar.
Agradeci a ele e saí. Tentei caminhar um pouco pelo gramado, tomar um ar e tirar essas vibrações ruins da cabeça. Queria alguém pra conversar, mas Luísa estava de guarda, e tinha visto Júlio ensinando uma garota morena - acho que seu nome era Sofia - a usar a espada. Por algum motivo, senti um pontada de... Deus, eu tenho que parar de pensar nisso.
Quando meu enjoo já estava insuportável, chamei Saiko, que andava ali por perto. Ele me olhou, e disse que eu estava mais pálida do que normalmente. Tentei não colocar tudo que eu estava digerindo para fora, apenas me acalmei.
- Chame... Chame Damiani. Ou m-melhor... Vá ver se... - minha língua embolava toda vez que eu tentava completar uma frase. Apertei os olhos e cambaleei para trás.
- Opa! - Saiko segurou meu braço e ventilou me rosto com a mão - Você está passando mal? Quer que eu chame a Maethe?
- Não, estou ótima. - falei me desvencilhando - Vá lá fora ver se o pessoal está precisando de uma mão, falou?
Ele me olhou como se eu fosse maluca.
- Helena, ficou doidinha? Nós não precisamos mais de...
Ele parou de falar quando escutamos um grito distante. Nos entreolhamos, e me senti gelar. As outras pessoas não tinham ouvido, pois continuaram com suas atividades.
- Vá chamar os outros. - falei determinada, caminhando em direção à pequena torre que havíamos construído perto do buraco no muro.
- Ei, ei! - ele me chamou - Você está quase desmaiando, não pode combater!
- Droga, Saiko, chama o pessoal!
Ele hesitou antes de sair correndo, chamando quem via pela frente.
A cada passo eu me sentia mais fraca. O arco parecia pesar toneladas e o meu joelho fraquejava cada vez mais. Só que eu tinha que ser forte. Alguma coisa estava acontecendo e eu não queria - não podia - deixar ninguém na mão.
Quando atravessei o buraco, vi que Andressa estava deitada no chão, perto do muro. Seus cabelos platinados estavam cobertos de sangue, e a perna direita também não estava lá essas coisas. Coloquei os dois dedos em seu pescoço, checando a pulsação. Ela estava viva, mas... Não por muito tempo.
Cabia à Maethe apenas bloquear sua dor.
Quando olhei para frente, pude ver Luísa e Muca lutando com um exército de infectados que caminhavam lentamente em suas direções. Os zumbis saíam de dentro da floresta, e eram tantos que pareciam ter se reunido durante todos aqueles dias para realizar o ataque naquele momento.
E pior, pareciam sedentos.
Cada vez mais, Luísa e Muca recuavam, e vi que logo não teriam como lutar mais. Eles gritavam, mas os muros abafavam suas vozes, ou seja, tiveram muita sorte de eu e Saiko termos escutado pelo menos um deles.
Sem pensar duas vezes, comecei a alojar as flechas e atirá-las. Pelo fato de terem tantos zumbis, era quase impossível errar.
Em pouco tempo, as pessoas começaram a surgir a meu lado, atirando, golpeando... E por um momento, me esqueci da minha suposta fraqueza.
De repente, o lugar virou uma bagunça. Havia tantas pessoas ensanguentadas, que passamos a confundir estas com os zumbis, e algumas atiravam. Alguns infectados conseguiam chegar ao nosso lado, e também vi que muitas estavam mordidas.
Tudo que não tinha acontecido naquelas duas semanas se resumiu em longos quarenta e cinco minutos. Naqueles longos, sofridos, desesperados e agonizantes minutos.
Quando o último infectado caiu por terra, pude respirar aliviada. Inspirei o ar com tanta força que meus pulmões arderam. O mundo parecia girar à minha volta, e os sons ecoavam em minha mente de uma forma indecifrável.
De repente, senti um calafrio percorrer todo o meu corpo. Olhei ao redor, mas a maioria das pessoas estavam irreconhecíveis de longe. Eu não estava vendo a Luísa.
Sem hesitar, comecei a andar por ali de uma maneira aflita, olhando o rosto de todas as pessoas que via pela frente, um por um. As que estavam de pé, sentadas, conversando, estiradas... Mortas.
