- Bianca!- chamei pela última vez, mas ela apenas ignorou, e continuou andando em direção à enfermaria.
Era como se um sentimento muito intenso corresse pelas minhas veias, me queimando de dentro para fora. Só de pensar no casal, uma irritação absurda tomava conta de mim de uma forma que eu nunca havia experimentado antes. E a maneira como o restante do grupo me olhava... com receio, medo e até mesmo desconforto. Não sentia mais a confiança de ninguém em mim. Após anos de liderança e o sequestro do Rezende, e era isso que eu tinha ganhado: me tornei a louca neurótica.
Fechei os olhos, esperando minha pressão se estabilizar. Em seguida, andei até Júlio, que parecia bastante calmo ao contar as balas e cantarolar algum rock dos anos 80. Ele apenas notou minha chegada quando me sentei ao seu lado, e me analisou por alguns segundos antes de tirar sua conclusão.
- Parece nervosa- disse, com a voz suave. Com todas essas coisas acontecendo, fazia algum tempo que eu não parava para ter uma conversa amigável com alguém agradável. Sua observação me fez soltar um suspiro longo- Tudo bem?
- Só... estou cheia de coisas na minha cabeça.- respondi. Ele concordou, meio sem jeito, e voltou às balas. Parecia esquisito, calado. Geralmente Cocielo falava muito, mas estava estranhamente taciturno.
- Por causa do Azhagal e Portuguesa.- concluiu depois de um tempo. O modo como Júlio hesitava ao pronunciar cada palavra me fez perceber que ele era apenas mais um integrante do grupo que achava que eu estava sendo exagerada.
- Você também acha que eu estou louca- soltei, com um respiro profundo em seguida. Ele me lançou um olhar que eu não consegui decifrar muito bem, uma mistura de surpresa com inibição- Tudo bem. É, tudo bem. Você é só mais um.
- São duras as suas palavras. Pra mim e pra você mesma.
- O que quer dizer?- rebusquei, sem olhá-lo diretamente nos olhos. Peguei uma pedra do chão e, com distração, comecei a limpá-la lentamente.
- Você se isola de uma forma...- Júlio começou, num tom sério- Acho que todo mundo pensa que você é louca porque você mesma acredita nisso.
- Não é verdade.- o interrompi, me virando para olhá-lo com certa zanga. No entanto, Cocielo apenas ignorou meu protesto.
- E acaba ficando com raiva de todo mundo aqui, e pensando que ninguém te quer, ou que... ou que eles não te merecem.
- Para!- não queria ouvir o que ele tinha a dizer, mesmo que a verdade estivesse martelando em minha cabeça. Eu só não queria escutá-la, e ter que lidar com ela- Eu não sou assim.
- Você sabe que é- Júlio desviou o olhar do meu, que a essa altura estava impetuoso. Percebi a coragem que ele devia ter juntado para me falar tais coisas- E como considera que todo o grupo seja tão ingrato com você, se isola.
Penosos minutos de silêncio se abateram sobre nós dois, ambos refletindo sobre o que tinha acabado de ser dito. Eu, pensando em como isso tudo era verdade, dura, mas era; e Júlio, pensando se deveria mesmo ter dito aquilo. Nos primeiros instantes, me senti furiosa. Contudo, após alguns segundos, toda a raiva se transformou em consternação e abatimento.
- Acabou de descrever a pessoa soberba e presunçosa que eu aparentemente sou- falei, tão baixo quanto um sussurro desanimado.
- Não vou dizer que não seja um defeito seu, Helena- respondeu, e notando que a conversa tinha me deixado melancólica, acrescentou:- Mas defeitos, todo mundo tem. E outra, você pode estar certa dessa história toda. Sim, é uma possibilidade, e eu admiro que esteja lutando pelo que acredita.
- Hum...- rodei a pedra em meus dedos, e a joguei em direção ao rio, observando-a dar dois quiques na superfície da água antes de afundar.
- Vejo que você não domina essa arte- Júlio pigarreou, pegando uma pedra do chão, se colocando em pé. Fez uma preparação, e depois disse, em tom de brincadeira- Observe e aprenda, querida.
E, jogando a pedra, ela deu 3 quiques na superfície antes de afundar.
- Uau. Apenas um a mais que eu. Realmente, brilhante!- o parabenizei, rindo.
- A madame não sabe apreciar uma boa jogada- ele meneou com a cabeça, oferecendo-me a mão para me por de pé- Precisa domar a velocidade, a agilidade. Quer ver?
Fiz que sim com a cabeça, esperando que ele pegasse outra pedra e me mostrasse como ele a jogava no rio. No entanto, e para minha surpresa, se inclinou e lascou um beijo rápido em meus lábios. O olhei com espanto, e ele soltou uma gargalhada.
