Capítulo 2

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~Gabriel~

10 ANOS ANTES

E então era isso. Ela foi embora. Depois de chorar dias e dias por ter perdido a única garota que me fez ter vontade de viver, Carlos veio me ver. Ele sabia do que havia acontecido porque Melissa havia contado. Não tudo, mas o suficiente para que ele não insistisse mais em trazê-la aqui.

— Em partes, eu concordo com você, Gabriel. — ele disse sincero — Minha filha realmente não merecia, mas ela gostava de você de um jeito absurdo. E eu sei que você também.

— Sim... — falei baixo — Eu a amo. Porra, como eu gosto dela! — ameacei me levantar.

— Se acalme. Lembre-se de que até seu comportamento aqui vai influenciar o veredicto. Sem movimentos bruscos.

Foi o que bastou para eu me sentar novamente. O que eu menos queria na vida era ficar ali por muito tempo.

— Posso pedir uma coisa? — perguntei e ele assentiu — Peça a Melissa que tranque minha casa. Não me lembro se fiz isso direito quando saí, e tem muitas coisas que eu amo lá dentro, ela sabe quais são. Só... trancar a casa. Ela tem a chave.

Ele franziu o cenho quando eu disse que a sua filha tinha a chave da minha casa, mas não disse nada. Apenas assentiu. Depois que Melissa precisou pular o portão para entrar, eu decidi fazer uma cópia e deixar com ela, mas ela quase nunca usava porque sempre estava comigo quando ia para minha casa.

Depois de concordar, Carlos foi embora, logo após me dizer que  o processo já estava rolando. Que ótimo.

Eu voltei para a  minha cela. Essa merda de vida de detento estava realmente me irritando. Privacidade quase zero. Liberdade nula. Não nasci para ficar preso. A cada dia que passa, eu me seguro para não ter uma crise de  abstinência. Não estou acostumado a ficar tanto tempo sem usar. Sei que está fraca pois está no começo. Mas vai chegar uma hora que eu vou explodir, e eu espero que Melissa não saiba disso.

Ah, para! Esquece ela, caralho! Para de pensar nela! Meu cérebro gritava. 

Eu entendia, era uma forma de me proteger. Quanto menos eu pensasse nela, menos sofreria. 

Ou não.

A questão era que não dava. Quando eu estava sozinho, eu lembrava de músicas e quando isso acontecia, imediatamente nossas músicas me vinham à cabeça. Shattered wings, You found me, Incomplete, Inconsolable e Paint me red tocavam sem parar dentro dos meus neurônios, juntamente com Foo fightes e Pearl Jam. E era impossível lembrar dessas músicas ou dessas bandas e não lembrar de Melissa.

E era impossível me lembrar dela sem me lembrar das merdas que fiz. E isso me fazia querer morrer. Literalmente.

Eu ainda vou ficar limpo, prometi a mim mesmo, e quando esse dia chegar, eu vou procurar Melissa.

E vou encontrá-la.

Do mesmo jeito que ela me encontrou.

~Melissa~

Eu queria muito socar a cara daquele imbecil. Minhas emoções eram um mix de tristeza e raiva. E eu sabia que só estava usando a raiva para esconder a tristeza que me dominava.

Duas semanas. Fazia duas semanas que eu não o via, que não nos falávamos, e eu estava literalmente ficando louca. O resultado do teste havia saído na semana passada, e, adivinhem, positivo. Na verdade, não me surpreendi muito, mas ainda era assustador.

Recebi um sermão da família inteira, claro. Todos me olharam estranho no dia e eu acho que era algo com que eu devia me acostumar. Todos olhariam torto para a garota que vai ser mãe na adolescência. Não só na minha família, mas no mundo lá fora também. É algo que simplesmente acontece.

Gabriel nunca me olharia assim.

Parecia que fazia tanto tempo que ele estava lá. Mas, de acordo com minhas contas, fazia quase três semanas, mais ou menos. E quanto a mim, quase três meses de gestação. Eu não queria pensar nisso e evitava ao máximo, ainda mais porque a minha relação com a minha mãe demorou muito tempo para voltar ao normal.

Ela conversava com o meu pai diversas vezes e chorava sozinha. Eu entendia que para ela estava sendo difícil aceitar, então dei espaço.

Depois de algum tempo, nossa relação foi melhorando aos poucos. Ela ainda não era muito fã da ideia, mas ao menos conseguiu se acostumar, afinal, não tinha outra opção. 

Quando a sua ficha finalmente caiu, ela se ofereceu para ir comigo comprar roupinhas e outras coisas. Ainda estou muito magoada com a forma como ela reagiu quando descobriu. Não esqueci a agressão, então claro que ainda estou com raiva e nego sempre que ela toca no assunto de lojas. Enquanto ela não me pedir desculpas ou ao menos se mostrar arrependida pelo que fez comigo, não vai rolar.

Diversas vezes, eu me pagava pensando em Gabriel. Até quando não queria. Eu repassava nossa conversa sem parar na mente e, em especial, uma das últimas coisas que ele me disse a última vez que o vi.

"Você não merece deixar de sair com amigas porque tem que ver seu namorado maluco na cadeia. Não merece viver meses na dúvida, sem saber se vou sair bem dessa ou não, não merece viver com medo de eu ter uma crise de abstinência a qualquer hora. Você não merece me ver todos os dias nessa situação, dormir preocupada comigo."

Realmente, eu não merecia tudo aquilo. O que Gabriel fez foi estupidamente errado e todos esses dias eu tentei encobrir seu erro para não me deixar levar pela tentação de me afastar, justamente porque eu não queria me afastar. Mas eu sabia que era o certo a se fazer, o que somente contribuía para a confusão de sentimentos crescendo dentro de mim.

Eu estava com saudade. E mesmo que um dia ele saia de lá, mesmo que eu me case, tenha mais filhos e more longe daqui, essa saudade nunca vai passar.

E meu amor também não.


Os Opostos se Atraem? - Livro 2Histórias para pegar e não largar. Descubra agora