Capítulo XXI - Bianca - "Trust"

8 0 0
                                        


Duas semanas.
Isso era ridículo.
Já havia se passado duas semanas desde que aquele casal tinha chegado. E parecia que, de repente, tudo estava bem. Era como se não existisse o Rezende, a fome, ou os zumbis. Todos só se preocupavam com o bem estar daquela gente que havíamos conhecido há menos de um mês. Todos visitavam o bebê e queriam carregá-lo. Droga, até tinham feito apostas sobre qual seria o nome da criança.
Todos menos Helena.
Ela podia até negar, mas eu via sua expressão de desconfiança. Ela não confiava naqueles dois. Não me impressionaria se ela desconfiasse até mesmo do bebê. O pensamento me fez dar uma risada sozinha.
Eu não tinha muita desconfiança com o casal, eu só... Não gostava deles. Além do fato de eles serem fruto de uma desobediência do meu grupo ao entrarem ali, ainda tinha aquele... Clima. Como se uma eletricidade tivesse passado por nosso grupo quando aquele bebê nasceu, e agora não tínhamos mais preocupações ou amigos mortos.
Uma sensação de dor transpassou minha mão e me tirou de meus devaneios. A lâmina que eu usava para afiar minha machete havia atingido meu polegar e meu sangue escorria pelos meus dedos. Imediatamente coloquei o ferimento na boca para estancar o sangramento, arrependendo-me na hora em que senti o gosto metálico.
Pensei em ir até a enfermaria, mas eu só não queria ver aquela... Portuguesa. E tinha a Maethe. Ela era uma das últimas pessoas que eu queria ver agora, o que era realmente triste, considerando que era uma das minhas melhores companheiras no grupo. Só... Aqueles olhares. Ela podia desviar os olhos de mim o quanto quisesse, eu sentia. Desde que eu havia tentando colocar aquele casal pra fora, ela me encarava discretamente, como se esperasse meu deslize de caráter novamente.
O som de batidas na porta do quarto em que eu estava me chamou a atenção.
- Ei. - era Alan, com seu tapa-olho pirata, que ele havia pintado de vermelho, insinuando que ficava mais 'com cara de mau' - Ouch, tá tudo bem? - perguntou apontando para minha mão e boca ensaguentados.
- Sim, eu só acabei de menstruar. - respondi ironicamente tirando a mão da boca.
Alan fez uma expressão surpresa e ficou em silêncio.
- Foi uma piada, Alan. - falei - Eu me cortei. - apontei para a lâmina que jazia no chão.
- Ah. Ah, sim. - ele falou e deu um sorriso falso. Aquele só não... Parecia ele? Talvez Maethe tivesse dito algo sobre mim e agora ele estava receoso?
- Então, o que veio fazer aqui? - perguntei quase de forma hostil, pensando no que poderia ter sido dito sobre mim.
- A Maethe... Ahn... Ela tem que continuar estudando aqueles papéis e... Bom, ela não quer deixar a Portuguesa e o bebê sozinhos. - ele falava trocando o peso de uma perna para outra.
- E em que parte esse problema é meu? - ergui uma sobrancelha.
- Bom, você sabe... - Alan estava ficando nervoso - Você podia olhá-los por enquanto.
Dei uma risada do fundo da garganta, que representava toda minha ironia por vir.
- Acho que está me confundindo com o pai do bebê. Procure por uma pessoa careca no acampamento. - falei e me abaixei para pegar a lâmina e continuar meu trabalho, mas Alan me interrompeu.
- Ele está ocupado! - falou num pulo - D-digo, você já deve saber. Ele vai sair em missão...?
Olhei-o com cautela, não parecia estar mentindo.
- Eu não sabia. - anunciei.
Alan parecia arrependido de suas palavras.
- Mas olha só! - continuei - Outro motivo pra eu não virar babá! Estarei muito ocupada indo investigar essa história. - me levantei e fui até ele - E enquanto isso, você faz esse favor pra sua namorada e cuida da dupla dinâmica. - estava prestes a passar por ele quando segurou meu braço.
- A Maethe quer que seja você. - pude ver um relance de... Raiva em seus olhos?
- Desculpe, como? - perguntei me desvencilhando dele.
- Temos gente disponível, é verdade. Mas... A Maethe acha que isso vai ser bom pra você.
Após alguns segundos processando a informação, fui obrigada a rir.
- Então, a Maethe também é psicóloga agora, huh? - minha frase deixou Alan desconcertado - Bom... - olhei para minha mão cortada - Vamos ver se ela é boa nisso também.

, , ,

Quando saí do prédio da base, pude ver uma pequena movimentação de pessoas na base de uma árvore. Dispensei Alan, falando que logo iria ver a Maethe, e comecei a andar até lá. Tomei cuidado para desviar de nossas novas plantações e cheguei ao grupinho, que conversava fervorosamente sobre algo que foi interrompido assim que cheguei.

No One LeftHistórias para pegar e não largar. Descubra agora