- Tinha que ver sua cara- disse, ainda entre risos.
Eu não falei nada, e ele também não depois disso. No entanto, o clima que havia se instalado ali não estava em nada desconfortável. Pelo contrário, era acolhedor, e foi tão automático quando tomei seu rosto em minhas mãos e o beijei com ternura.
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O dia seguinte seguia seu curso normalmente, a não ser pelos olhares cúmplices e íntimos que eu e Júlio trocávamos com frequência. Não vi Bianca até a parte da tarde, quando percebi uma confusão perto das plantações. Logo identifiquei Alan, que se agitava enquanto Ashton e Luba o segurava com força. As mãos de Bianca cobriam seu rosto, e eu pude ver o sangue carmesim que escorria de suas narinas quando corri até a cena para compreender a situação. Alan berrava ofensas contra ela, que cravava nele um olhar feroz. Logo mais atrás, Maethe observava a cena com lágrimas nos olhos, apesar do inchaço.
Não pude dizer nada sobre o que se passava, pois a entrada do grupo de busca chamou a atenção de todos. Quando Sasa, Japa e Claire entraram e informaram que o Azaghal tinha sumido, foi como se todos os meus sentidos se aguçassem imediatamente. Troquei olhares com Bianca, achando toda aquela situação completamente estranha. Observei de soslaio por alguns segundos Portuguesa, que levou as duas mãos à boca, num susto e tristeza repentina.
- Como assim... sumiu?- questionei, e logo percebi que o trio estava tão perdido quanto qualquer um de nós quando Sasa deu de ombros e balançou a cabeça- Então, vocês estão dizendo que ele simplesmente desapareceu? Como... como num passe de mágica? Estava lá uma hora, e na outra não estava mais?
- Sei que parece estranho, mas, cara, é isso aí- foi a vez de Japa se pronunciar.
- Noite passada, fomos dormir- Claire começou a relatar, com certo temor em suas palavras- Normal. Montamos nossas coisas, eu e Sasa de um lado da pedreira e Japa e Azhagal do outro. Sem sinal de zumbis, mas Azhagal disse que iria ficar de guarda, pois não poderíamos confiar na calmaria.
- E no outro dia acordamos, e quando olhei, ele não estava mais lá.- Sasa completou, gesticulando com as mãos fervorosamente- Chamei o Japa, perguntei se ele tinha falado pra onde tinha ido, mas ele simplesmente tinha desaparecido!
- E as coisas dele?- Bianca perguntou.
- Ficaram lá. Tudo. Apenas ele desapareceu.
- Isso não faz nenhum sentido...- Lua murmurou, e o grupo silenciou.
Meus pensamentos estavam a todo vapor, e eu não parava de criar suposições em minha cabeça, que era como se estivesse soltando fumaça. E, respondendo o comentário da Lua, soltei:
- Faz todo o sentido pra mim.- a atenção de todos se voltou pra mim, e eu me senti segura para prosseguir com a minha teoria (que, na minha opinião, estava mais do que confirmada)- Azaghal sumiu porque ele fugiu. Simples.
- Helena, deixa d...- Serena começou, e eu percebi que todos estavam cansados de conjecturas, mas eu não poderia deixar passar, então a interrompi.
- É óbvio! Gente, acorda! Se um grupo inimigo o tivesse atacado,- apontei para Sasa, Japa e Claire- é certo que vocês três também teriam sido. No mínimo, as coisas de Azaghal teriam sido furtadas. Se fosse um ataque zumbi, eu não preciso nem dizer que, com toda a certeza, vocês teriam, no mínimo, notado um morto vivo comendo um amigo. Então, só consigo chegar a duas conclusões: ou Azaghal é um traidor e eu estava certa o tempo todo, ou vocês três estão mentindo sobre o sumiço dele.
- Não teria porque a gente mentir sobre uma coisa dessas- Japa garantiu.
- Logo, somos obrigados a aceitar os fatos.- completei, erguendo as sobrancelhas.
- Você está sendo limitada!- Maethe se manifestou, dando um passo à frente- Não são apenas essas as opções, não pode ser. Veja bem, ele pode ter se perdido. É uma alternativa completamente aceitável. Ouviu um barulho e foi atrás... as florestas ao redor podem ser bem sinistras.
- Não.- Claire descartou já de cara a possibilidade, balançando a cabeça- Primeiro, ele não seria tão idiota de ir tão longe, ou até mesmo de ir atrás de um barulho suspeito sozinho, quanto mais à noite. Além disso, rodamos todo o perímetro por uma boa parte do tempo logo após darmos falta dele. Acho que essa alternativa (de ele ter se perdido) está fora de questão.
