Destino - Parte 8

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Acordei no dia seguinte dançando balé. Subi correndo as escadas do Museu de Arte da Filadélfia ao som de "Carruagens de Fogo", com direito até aos pulinhos finais.  A sensação catártica de conseguir o que nunca se imaginou era intensa demais para ficar presa a um simples sorriso. Sozinha em casa, eu parecia o Gato de Cheshire. Esqueci todo o meu plano primário de achar falhas nele. Ele era irretocável. Gentil, delicado, doce, cavalheiro, muito bonito. Perfeito, eu tinha que assumir, e isso não era um defeito. O perfume afrodisíaco e o sorriso hipnotizante eram capazes de me levar onde quisesse. Eu comemorava, mas não por ele, por mim. A sensação de vitória, de ter conseguido mais de trezentos e sessenta segundos da exclusiva atenção dele – e, logicamente, de ter conseguido provar um pouco dos seus lábios.

Na hora do almoço, um pensamento triste me invadiu. Tinha acabado. Não haveria dia seguinte. Eu não teria outra oportunidade com ele. Eu não era uma exímia beijadora, não era linda como ele e, certamente, ele me achava uma criançona abobalhada. Naquela época, os relacionamentos fugazes eram a regra. Se não houvesse um acordo claro de continuidade, o entendimento tácito era a efemeridade. Lamentável, mas a realidade que eu precisava entender. Foi um momento curto, apenas uma hora com ele.

Fui para a escola cabisbaixa, olhando pela janela do coletivo e percebendo como o mundo girava rápido demais para os apaixonados. Assim que cheguei, minha amiga alcoviteira e realizadora de sonhos estava à minha espera, enlouquecida por notícias íntimas da situação anterior. Romântica inveterada, deliciava-se com a narrativa empolgada que contei e com o final trágico que previ. Eu ainda contava os fatos, enaltecendo minha performance mediana, quando percebi um sorriso em seus lábios. Uma respiração no meu pescoço fez todos os pelos do corpo eriçarem – e eu tomei um susto incomensurável. Me virei e fui surpreendida com um beijo casto e rápido. "Na hora do recreio, eu passo na sua sala". Achei que ainda estava na cama ou que tinha dormido no ônibus, mas o sinal de entrada me tirou do transe e eu, olhos arregalados, anuí com a cabeça.

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