Eu tentava gritar o nome da minha irmã, mas minha garganta parecia fechada, como se o meu pulmão estivesse diminuindo, então eu comecei a hiperventilar.
- Helena! - consegui distinguir a voz de Júlio antes de ele puxar meu ombro - Você tá bem? Nossa... acho que não...
- E-eu... Não acho a... Luísa. Júlio, v-você tem que me ajudar a procurar a Luísa!
- Calma! Calma!
- Não tem como me acalmar, você não entende que ela pode estar morta?!
Eu gritei tão alto que minha voz saiu desafinada. Ele piscou algumas vezes antes de concordar em me ajudar. Talvez eu tenha sido muito grossa com ele, até porque ele não merecia isso, mas digamos que eu não estava em plenas faculdades mentais.
E como se já não estivesse esquisita o suficiente, comecei a chorar. Mas não como as pessoas choram em filmes, chorei como as pessoas emotivas choravam vendo "Para Sempre Ao Seu Lado" pela primeira vez, com soluços e tudo, impossível de esconder.
Júlio me abraçou, o que de certa forma foi meio estranho para mim. Havia tempos não recebia um abraço amigo. Havia tempos ninguém me confortava. Havia tempos ninguém se preocupava comigo.
Me lembro da minha respiração, que foi mais dificultada ainda pelo choro. Também me recordo da dor infernal em minha cabeça, como se tivessem colocado fogo em meu cérebro e... Gritarem o meu nome.
Abri meus olhos com um pouco de dificuldade, e minha visão demorou alguns segundos para focar no teto acima de mim.
- Acordou? - me virei e vi Maethe vindo em minha direção. Ela tinha um sorriso meio triste.
- Onde eu estou? - não soube exatamente porque fiz aquela pergunta, porque eu sabia exatamente onde estava. Entretanto, foi a primeira coisa que veio à minha mente.
- No centro de recuperação. - ela limpou a mão em seu jaleco sujo e olhou em volta.
- Como eu vim parar aqui?
- Você não lembra muito da noite anterior, não é? - ela me olhou, puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado - Você passou mal, Helena. E foi meio feio. Tipo, não conseguiu respirar muito bem... Se lembra de falta de ar ou algo do tipo?
- Sim, sim... - respondi.
- Pois é. Aí o seu cérebro não foi bem oxigenado. E então você desmaiou. E além disso, esse tiro em seu braço infeccionou, o que serviu pra te causar febre. O Júlio disse que você estava hiperventilando quando te viu.
- Eu lembro.
- Sabe... Você não disse que tinha... - ela se virou e pegou um comprimido branco na estante - Asma.
A ideia de eu ter sido acometida de um ataque de asma era um pouco ridícula para mim, até porque não tinha nenhum desde os seis anos, então eu ri, e em seguida tive um acesso de tosse.
- Você ainda está meio fraca. - Maethe franziu o cenho e me deu o comprimido e um pouco d'água.
- Eu estou aqui há quanto tempo?
- Digamos que você está desmaiada por um dia inteiro.
- Um dia? - eu arregalei os olhos com o susto, o que fez Maethe rir. Realmente não esperava que estivesse apagada por tanto tempo, já que tinha a impressão que dormira apenas por, não sei, umas duas horas. Minha cabeça ainda doía.
- Ah, qual é, você precisava. É uma das pessoas que menos descansam. Mas é claro que o Damiani e a Satty são os chefões da insônia, né.
Concordei com a cabeça, sorrindo. No entanto, as lembranças iam retornando à minha mente aos poucos, e, de novo, senti meu estômago revirar. Luísa. Ela tinha morrido havia um dia, e eu estava dormindo.
- E-enterraram todos os mortos? - perguntei brincando com meus dedos.
- Sim. - Maethe disse com ar melancólico - Perdemos tanta gente, Helena...
- E a Luísa? - senti um nó enorme na garganta ao perguntar sobre ela.
- A sua irmã? - Maethe franziu a testa e pensou um pouco - Quer que eu a chame?
- Como assim? Ela... Ela não morreu?