Todos pareceram estagnados. Ideias sobre o paradeiro de Azaghal ou sobre o que teria acontecido com ele, aparentemente, se esgotaram da mente de todos. Afinal, era algo tão extraordinário, que era difícil de levantar hipóteses. No entanto, eu permanecia segura e certa da minha ideia: era óbvio que era um traidor. As lágrimas e murmúrios de Portuguesa me pareciam agora completamente falsos.
- Então é isso?- Maethe ainda não havia desistido da inocência do casal- Vamos apenas considerar que Azaghal seja um traidor e pronto? Sem discussão? Vamos simplesmente aceitar essa teoria ridícula?
Por alguns segundos, ninguém se pronunciou. O grupo apenas trocou olhares; alguns pareciam nervosos, outros apreensivos.
- Pois eu não aceito- Maethe prosseguiu- Acho que deveríamos abrir mais discussões.
- Eu concordo com a Helena.- Claire disse, com firmeza, e em seguida balançou a cabeça positivamente, meio que para se convencer de que estava dando o passo certo.
- Quer saber, eu também.- T3ddy se pronunciou- É, faz sentido. Faz muito sentido. Acho que a gente devia parar de inventar desculpinha em favor de gente que mal conhecemos, e aceitar que estamos em perigo iminente.
- Eu também estou dentro- Luísa declarou, e me lançou um olhar de apoio.
Bianca, Júlio, Ashton e Eduarda também se colocaram a favor da minha hipótese, aborrecendo Maethe, que logo declarou sua indignação.
- Não, gente, usem a cabeça. Não podemos julgar alguém assim. Ele pode estar em perigo real, enquanto estamos aqui, colocando culpa imaginária nele.
- Maethe, é você quem deve usar a cabeça agora- Bianca rebateu com certa agressividade. Seus olhos pareciam obter um brilho feroz, o que intimidava qualquer um que ousava discutir com ela- Estou falando sério. Desde o início, quebrando essa... maldita regra de não deixar ninguém entrar.
- Eles estavam feridos, Bianca- replicou a outra.
- E quem não está?
- Portuguesa estava grávida! Será possível que todo mundo tem essa insensibilidade?
- Porra, não é problema nosso! Não temos que ficar fuçando onde não convém. Quer saber? Todo mundo sempre vai ter alguma desculpa pra você encontrar uma exceção. Uma brecha numa regra instituída. Por isso que nunca vamos adiante, as regras nunca são respeitadas!
- Gente...- tentei interferir, mas fui atropelada pela contínua discussão. Não conseguia ver onde aquilo ia parar, e todo o resto do grupo parecia paralisado frente ao bate-boca das duas, que pareciam mais agressivas e vorazes do que nunca.
- Isso se chama humanidade. Já ouviu falar?- atacou Maethe.
- Presta atenção em um detalhe: a gente está num apocalipse zumbi. A racionalidade e estratégia são as que mandam agora.- Bianca disparou- Essa sua humanidade sentimentalista e exagerada só vai nos levar pro buraco.
- Vocês...- Maethe se virou para o restante do grupo, soltando uma risada fria e incrédula- Vocês concordam com isso?
- Acho...- foi a vez de Eduarda ponderar sobre o assunto- Bem, penso que aceitar qualquer um é complicado. As minhas experiências quanto a isso são ruins. E aceitar pessoas sem que o grupo inteiro esteja de acordo? Muito errado. Só vai resultar em discussões bobas e violentas, como essa. Tínhamos que chegar em um acordo.
- Todos acham que Azaghal e Portuguesa realmente não são de confiança?- Maethe parecia começar a cair em si depois de ouvir tantas considerações contrárias à sua opinião.
- Temos sempre que estar alerta quanto à isso- Claire ressaltou- Penso que é melhor não confiarmos e esperar pelo pior.
Todos ouviam atentamente à ela; suas palavras soavam com tanta inteligência que era difícil não se concentrar nelas.
- Se estivermos errados- prosseguiu, depois de uma breve pausa- e Azaghal e Portuguesa merecerem nossa confiança e apoio... bem, será tudo apenas um mal entendido. Caso contrário... estaremos preparados.
- É, eu concordo- falei, numa expressão pensativa- mas se estivermos corretos, e creio eu que estamos, como estaremos preparados? Porque se o Azaghal for um traidor, e um traidor sagaz, bem... não sei porque estamos perdendo tempo aqui discutindo. A essas alturas, devíamos estar a quilômetros de distância desse lugar.
- Galera!- todos as atenções se viraram para Júlio, que parecia estático- Cadê a Portuguesa?
A pergunta que Cocielo acabara de fazer passou então a martelar em nossas cabeças quando nos demos conta de que ela tinha sumido. Estava ali, do lado da Maethe, chorando e lamentando pelo marido; mas assim que a discussão se esquentou, ninguém prestou atenção em seus movimentos.
