Arapiraca e Rio de Janeiro.
Entre 1950 e 2009.
Os olhos eram pequenos e deslumbrantes da cor azul. O menino nascera mudo e quieto. Os médicos o chacoalharam na intenção de fazê-lo chorar. A mãe ainda grogue por conta do parto não sabia o que se passava. E o pai do lado de fora da sala de cirurgia aguardava por notícias. Os médicos balançavam o menino mais uma vez até ele começar a chorar e acordar boa parte do hospital.
– Sr. Joaquim? – Fala uma voz serena ao nervoso expectador.
– Eu? – Responde Joaquim.
– Seu bebê acabou de nascer. Ele e sua esposa passam bem.
Joaquim Falcão finalmente sossega ao receber aquela notícia. Nascia ali o primogênito Roberto Falcão, futuro dono da loja "Paraíso".
Roberto Falcão era um menino muito dedicado. Talvez por sempre acompanhar seu pai, que era um homem dedicadíssimo e muito bom empreendedor, ele acabava de certa forma copiando-o, o que resultava diretamente em sua personalidade.
Suas notas no colégio sempre foram boas e lhe rendiam muitos elogios no decorrer dos anos, deixando seu pai muito orgulhoso.
Nos anos sessenta, muitas coisas marcantes aconteceram mundo a fora, inclusive para o pequeno Roberto. A vida era embalada pelo som dos meninos de Liverpool, conhecidos pelo codinome, Beatles, o que o fazia se sentir em um eterno momento de paz. Praticamente tudo estava dando certo para a família Falcão nessa época, a loja "Paraíso" do velho Joaquim continuava se mantendo bem, como todas as outras coisas montadas anteriormente. Além da aparição dos Beatles, banda favorita do menino falcão, a década ficaria marcada em especial por um motivo. Roberto viu a coisa que tinha certeza ser a mais bela que veria na vida. Em uma das negociações do seu pai, ele se apaixonou perdidamente por uma pequena bolsa de couro que continha em seu interior inúmeras pedrinhas de diamantes da sua cor favorita a partir daquele momento. Vermelho.
Ao completar 18 anos, Roberto Falcão praticamente tomava conta junto a seu pai da loja da família. Sabia de tudo que se passava ali. Era um ótimo "gerente" para Joaquim Falcão, que cada vez mais passava as coisas para o filho.
Anos depois, aos 31, quando já era um Homem experiente, outra coisa marcante para Roberto começou a surgir com a freqüência das viagens do pai. Ele praticamente não parava, estava sempre a viajar com negócios pendentes. Roberto não sabia ao certo o motivo dessas viagens, mas, segundo o velho Joaquim, eram viagens para as fontes mais preciosas de seu conhecimento, onde ele negociava as melhores mercadorias e assistia às palestras mais interessantes das pessoas mais experientes do seu ramo.
Certa vez, sem saber por que, Roberto decidiu seguir seu pai em uma dessas viagens. Alguma coisa lhe dizia que algo errado se passava ali. O pai informou como de costume que viajaria. Era o segundo sábado do mês, data sempre escolhida por ele para as viagens. Roberto escutou a informação e balançou com a cabeça dando a entender que estava tudo bem por isso. Quando seu pai saiu, ele passou a se planejar para o plano secreto de segui-lo.
Ao chegar do segundo sábado do mês, como informado, Joaquim Falcão partiu para sua viagem de negócios, seguido por seu filho sem que percebesse. Ele se dirigia até a cidade de Maceió, de onde pegaria seu vôo para seu destino. O clima era praticamente de um filme de ação. Joaquim viajando para Maceió em um ônibus regional, e Roberto seguindo-o em um carro particular. Tudo seguiu da mesma forma durante toda a viagem. Joaquim chegou à Maceió e foi direto ao aeroporto da cidade. Fez toda a rotina necessária e embarcou. Seu acompanhante misterioso continuou no seu encalço avião à dentro. O vôo era econômico, o avião era pequeno, com apenas duas fileiras com assentos para os passageiros. Roberto acomodou-se na poltrona que ficava do lado do corredor, longe da janela do avião. De lá, ele poderia ver todos os passos do pai, que estava a algumas fileiras à frente. As horas seguiram-se tensamente até que o comandante da companhia finalmente informou.
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Tempo é dinheiro - Uma herança de John Dillinger
AcciónO Homo sapiens sempre levou a vida social mais complicada do reino animal, sempre em comunidades cheias de intrigas, fingimentos, traições. Saber o que se passava na cabeça do outro era questão de sobrevivência - e até certo ponto ainda é. A melhor...