- Viaja não, Helena. - ela riu da minha confusão por um bom tempo, e depois até eu comecei a rir de mim mesma - Ela só quebrou o braço.
Em muito tempo eu não respirei aliviada como naquele momento.
- Maethe, eu quero muito te beijar agora! - falei e ela continuou a rir.
- Isso seria bizarro. - respondeu, erguendo as sobrancelhas.
- Sem dúvida. - senti minhas pálpebras pesarem. Apesar de eu já ter dormido por um dia inteiro, ainda me sentia exausta e indisposta. E com muita vontade de ver minha irmã - Quando vou poder sair daqui?
- Você tem que ficar mais um tempinho em observação, tudo bem? Mas acho que hoje mesmo pode ir.
- Obrigada. - murmurei respirando fundo.
Maethe se virou para trás por um momento e sinalizou para alguém. Em seguida, me tocou com a ponta dos dedos.
- Ela quer te ver. - disse e saiu.
Ergui minha cabeça para ver quem era, com esperança de que fosse a Luísa. No entanto, digamos que eu não estava esperando por essa visita ilustre.
- Oi. - Bianca sentou na mesma cadeira que Maethe estava.
- Hum, oi. - respondi.
Eu realmente não estava a fim de conversa. Estava com sono, enxaqueca e um mal humor terrível. Apenas observei os pequenos arranhões em seu pescoço e um corte em seu lábio inferior. Ela deu um sorriso pequeno, mas eu não retribuí.
- Está melhor? -ela queria apenas ser gentil, eu sabia. Mas tinha uma coisa: eu não queria ser gentil.
- É, acho que sim.
- Não está doendo mais?
- Mais ou menos.
- Vai sair quando?
- Hoje.
Ela soltou o ar pela boca, e quando viu que eu não ia facilitar as coisas, fez a pergunta que tinha ido ali só para fazê-la.
- Ainda tá brava comigo?
- Não.
- Ah, qual é, Helena! Tipo, eu sei que eu não devia ter dito aquilo, e tal, mas você não perdoa nada, também. Ficou de implicância pro lado do Polado, porra.
- Faz-me rir, Bianca. Desculpe se eu não vi na cara dele um Príncipe Encantado, assim, de primeira, como você fez. - soltei irritada.
- Okay, eu entendo, mas é motivo pra ficar de sacanagem? Não precisava ter dito nada daquilo, você foi desnecessária. - ela se recostou na cadeira e fechou a cara, cruzando os braços - E além disso, não é só por causa de ele ter vindo do grupo do Rezende que é do mal. Teve a Gabs, o Felps, e...
- E eu! - a interrompi antes que ela dissesse - Cara, vá se ferrar. Eu estranhei o Polado por uma causa justa, e você tem que compreender. Assim como me estranharam quando entrei, e também o Felps e a Gabs. Mas em quem você tinha que descarregar? Claro, em mim. Então, faça um favor e para de agir como se eu fosse a errada da história, porque eu tinha o direito de alertar o perigo que o Polado poderia se tornar, assim como todos fizeram, mas em quem você teve que jogar na cara os erros do passado? Em mim.
Ela parou por um tempo, sem dizer nada, apenas escutando.
- E-eu... Não estou dizendo que você é a errada da história, Helena... - sua voz estava falha.
- O que eu fiz antes ou deixei de fazer, não importa mais, falou? - ergui as sobrancelhas, mas ela já tinha parado de me encarar - É por isso que se chama passado. Agora, se não for dizer mais nada relevante, dá licença por favor.
Sem esperar que ela falasse algo, me virei de costas para Bianca. Eu estava com muita raiva.
A ouvi se levantando e saindo, e mais algumas vozes lá fora. Provavelmente sobre mim e como fui rude com alguém que queria meramente se desculpar, mas naquele momento eu não estava nem aí.
Apenas fechei os olhos e deixei meu cansaço me dominar.
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No One Left
Fanfiction"O mundo não era mais dividido em quem influenciava as pessoas e em quem era influenciado. Agora, o mundo era dividido em quem matava e sobrevivia, em quem morria, e em quem era fadado a permanecer no mundo como um monstro. Três anos atrás, o mund...