- Merda, ela fugiu!- bradou Bianca.
- Finalmente! Achei que os patetas nunca iriam perceber.
Aquela voz.
Aquela maldita voz.
Eu simplesmente paralisei. Entrei em transe. Senti uma energia péssima transpassar pelo meu corpo, meu estômago embrulhar, minha respiração falhar. Naquele instante, não conseguia nem me virar para olhá-lo. Cada pedaço dos meus pensamentos se ocupou com lembranças amargas que o envolviam: ele me puxando enquanto eu assistia, estagnada, meus pais serem devorados por zumbis; me obrigando a torturar pessoas inocentes; o brilho assassino e selvagem em seus olhos que me tocava o terror; o calabouço; o nojo e medo que eu tinha adquirido em apenas ouvir a pronúncia de seu nome.
A reação do grupo não foi tão diferente da minha. Todos se assustaram, e ninguém foi capaz de emitir um único som frente àquela situação.
- Eu estou pasmo com a falta de cordialidade de vocês. Péssimos anfitriões.- Rezende dizia cada palavra num tom de deboche e supremacia. Percebi Claire e Eduarda derem um ou dois passos para trás, e me dei conta de que elas também tinham certo trauma dele- Azaghal me contou que a entrada dele e da Portuguesa quase não foi permitida. Pelas "líderes" do grupo.
Me virei para olhá-lo. Eu não podia me submeter à covardia a tal ponto de não conseguir nem encará-lo.
O grupo de Rezende tinha mais que o dobro de pessoas que o nosso. Parecia um exército medonho, todos vestidos de preto. Carregavam várias armas, então era óbvio que vieram preparados para nos aniquilar de uma vez. Azaghal e Portuguesa agora haviam se juntado ao grupo, abraçados com o neném e com ar de orgulho que me dava ânsias.
- Se vocês, babacas, tivessem dado ouvidos à pobre Bianca ou à coitada da Helena...- Rezende ergueu os dois braços, e em seguida me lançou um sorriso cadavérico- Mas a burrice de vocês foi de muita utilidade para mim. Meu plano seguiu de acordo com os conformes. E podem agradecer à Claire, Eduarda e principalmente à Helena.
Os olhares se voltaram para nós três agora. Eduarda secou as lágrimas que escorriam pela sua bochecha, e Claire a envolveu em seus braços, cravando os olhos em Rezende.
- Quando demos conta de que tinham escapado, é claro que fui atrás. Afinal, ninguém pode se safar assim, tão facilmente.- ele prosseguiu seu relato- Mas não havia mais nada no antigo acampamento. Contudo, jurei pra mim mesmo que eu não ia descansar até encontrar você- senti seu olhar me atravessar. Claro, o problema era eu- e te matar. E todo esse grupinho. Então, o plano seria mandar Azaghal e Portuguesa encontrá-los, seguir suas pegadas, infiltrar e depois me informar tudo. E vocês foram estúpidos demais para não perceber.
Alan pousou a mão no ombro de Maethe, que não conseguia erguer os olhos. O sentimento de derrota e arrependimento com certeza tinham tomado conta dela, pois não ousava nem olhar para ninguém do grupo. Levei automaticamente a mão à cintura, mas meu cinto com o revólver, adaga e meu arco estavam na parte de cima da casa. Afinal, ninguém esperava essa invasão repentina.
- Por fim, sou obrigado a atacar. E matar todos vocês. Se ajudarem, vai ser uma morte rápida e indolor- assegurou Rezende, pegando sua AK-47- Culpem essas três vagabundas.
Antes mesmo que alguém pudesse esboçar alguma reação, uma faca pequena voou pelo ar, acertando o pescoço –o pescoço!- de um menino do grupo inimigo. Olhei para o lado a tempo de ver Gabs correndo em disparada para o outro lado do campo. Tal ato serviu de deixa para que todo o grupo se dissipasse, cada um correndo para um canto em busca de esconderijos ou armas.
Não perdi tempo e logo segui velozmente em direção da casa, podendo ouvir Rezende berrar "esmaguem aquela puta!". Chegando perto da porta de entrada, ouvi um tiro de pistola ricocheteando no chão, bem atrás de mim, e olhei para trás antes de entrar, podendo ver uma garota que me seguia com a arma.
Tratei de me apressar, subindo as escadas com rapidez. Adentrei o primeiro cômodo que vi, me camuflando sobre alguns panos. A garota entrou alguns segundos depois, com a arma em punho. Seu rosto era coberto por um tipo de máscara negra, feita à mão, que era igual à de todos os outros integrantes do grupo. A observei explorar o cômodo em silêncio total, pois qualquer respirada mais alta poderia me entregar. Quando a moça chegou mais perto, me ergui rapidamente e envolvi seu pescoço com meu braço, deixando-a de costas para mim. Ela se debatia com vigor, tentando apontar a pistola na minha direção, e disparando algumas vezes, mas eu bloqueei seu braço para que não fosse acertada.
