Capítulo IV - Bianca - "One Small Betrayal"

67 7 0
                                        




                  


Não consegui dormir à noite. Quase ninguém da base dirigia-se á mim a não ser que fosse extremamente necessário. Eu não sabia se isso era fruto dos acontecimentos anteriores ou eu mesma estava afastando os outros.
Na segunda noite de insônia, decidi oferecer-me para ficar de vigia em nossa torre improvisada no turno do Emisu e do Calango.
- Tem certeza? – Emisu perguntou pelo menos dez vezes – Você não dorme há mais de um dia, Bianca...
Minha mente sequer processava as informações mais, mas eu ainda era capaz de fazer besteiras:
- Certeza. – respondi, embora o cansaço fosse claro em minha voz.
Calango apenas fitou-me por alguns segundos e entregou sua arma para mim antes de descer. Não fiquei impressionada. Emisu era um dos únicos que ainda parecia se importar em como eu me sentia. Ele era meu amigo para qualquer momento.
Apoiei-me no peitoral do local e ajustei a mira da arma corretamente. Emisu permanecia ao meu lado. Ele copiou meus movimentos e ficou em posição de vigia.
- Não vai embora, não é? – sussurrei.
- Nope. – olhei para ele e seu sorriso transmitiu-me paz.
Cada segundo olhando para o vazio pareciam horas em minha mente. A respiração de Emisu era o único som audível. Eu comecei a vagar em pensamentos imprecisos.
Estava deitada no cemitério. A noite estava mais escura do que qualquer outra que já vira. A chama da vela ao meu lado era minha única fonte de luz. Olhei para o lado e vi Emisu sentado com o rosto entre os joelhos.
Sentei-me e toquei levemente seu ombro:
- Emisu...? – sussurrei.
Ele levantou lentamente sua cabeça e olhou-me nos olhos. Porém, eu não tinha visão de suas pupilas, apenas um grande branco ocupava seu olhar. Minha garganta praticamente se fechou.
- É sua culpa. É tudo sua culpa! – ele gritou comigo, e antes que eu fizesse qualquer movimento, senti algo em meu tornozelo.
Olhei para baixo e vi uma mão que saía do túmulo de Zelune segurar minha perna. O desespero se apossou de meu corpo e tentei me desvencilhar, porém Emisu segurou meus braços e prendeu meus movimentos.
- Não lute contra isso. – ele disse calmamente – Vai passar. – seu sorriso era doentio.
Então, diversas mãos começaram a segurar minhas pernas e braços, e minha visão ficou nublada.
Meu grito foi de agonia.
Tudo o que podia ver agora eram os olhos brancos de Emisu. Ele começou a falar, mas sua voz estava normal novamente.
- Bianca, acorde! Bianca! – ele sussurrava perto de minha orelha.
Abri meus olhos em confusão e segurei seu braço com o susto. Ele apontou com a cabeça para trás e eu olhei a tempo de ver Satty subindo as escadas.
- Tudo bem por aqui? – ela perguntou e eu assenti ansiosamente – Não precisam trocar de turno?
- Não, não. – Emisu respondeu – Estamos de boa.
Ela nos deu uma última olhada antes de assentir e descer as escadas. Olhei para Emisu e abracei-o forte sem aviso prévio. Ele assustou-se e demorou alguns segundos para corresponder.
- Obrigada, obrigada. – sussurrei com os olhos lacrimejando.
- T-tudo bem. Não... Não foi nada, Bianca. Eu só impedi que levasse uma bronca... – ele riu e nos afastamos – Falei que deveria dormir.
Eu apenas sorri. Se ele soubesse do pesadelo do qual havia me tirado...
- Pois é... – ri ainda um pouco abalada – E-eu acho que vou tentar fazer isso.
- Okay, vai lá. Eu chamo aquele novato para cobrir o resto do turno. – Emisu respondeu.
- Um novato? Tem certeza disso?
- Já está quase amanhecendo. – olhei para o horizonte, e era verdade. Quanto tempo eu havia dormido? – E eu não vi nenhuma alma morta chegar perto dos portões. – ele riu de seu próprio trocadilho.
Acabei rindo junto. Eu só podia ser retardada.
- Qual dos novatos? Deixa que eu chamo. – falei me oferecendo.
- Aquele loiro, alto... Com aqueles olhos azuis que... – ele percebeu minha expressão confusa e corou, parando na hora.
Dei aquele sorriso de amigo quando descobre que o outro está apaixonado.
- Emisu... – cantarolei – Continua a frase.
- P-para de bobeira e vai lá logo. – ele pareceu tentar não gaguejar, sem sucesso.
- Tudo bem, Emosi. Vou lá chamar seu mozão, ops... o Cellbit. – brinquei e ele tentou me dar um tapa na cabeça, mas fui mais rápida e desci as escadas rindo.
Chegar ao solo firme foi o mesmo que voltar á dura realidade. Os olhares sobre mim enquanto andava, a culpa pesando em meus ombros novamente... As brincadeiras com Emisu já estavam a quilômetros de distância.
