Destino - Parte 4

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Fui para o colégio com a minha mãe em sua enorme perua velha e ansiosa pelas inúmeras possibilidades que aquele local diferente me proporcionaria. O prédio antigo cheirava a mofo, mármore e madeira, mistura inebriante para os apaixonados por história, como eu. Entrei analisando cada pedaço do local, cada minúcia arquitetônica daquela obra de arte do século XIX. 

Papéis com listas de nomes estavam afixados nas paredes. Os alunos haviam sido separados por turmas – 10 turmas no total, com 30 alunos cada. Era muita gente e eu previ que passaria os três anos invisível novamente. Fiquei um pouco animada, confesso, quando percebi que a diversidade étnico-social era maior. Pessoas de classes muito mais variadas do que o inspirador par marxista – ainda que eu tenha me identificado mais com o socialismo libertário. A verdade é que nós, alunos, não éramos apenas dominantes e dominados; éramos os miseráveis, os muito pobres, os pobres, a classe média baixa, a classe média alta, os ricos, os muito ricos e os milionários. E todos estavam ali, procurando seu nome nos quadros, submetidos às mesmas regras, aprendizes dos mesmos professores.

Achei finalmente a minha turma e me dirigi a tal sala, procurando a cadeira mais longe da mesa do professor e quase virando um quadro afixado na parede oposta a ele. Com pouco mais de 1,5 metro e muitos graus de dificuldade ocular, esta distância logo se tornaria um problema. Eu resolvi que ia me virar estudando dobrado em casa – e isso só funcionou até a primeira avaliação, quando minhas notas me obrigaram a tomar medidas drásticas e pular para a terceira fileira.

Com os grupos formados por amigos que se abraçavam, no segundo mês de aulas eu ainda não saía da sala nos intervalos. O bicho-do-mato dentro de mim falava mais alto; gritava no meu ouvido para eu me esconder dos seres estranhos que se grupavam e riam juntos. Uma alma caridosa, percebendo a minha solidão diária, entrou na sala e sentou-se ao meu lado, falando em disparate pelos 20 minutos remanescentes. Nos tornamos amigas. Não éramos da mesma turma, todavia. Ao soar da sirene de fim do recreio, ela seguia serelepe e saltitante para a sua própria sala. 

A proximidade do meu aniversário deixou as coisas confusas e, para ser bem sincera, foi o verdadeiro marco de mudança na minha vida adolescente. Eu ainda escondia o lugar onde morava e me escondia em profundos óculos de grau, dentro da sala ou, no máximo, em caminhadas invisíveis com minha grande amiga. Então, não convidei ninguém e nem mencionei a festividade. Mas uma coisa é certa: no dia seguinte, todos notaram a diferença. Não na idade, mas nos olhos. O vidro grosso que sempre foi parte integrante do meu rosto deu lugar às delicadas lentes de contato – e passei a me ver com bons olhos. Com o tempo, descobri uma parte de mim que havia dormido na timidez. Eu percebi que sabia falar com outras pessoas e essa constatação veio acompanhada de muitas amizades. Sim, eu não tinha grupo; mais da metade dos alunos, todavia, me cumprimentava, sorria para mim e fazia eu me sentir bem. 

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