Quando ela começou a resistir menos, a guiei para fora do cômodo, ainda agarrada ao seu pescoço, e a empurrei com força, de modo que caísse do segundo andar e se estatelasse lá embaixo. Dei mais uma olhada para me certificar de que tinha feito um bom trabalho, e seu pescoço torto já indicava que eu não precisava me preocupar se a garota estava mesmo morta.
Corri em direção ao último quarto do corredor para apanhar meus armamentos. A pouca luz devido ao fato de que o dia já estava se esvaindo dificultou um pouco o processo, mas peguei meu arco, meu cinto, adaga e revólver.
Abri apenas uma fresta da janela, de modo que eu pudesse ver o campo lá embaixo. As vestimentas completamente negras do grupo inimigo foram de grande ajuda, afinal; elas me permitiram distinguir quem era aliado de quem não era. Posicionei meu arco e flecha, e comecei a atirar em quem eu conseguia ver.
Não muito tempo depois, ouvi passos pesados correndo em direção ao quarto que eu estava, e quando me virei para trás, vi duas pessoas robustas adentrando a porta. Quando um destes avançou, bati em sua cabeça com meu arco, fazendo-o cambalear para trás. O segundo veio e eu saquei meu revólver, mas esse foi mais rápido e me empurrou fortemente com o pé, me fazendo cair para trás e bater a nuca no rodapé da parede.
Minha visão ficou turva por uns instantes, e quando fui tatear o chão à minha volta à procura do meu revólver, senti uma mão me erguer pelo pescoço. Primeiramente, tentei acertar um chute ou agarrar a máscara do homem, mas sem sucesso. Então rapidamente, puxei a adaga do meu cinto, a enterrando na região lateral de seu pescoço. Ele rapidamente me soltou e tentou cobrir a ferida com as mãos, começando a cuspir sangue.
O outro pareceu estar mais recuperado do nocaute com o arco, e logo se ergueu. Aparentemente, não dispunha de armamentos, já que ele foi rápido em catar meu revólver no chão. Mas antes que apontasse para mim, avancei e torci seu pulso, acertando em seu queixo e peito uma sequência de socos e cruzados que fizeram minhas articulações doerem. Por fim, girei meu corpo e meti um chute em seu abdômen, pegando o revólver que havia caído no chão e o matei.
- Obrigada, jiu-jitsu.- entoei enquanto guardava as armas no meu cinto e pegava meu arco do chão.
Dei uma breve sondada no corredor antes de sair do quarto. Descendo as escadas, observei dois corpos do grupo inimigo caídos no chão, e perto da escada, me deparei com David. Me agachei ao seu lado, e foi impossível disfarçar a cara feia ao ver um ferimento aberto em seu peitoral.
- Foi faca...- revelou com a voz tão fraca que mais parecia um sussurro. Ele mal conseguia abrir os olhos.
- Você...- encarei por alguns segundos o sangue vermelho vivo, rasgando a barra da minha calça e pressionando contra a ferida. Era difícil ter uma dimensão real do machucado, uma vez que a escuridão não me permitia ver tão bem. Eu sabia que David estava mal; pra ele bater as botas, questão de poucos minutos. Apesar de faltar palavras em minha boca para confortá-lo no momento, disse a primeira coisa que veio à minha mente.
- Vai ficar tudo bem. Você sai dessa.
Nós dois sabíamos que não era verdade. Ele apenas soltou um riso fraco, tocando meu braço com sua mão trêmula. O pano que eu estava usando como compressa logo se encharcou, me deixando frustrada.
- Droga!- sussurrei para mim mesma.
- Desculpa estar morrendo- murmurou ele- Eu queria impedir... que aqueles dois te achassem. Lá em cima. Não consegui. Foi mal.
- Não tem problema, cara- declarei, tomando sua mão e a segurando com força.
David abriu a boca, como que querendo dizer algo, me fazendo chegar mais perto para ouvir. No entanto, apenas emitiu um guincho baixo e todo o seu corpo perdeu as forças.
- David?- chamei. Seu olhar fixado no teto já comprovava sua morte inclemente- Merda.
Bufei, sentindo meu sentimento de raiva pelo Rezende e toda a sua trupe maligna crescer cada vez mais; principalmente quando saí da casa e me deparei com vários corpos espalhados pelo campo. Me certifiquei que não tinha ninguém à espreita e fui ver quem jazia ali, torcendo para que nem Luísa, nem Júlio ou Bianca tivesse ali no meio.