Não tive de procurar muito para achar o tal Cellbit; ele já estava de pé, encostado no muro conversando com Felps. Eles tinham se conhecido bem rápido e quase sempre eram vistos juntos agora, infelizmente para namorada de Felps, Gabs, que ficava claramente com ciúmes.
- Ahn, oi... Cellbit? – interrompi a conversa dos dois e ambos me olharam.
- Ah, oi... Ahn... Você é aquela garota que... – ele começou.
- Que enterrou dois corpos ontem? – completei com um pouco de raiva - Eu mesma. Bianca, prazer. Só vim avisar que o Emisu precisa de ajuda na vigia do perímetro.
- Quem? – perguntou.
- O de touca verde; ele já está lá.
- E porque eu? – era a pergunta que Felps também parecia prestes a fazer.
- Não acha que vai ficar aqui sem treinamento e sem trabalhar pra sempre, né? – repliquei.
Ele ergueu os braços em rendição.
- Desculpe. – ele falou e eu arrependi-me da resposta, não gostava de ser grossa, mas minha cabeça estava tão confusa.
Observei o garoto loiro se afastar e subir as escadas.
- Sabe... – Felps falou e eu o olhei – Eu era um grande amigo do Zelune e do Ronaldo...
- Felipe, eu não estou com vontade de falar sobre... –disse.
- Não acho que você tenha culpa. – ele me interrompeu.
Fiquei em choque por alguns segundos.
- O-o quê? – perguntei.
- Você poderia ter simplesmente deixado Ronaldo e Zelune lá, mas... Fez seu máximo. – era um bom ponto – Algumas coisas só... Acontecem, Bia. Não somos donos do destino.
- Mas... Eu fraquejei, Felps. Eu vi Malena e... – de repente, eu mesma já acreditava em minha culpa e queria prová-la.
- E teve medo de atirar. Como qualquer um que tenha um coração. – por que ele estava sendo tão preocupado comigo? – Pensei que fosse isso. Não precisa me contar. Só quero dizer que... As pessoas te olham por pena, por medo do que aconteceu, por ainda não terem superado. Ninguém te culpa.
Silêncio. Só ouvia o som de conversas ao redor.
- Por que está me dizendo isso? – perguntei finalmente.
- Porque... – ele suspirou, parecendo pensar se me dizia ou não – Porque eu era do grupo do lago leste, você sabe.
Assenti com a cabeça. O grupo leste era nosso rival. Eram uns idiotas que se aproveitavam dos outros, liderados por um garoto chamado Rezende.
- E eles gostam de brincar com os novatos. – continuou – Então... Um dia, eles me vendaram. Me deram uma... Arma. – Felps parecia estar tremendo agora.
- Felps, não precisa... – tentei dizer.
- E então... – ele me ignorou – Colocaram uma pessoa á minha frente. Disseram que a escolha era minha. Eu atirava, ou eles atiravam em dois amigos meus, JV e Batista. – coloquei a mão sobre a boca, em choque – E-eu podia atirar só para machucar... E-eu não conhecia, eu não via, não sabia quem era.
- E... E quem era? – tomei coragem para perguntar.
Ele me fitou por alguns segundos.
- Gabs. Era a Gabs. – ele sussurrou.
- Felps... – aquilo estava fechando minha garganta. Como eles podiam fazer algo assim?
- Não atirei. Não consegui. Eles mataram... O JV e o Batista. – ele olhava para o chão – Depois eu fugi de lá com a Gabs e... Não quero dizer que queria ter atirado... Eu amo a Gabs. Amo muito. Mataria qualquer um que a machucasse, ou sequer tentasse. Mas eu obviamente me senti horrível. Ainda me culpo até hoje, e Gabs também. Mas a real é que a culpa... Não é nossa. Demoramos a ver isso. Então, lembrei de você. Desculpe demorar tanto para falar isso, ainda é... Um pouco difícil.
Eu não sabia o que dizer.
- Eu que agradeço, Felps. Por me dizer tudo isso. – eu realmente sentia que o peso em meus ombros estava se esvaindo.
Não consegui segurar minha gratidão e abracei-o. Ele retribuiu.
Isso durou apenas alguns segundos, antes de Gabs chegar e nos separar. Ambos rimos com vergonha, e eu saí de fininho antes que levasse um tapa.
Cheguei á sala em silêncio, tentando não acordar quem ainda dormia e nem pisar nos diversos colchões espalhados no chão. Ter uma família tão grande podia ser bem complicado ás vezes.
Encontrei um colchão vazio e deitei-me, fitando o teto.
Após meia hora tentando pregar os olhos, percebi que não conseguiria dormir mesmo após a conversa com Felps. Resolvi sentar-me no colchão quando vi Luba na porta, fazendo sinais para que eu fosse até ele.
Levantei com cuidado e fui até lá, seguindo o garoto para fora da casa, onde Damiani também parecia estar esperando com Helena e Satty.
- O que aconteceu? – perguntei ao chegar.
- Sabe aquele buraco que foi localizado no muro ontem? – Luba perguntou e eu assenti.
