Arapiraca e Maceió.
Sexta-feira, 13 de dezembro de 2008.
As roupas brancas estampadas por trás das vitrines fazia a cidade ganhar um tom especial de fim de ano. Era o Natal que se aproximava e todos ficavam ansiosos naquela cidade quando pensavam o que ganhariam de Natal, pois, as mesmas roupas brancas que estavam estampadas, davam essa sensação nas pessoas, um Dejavu, uma sensação de já ter vivido aquilo, ou, de relembrar o passado, quando eram crianças e ganhavam presentes.
Havia muitos anos que a empresa Real Arapiraca localizava-se no centro da cidade, na Rua Expedicionários Brasileiro, no Bairro Cavaco, quase que de frente a um antigo cemitério. Essa localização era bastante distante para alguns funcionários daquela empresa. Principalmente para o Sr. Lourenço, o vigia do estabelecimento. Para chegar ao trabalho, o velho precisava sair de casa as 17h00min, apanhar um ônibus que o levava até o centro, onde de lá, apanhava outro ônibus que iria até a empresa, iniciando assim sua jornada noturna.
Aquele dia não era diferente dos outros, Aurélio chegou após uma pequena jornada nos ônibus pela cidade e registrou sua chegada à empresa. Em seguida, organizou seus pertences. Uma espingarda calibre 12, munições, lanterna e um molho de chaves que prendeu na cintura. Pronto, oficialmente estava preparado para qualquer contratempo que aparecesse por ali se não fosse pela sua idade avançada, 65 anos, fator determinante para a noite de terror que passaria em instantes.
Tudo parecia tão normal como sempre, a ronda já havia sido feita, os ônibus da empresa estavam guardados, os funcionários terminando mais um dia de trabalho e o velho Aurélio acomodando-se em sua guarita aconchegante. A cadeira de plástico na cor azul não era tão confortável, mas servia como uma cama para ele descansar nas altas horas da madrugada. O ventilador pequeno que ocupava o canto esquerdo de sua mesa circulava o ar do ambiente, transformando aquela sala em um convite para uma soneca. O vidro plotado por uma película escura dava a ele a visão privilegiada do ambiente de entrada da empresa, caso seus olhos não estivessem fechados durante o expediente.
No muro lateral da empresa, do outro lado do complexo, o primeiro fio da cerca elétrica de três andares havia sido cortado. Em seguida o segundo e o terceiro. Uma pessoa passou pelo muro. Duas. Três. Quatro. Além de surpreendente a imagem era assustadora. Quatro homens armados, dois com pistolas automáticas, e, dois com rifles sofisticados, todos vestidos da mesma forma. Um simples tênis preto sem marca alguma, uma calça jeans sem marca alguma, um moletom preto com gorro cobrindo metade da cabeça sem marca alguma também e finalizando com meias calças femininas cobrindo o rosto. Todos simplesmente da mesma forma, idênticos e impecáveis.
Mais surpreendente que a entrada repentina dos bandidos na empresa, foi à ação cometida por eles. Como se já conhecessem o ambiente, foram devagar e silenciosamente esquivando-se pelos ônibus que lotavam o pátio até chegarem a uma pequena guarita onde repousava um senhor de 65 anos.
– Acorda velho! – Sussurrou aquela voz longínqua enquanto o cano gelado do rifle encostava sob a boca do frágil vigia.– Não abra a boca sem eu mandar caso não queira fazer companhia ao papai do céu. Leve-me para o cofre da empresa. Rápido.
O coração acelerado, o ar rarefeito e a vista querendo escurecer. Mesmo assim, Sr. Aurélio se manteve firme e forte enquanto era escoltado por quatro pessoas armadas.
Apontando para a sala sem soltar um ruído se quer, Aurélio indicou onde estaria o cofre que continha o dinheiro arrecadado pela empresa naquele dia de trabalho. Em poucos instantes, aquele mesmo seria estourado.
– Muito bem, precisamos entrar no escritório. Leve-me até ele.
Aurélio continuou mudo e moveu-se pelo pátio em direção ao escritório.
– Abra o escritório!
Ele puxou o molho de chaves da cintura de sua calça e com as mãos tremulas colocou a chave correta na fechadura. Girou-a e destravou a porta empurrando ela para fixa-se na parede. Todos invadiram o local e vasculharam as salas até encontrarem o que procuravam. A sala onde continham os computadores com as imagens do ambiente da empresa. Perfeito, o registro daquela ação só seria existente na cabeça do velho Aurélio.
Dando sequencia ao ataque, os Dândis voltaram até o cofre e explodiram-no, retirando toda jornada daquele dia. Prenderam o velho Aurélio numa pequena sala e deram um recado para ele.
– Senhor, sua cabeça é o único lugar onde existe registro da nossa ação essa noite. Sugiro que o senhor se aposente depois de hoje. Lembre-se que nós sabemos quem você é. De toda forma, hoje é seu dia de sorte. Vai viver para contar a história a sua cidade e espalhar o medo.
Otempo era precioso e eles aproveitaram ao máximo. Em seguida partiram. A açãodurou pouco mais que o de costume, pois o ambiente havia sido estudadomilimetricamente. Eles voltaram pelo mesmo local que entraram. Pularam o murode volta para a rua onde um carro preto esperava imóvel com o motor ligado. Nãoera um carro comum de se ver por aí nos dias atuais. Ele brilhava refletindo aluz do poste nos seus detalhes cromados enquanto ficava úmido com a garoa quecomeçava a cair na cidade. Possuía apenas duas portas e era um modelo arrojado,esportivo. Um Ford Maverick 1977.
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Tempo é dinheiro - Uma herança de John Dillinger
AksiyonO Homo sapiens sempre levou a vida social mais complicada do reino animal, sempre em comunidades cheias de intrigas, fingimentos, traições. Saber o que se passava na cabeça do outro era questão de sobrevivência - e até certo ponto ainda é. A melhor...