Passeei pelos corpos como se tivesse num labirinto macabro e sangrento. Quando via alguma flecha encravada em alguém, tratava de pegar e coloca-la em minha aljava. Dos membros do grupo, pude reconhecer T3ddy, Ashton e Serena.
Podia-se perceber facilmente uma disparidade entre o número de pessoas mortas do grupo do Rezende e do nosso grupo; nós éramos melhores em questão de combates. No entanto, considerando que o bando dele era quase triplamente maior, a vantagem pesava muito mais para seu lado.
De repente percebi um grupo de capangas que surgiram no campo. Tentei correr para o lado oposto, mas logo me notaram no meio dos corpos sem vida, e começaram a seguir na minha direção. Para minha vantagem, o arco e flecha era uma arma a ser utilizada à distância. Dando passos rápidos para trás, atirava contra o grupo, que era cerca de cinco pessoas.
Consegui acertar quatro deles; quando me dei conta de que o quinto havia se aproximado demais, foi tarde. Ele empunhou um facão e investiu contra mim, que tentei me esquivar rapidamente, mas acabei levando um arranhão na bochecha. Cambaleei pra trás, sendo atacada mais uma vez, mas consegui bloquear com o arco. Apesar disso, meus braços tremiam com a força que eu tentava fazer, e a pessoa que tentava me esfaquear era bem mais altiva e robusta do que eu, e podia sentir que a qualquer hora iria sucumbir à fraqueza.
Quando considerei desistir de tentar bloqueá-lo, ouvi um tiro e seu corpo caiu o chão. Logo atrás, Claire apareceu. Seus olhos azuis estavam esbugalhados e a pele parecia mais pálida. Ela chegou mais perto, sempre alerta ao que estava acontecendo à sua volta.
- Tudo bem?- perguntou quando se aproximou, e eu senti a dor em minha bochecha quando toquei com as pontas dos dedos o corte.
- Na medida do possível.- respondi, sentindo o sangue morno escorrer pelo meu pescoço.
- Que bom!- ela agarrou meu braço e começou a me puxar para fora do campo- Eu estava escondida naquele canto e vi aquela trupe se aproximando de você. Demorei um pouco a te reconhecer, foi mal ter demorado a chegar.
- Não tem problema, valeu por ter me salvado ali.- agradeci, ao que ela apenas balançou a cabeça.
Ela me guiou até um canto da parede externa da casa, onde podia-se ver claramente o campo e, do lado oposto, o rio. Conseguir distinguir, a metros de distância, Luísa lutando ao lado de Whindersson com seu revólver. Apesar de feliz por ela estar viva, me senti apreensiva, pois havia muitos do grupo do Rezende ao seu redor.
Claire permaneceu agachada, se limitando a atirar apenas de vez em quando. Contudo, decidi que iria proteger Luísa, e comecei a lançar flechas em qualquer um que tivesse perto o suficiente para ser considerado uma ameaça. Quando olhavam na nossa direção, nos escondíamos atrás da parede rapidamente parede.
- Onde está a Eduarda?- indaguei, e Claire demorou para responder.
- Morta.- respondeu, friamente. Ela balançou a cabeça em negativa, numa expressão aparentemente decepcionada- Ela só quis me proteger. E eu fui burra e... bem, não importa agora.
- Sinto muito- lamentei.
- Não importa agora.- Claire apenas repetiu, e voltou a atirar.
Me inclinei para frente, voltando a sondar Luísa. Alguém do grupo de Rezende acertou dois tiros em Whindersson, que logo desabou no chão. Minha irmã, desolada, tentou segurá-lo, acordá-lo de alguma forma. Ela gritava e chorava, e ver aquela cena me apertava o coração. Por fim, seu rosto adquiriu um brilho feroz; puxou sua adaga do cinto e se pôs de pé, avançando contra os inimigos.
"Luísa, fique aí!" era meu pensamento a todo instante, mas minha irmã estava simplesmente enfurecida. Ela queria descontar a morte do namorado, e eu tinha certeza que aquilo não ia dar certo. Quando vi que ela não iria recuar, me levantei e comecei a correr em sua direção no intuito de protegê-la.
- Helena, não!- ouvi Claire gritar atrás de mim, mas eu não queria saber de mais nada a não ser defender minha irmã.
Dois capangas do grupo do Rezende se viraram contra Luísa, mas eu ainda estava distante. Empunhei rapidamente o arco, alojando a flecha e atirei no primeiro, que desabou logo em seguida. Minha irmã tentou golpear o segundo, e eu me apressei em atirar neste também; minhas mãos tremiam, e eu temi mais do que nunca pela vida dela quando ele ergueu o revólver e pressionou a arma contra a cabeça dela. Finalmente, atirei.