- Já está sendo tapado, não? – perguntei, pois eu vira Alan, Maethe e o tal novato Gusta com ferramentas perto do muro mais cedo.
- Sim, sim. –Helena respondeu – Mas estamos precisando de mais pontos de vigia ao redor da base, e rápido, antes que aconteça de novo e isso afete a segurança de todos.
- Tudo bem, então podemos começar os projetos de construção hoje mesmo... – comecei.
- Estamos sem materiais. – Satty soltou – Sem armas para atiradores.
- E quase sem mantimentos pra tanta gente. – Luba quase sussurrou.
Olhei em volta para ver se alguém nos ouvia.
- Vocês só podem estar brincando. – falei em voz baixa.
- Não brincamos com coisas assim. – Helena disse rispidamente.
Olhei para ela.
- E qual o plano? – perguntei.
- Vamos fazer pequenos grupos. Precisamos de realizar buscas em todos os locais ainda não vasculhados, e o mais rápido possível. Quatro grupos por dia seria o mínimo. – ela respondeu.
- E não vamos demonstrar pânico. – Satty acrescentou.
- Mas estamos em pânico! – Luba replicou.
- Não podemos afetar o resto do grupo! – Satty falou – Essa conversa e esses dados não saem daqui.
Todos concordaram e eu suspirei por fim.
- E vocês ainda confiam em mim pra liderar um grupo? – perguntei e todos me olharam.
- Claro que confiamos. – Helena sorriu com sinceridade para mim pela primeira vez.
Sorri em agradecimento. Então, combinamos nossos grupos e fomos agir o mais rápido possível.
Helena ficaria com Emisu, Cellbit, Felps e Gabs. Satty ficaria com Rik, Felino, Gabbie e Christian. Luba ficaria com Gusta, Kéfera, T3ddy e Calango. Damiani ficaria com Cocielo, Pk e Saiko. E eu ficaria com Alan, Maethe e Phoenix.
Comunicamos os novos horários dos turnos para vigiar o perímetro ao resto da base e saímos quase simultaneamente com nossos grupos, tentando convencer à todos que era apenas um dia normal de busca. Duvidava que tinham acreditado. Apenas o grupo de Helena ficou na base, encarregado de construir arcos e flechas improvisadas e tentar progredir de alguma forma na construção de outro ponto de vigia.
Não tínhamos armas automáticas para todos, então a maioria dos grupos tinha armas de corte ou algum tipo de bastão.
Eu fui na frente com o mapa em mãos. Meu grupo cuidaria de um grande mercado um pouco afastado da base. Não chegávamos muito perto daquela área por ser próxima do lago leste, o que significava que nosso maior rival podia passar por ali para fazer "comprinhas".
Mas numa situação crítica como a nossa precisávamos arriscar.
- Essa não é a tal área proibida? – Phoenix perguntou para meu desespero.
Eu não podia e não queria esconder nada.
- Sim, é ela mesma. – respondi.
Silêncio.
- Devemos estar bem desesperados pra ter que ir lá. – Maethe afirmou em tom triste e eu parei bruscamente.
Olhei para os três atrás de mim.
- Vai dar tudo certo. – tentei não sussurrar – Sempre dá certo no fim. – eu mesma não acreditava naquilo, mas tinha de passar segurança.
Alan me lançou um olhar de pena, que lembrou-me de todos os momentos em que deu tudo errado; do início ao fim.
Ficamos em silêncio até chegar no local. As portas, antes automáticas, estavam completamente quebradas, nos dando livre acesso à parte de dentro. Fiquei preocupada com o que podíamos achar. Devíamos ter trago um grupo maior.
Até o momento não havíamos encontrado nenhum zumbi. Por algum motivo, isso deixou-me ainda mais temerosa.
Cada um de nós ficou encarregado de um andar. Eu fiquei no primeiro. Observei os outros subirem as escadas antes de começar a procurar. Estava um silêncio absoluto, e tentamos manter assim. Vez ou outra eu escutava o barulho de algo metálico ou alguma coisa caindo ao chão nos outros andares.
Fiquei um pouco decepcionada em minha busca. Era a porra de um mercado enorme, mas a maioria estava destruída. O pouco que achei nas prateleiras estava entregue aos ratos, baratas e afins.
Estava começando a ficar com o pé atrás. Aquele lugar estava tão revirado...
Sequer tive tempo de pensar a respeito, pois alguma coisa dura atingiu minha nuca com tanta força que eu caí ao chão completamente desorientada. Minha visão ficou turva e meus ouvidos tinham agora um zumbido incessante.
No momento em que fui tentar gritar, uma mão me puxou novamente para que ficasse de pé e a pessoa pressionou seu braço em meu pescoço, fazendo-me perder o ar e o desespero grudar em minha garganta.
- Parece que seus amiguinhos terão problemas sozinhos. – ouvi o sussurro em meu ouvido e pude escutar zumbis à distância.
Tudo que eu via eram borrões se mexendo, mas consegui notar uma pessoa à minha frente erguer algo antes de ser acertada em cheio no rosto e perder a consciência.

No One LeftHistórias para pegar e não largar. Descubra agora