Sonhos - Parte 1

6 0 0
                                    

Eu estava sentada na praça de alimentação de um grande shopping aqui da cidade, lendo um livro e fazendo anotações, como sempre faço, aguardando um compromisso. Na mesa, um café grande e uma garrafa de água. Meu cabelo estava arrumado, eu estava arrumada. Vestida de calça jeans, sapato de salto baixo e uma blusa de botões, usava batom e brincos grandes.

Parado na fila de um restaurante com um grupo de amigos, lindo como sempre, vestia calça e camisa sociais, sapato preto. Usava cabelo raspado e estava com as mãos no bolso. 

Nossos olhos se cruzaram e ele sorriu. Meu coração palpitou e senti as tremedeiras comuns de quando fico nervosa. Balancei a cabeça, cumprimentando-o; ele retribuiu o gesto.

Pegou a comida, sentou com os amigos virado de frente para mim. Eventualmente, olhávamos um para o outro com um sorriso tímido. Ele conversava com todos do grupo, rindo, feliz. Eu mergulhava no livro e procurava me distrair.

As letras começaram a não fazer sentido. Eu não entendia mais nenhuma frase. O que era uma simples biografia se tornou um livro técnico de medicina - e eu não entendo nada de medicina.

Cerca de quarenta minutos depois, todos da mesa dele se levantaram. Ele falou qualquer coisa, pediu licença e caminhou na minha direção. Os amigos seguiram caminho. Minhas mãos estavam geladas, trêmulas, medrosas. Depois de anos sem nos vermos, como meu coração ainda podia acelerar daquele jeito?

Parado na minha frente, disse apenas "boa tarde" - e eu gaguejei. Ele era firme, eu era idiota. 

- Tudo bem?

- Tu... tu... tudo.

- Posso sentar?

- Po... po... pode. 

Ele sentou. Coloquei o marcador no livro, a caneta no caderno e fechei-os.

- Há quanto tempo! Não imaginei que fosse te encontrar por aqui. Você está sempre aqui? - perguntou.

- Não. Tenho uma reunião em uma hora.

- Soube que você casou...

- Sim, casei. Tenho uma filha também.

- Vou pegar um café. Só um minuto.

Naquele momento, eu não queria mais ser casada. Queria ser solteira, desimpedida, livre e forte. De tudo, apenas forte. Naquele momento, nem isso. Ele voltou com dois cafés.

- O seu já deve estar gelado. Se me lembro bem, você gosta de cappuccino morno. 

- Não precisava se incomodar. Obrigada.

- Não vou poder demorar muito tempo. Preciso voltar ao escritório. Me dá seu telefone... Eu te ligo quando sair.

Dei meu telefone, bebemos o café lembrando os tempos de escola. Nós levantamos, eu guardei o material na enorme bolsa que sempre carrego e estendi a mão para cumprimentá-lo em despedida. Ele olhou minha mão e disse:

- Não me lembro quando nos cumprimentamos assim. Acho que nunca.

- Não temos mais 16 anos.

- Mesmo assim. 

Se aproximou e ficou bem próximo do meu rosto, olhando lá no fundo da minha alma.

- Há muito tempo não fico tão nervoso perto de uma mulher.

Eu não soube o que dizer.

- Senti sua falta, Cecília.

Eu continuava muda.

- Nunca esqueci de nós dois. Por um tempo, andava na rua olhando para os lados esperando pra te ver.

Eu inspirei profundamente. A verdade é que eu tinha feito o mesmo.

- Cheguei a ver você uma vez com o seu marido. Olhei de longe, mas você não me viu. Parei de procurar depois disso. Mas aqui está você, quase tão perto quanto eu gostaria. 

Dei um passo para trás e ele segurou minha mão.

- Não faça isso, JB. Não posso... Meu marido... minha filha.

- Ciça, sempre foi só você pra mim. 

- Mas você tinha namorada...

- Ela era uma amiga e uma distração. Eu queria você. 

- JB, eu preciso ir...

Soltei minha mão e dei mais dois passos para trás.

- Por favor, não faça isso. Eu sou casada e ele não é uma distração para mim.

Ele andou novamente em minha direção.

- Olha dentro dos meus olhos e diz que não era eu quem você queria beijar no dia do casamento.

Olhei para o chão.

- Me desculpa, JB. Preciso ir.

Me virei e fui embora sem olhar para ele. Fugi, com lágrimas nos olhos.

E acordei chorando.

Devaneios CurtosOnde histórias criam vida. Descubra agora