Para o meu infortúnio, falhei.
A flecha passou ao lado da cabeça da pessoa de máscara quando essa pressionou o gatilho do revólver, tirando a vida da minha irmã.
- Não!! –berrei em desespero, observando o corpo de Luísa cair no chão como um saco de farinha.
Foi como se uma descarga elétrica de ódio caísse bem na minha cabeça. Marchei na direção do assassino de Luísa, e antes mesmo que ele pudesse perceber minha presença, me atirei contra ele e o derrubei no chão. Puxei a adaga de meu cinto e a enterrei bem no meio de seu peito; e como que me entregando ao prazer de estar com a vida dele na palma de minhas mãos, cravei a adaga em seu peito uma série de vezes, cada vez com mais força.
Quando me senti satisfeita, parei de golpeá-lo e me arrastei até o corpo de Luísa. Seus olhos cor de mel entreabertos, a pele manchada pelo sangue, o buraco bem no meio de sua testa provocado pela bala... meu estômago se revirou com força. Meus lábios tremiam quando fechei seus olhos, tentando recuperar o fôlego e estabilizar a respiração. O sentimento de decepção tomava conta de mim de uma forma estonteante; tinha prometido proteger Luísa, e por causa de uma falha minha, ela estava morta.
Me levantei, olhando o cenário de caos total ao meu redor. Minha visão estava turva, e apenas senti alguém me empurrar com força para o outro lado. Quando meu corpo bateu no chão, pensei que naquela hora eu morreria, já que quem havia me empurrado devia ser alguém do grupo inimigo. No entanto, quando ergui o olhar, vi Lua se agachando ao meu lado.
- O que estava pensando parada aqui?- perguntou, eufórica- Por pouco te acertam com um tiro.
Em seguida, ergueu o corpo e atirou algumas vezes contra alguém do outro lado do rio.
- Pelo que parece eu estou ganhando vários salvamentos hoje- comentei.
- O que?- Lua pareceu confusa, mas rapidamente se levantou e puxou meu braço para que eu ficasse em pé também- Vamos, temos que sair daqui. Está muito perigoso.
Me levantei e corremos para fora da zona de combate. Ao passar pelo canto da parede, notei que Claire já não estava mais ali, mas não tive tempo de ponderar onde ela estaria.
- Está machucada!- Lua fez uma careta ao ver o corte em minha bochecha, sobre o qual eu já havia esquecido. Concordei com a cabeça e ela ficou cabisbaixa- Caramba, isso é culpa minha. Desculpe eu e Maethe termos ido contra as regras do grupo e... termos estragado tudo. É culpa nossa.
- Não...
- É sim. Eu sei que é- ela bufou, provavelmente muito desapontada consigo mesma- Você não imagina meu arrependimento quando vi Azaghal e Portuguesa se juntarem ao grupo do Rezende. Me senti traída. Uma trouxa.
- Todos nós no sentimos assim, Lua. Sério, relaxa.
- Não coloque você no meio- ela ergueu as sobrancelhas- nem Bianca. Vocês duas sempre nos alertaram.
- Bianca...- franzi o cenho, me perguntando onde ela estaria- Cadê ela?
- Da última vez que a vi, estava atrás da casa, do lado de lá.- Lua me informou.
Concordei com a cabeça, segurando o arco com força e começando a andar em direção ao local. No entanto, senti a mão de Lua segurar meu pulso com força.
- Não pretende ir até lá, né?- ela me encarava com seus olhos heterocromáticos- Deve estar cheio dos capangas do Rezende. Quer morrer? Helena, não faz isso.
- Eles podem estar precisando de ajuda!- declarei- Não posso ficar aqui fazendo nada enquanto os outros lutam.
- É questão de sobrevivência- Lua rebateu.
- É questão de honra.
Com isso, ela não disse mais nada e eu segui meu caminho. Não vi para onde ela foi depois da nossa pequena discussão.
Ao chegar no local, vi Bianca, Júlio e Luba num combate desvantajoso contra vários do grupo inimigo; não contei quantos. Apenas me perguntei como eles haviam conseguido se manter vivos até aquela hora; no entanto, os corpos do Japa e Sasa jogados no chão podia me dar uma ideia.
Prontamente, comecei a atirar flechas. Meu nervosismo atrapalhava minha pontaria, e algumas vezes eu não acertava o alvo, me fazendo ficar ainda mais nervosa.
Um homem mascarado bateu com força um taco de beisebol em Bianca, que caiu no chão. Seu facão caiu e ela pareceu zonza por uns instantes a ponto de desmaiar, mas logo recobrou a consciência.
Rapidamente levei a mão à aljava, que continha apenas uma flecha.
Era a única chance de salvar a vida de Bianca.
Coloquei a flecha no arco. Mirei. Expeli o ar de meus pulmões com lentidão. Meu coração estava acelerado e meu sangue parecia queimar; eu não podia errar.
O mascarado ergueu seu taco e Bianca pôs o braço em frente ao rosto, como que o protegendo. Sem hesitar mais, atirei; a flecha pareceu cortar o ar em câmera lenta para mim, e só pude respirar aliviada quando essa acertou o peito do inimigo.
Bianca me olhou e sorriu pra mim, me agradecendo, apesar do terror claramente estampado em seu rosto. Abaixei o arco, pensando que tinha finalmente acabado. Mas eu estava errada.
Quando menos esperava, um mascarado, que eu nem havia percebido, enterrou seu facão em meu abdômen. Emiti um gemido assustado e soltei o arco, olhando para aquelas mãos que sustentavam a arma contra meu corpo. Ergui os olhos por um instante; o olhar da pessoa por trás da máscara era selvagem e odioso. Eles brilhavam como se o assassino tivesse prazer na minha morte. Não tive que conjecturar quem seria por trás da máscara; definitivamente era o Rezende. E ele tinha conseguido o que queria.
Quando ele tirou o facão, senti o mundo à minha volta girar e me desequilibrei. Meus joelhos fraquejaram, e só ouvi gritarem pelo meu nome antes de sentir os braços de alguém me segurar para que meu corpo não se chocasse contra o chão.
Abri os olhos e tossi sangue, segurando minha barriga com a mão e sentindo o gosto metálico em minha boca. Minha respiração estava ofegante, e minha visão demorou um pouco para focar em Júlio. Ele me segurava com força, e o brilho em seus olhos denunciava seu choro desesperado.
- Helena...- e parou de falar.
Ergui minha mão e sequei uma lágrima que rolava pela sua bochecha. Um som irritante, como um apito, ressoava em meu ouvido, e o gosto metálico estava cada vez mais forte em minha boca. Sentia minha força e minha consciência se esvaindo do meu corpo a cada segundo que ser passava. Então era essa a sensação de morrer?
- Tá tudo bem.- assegurei com a voz baixa.
Ele segurou meu pulso com firmeza, parecendo não acreditar em minhas palavras. Acariciou minha mão pousada em meu abdômen, constatando que o ferimento sangrava muito.
- Não morra- murmurou, passando os dedos pelo meu cabelo- Não morra, por favor. Helena, você não pode me deixar aqui sozinho.
- Você não está sozinho- respondi, recuperando o fôlego. Minhas pálpebras começavam a pesar.
- Eu sei que deve estar doendo- disse.
- Não... não está.- fui sincera.
O ferimento não doía, mas era como se minasse todas as minhas energias. Apesar do meu coração acelerado, eu podia, finalmente, sentir paz. Uma paz que eu nunca tive a oportunidade de sentir. Saber que, quando eu fechasse os olhos, tudo aquilo iria acabar; todo o terror, o medo, a apreensão, o cansaço... saber que eu iria para o mesmo lugar de Luísa e meus pais, era reconfortante. Eu poderia finalmente ser livre!
No entanto, os olhos de Júlio me passavam uma sensação triste. Ele estava implorando para que eu ficasse, apesar de saber que eu não tinha como decidir meu destino naquele momento. Mas me dar conta de que eu iria deixá-lo ali, me dava agonia. Por isso, decidi encarar seu rosto a cada segundo que eu tinha com ele. Não queria desperdiçar meu pouco tempo olhando para outra coisa.
- Vai ficar tudo bem- prometi mais uma vez, lançando para ele um sorriso singelo. Era o máximo que eu conseguia.
Júlio se inclinou e encostou seus lábios nos meus. Lentamente, se ergueu e balançou a cabeça.
- Você não vai morrer.
O ar começou a faltar em meus pulmões. Tentei aspirá-lo, mas eles não pareciam trabalhar mais dentro do meu corpo. Uma dor também começou a surgir em meu peito, provavelmente da fraqueza com que meu coração funcionava agora. Ergui os olhos para o céu, sentindo uma lágrima escorrer enquanto eu tentava puxar o ar.
O som agudo em meu ouvido aumentara, e eu percebi a movimentação ao meu redor, mas não conseguia escutar mais nada. Apenas o som agudo. Apenas a falta de ar. Apenas meus olhos que insistiam em se fechar.
E, por fim, cansada de lutar contra o meu destino, fechei meus olhos.
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No One Left
Fiksi Penggemar"O mundo não era mais dividido em quem influenciava as pessoas e em quem era influenciado. Agora, o mundo era dividido em quem matava e sobrevivia, em quem morria, e em quem era fadado a permanecer no mundo como um monstro. Três anos atrás, o mund...
