Capítulo 9

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 ~Melissa~

— Oi, peste! 

Bruna entrou em casa e me abraçou.

— Fala, por que você precisa da conselheira aqui?

— Como sabe que preciso conversar?

— Desembucha.

Ela se jogou no sofá e eu me sentei ao seu lado.

— Bom.. — comecei.

— Espera. Estou com fome. Tem pizza? — perguntou, já a meio caminho da cozinha.

— Não.

— Vai Nutella mesmo. — ela veio com um pote e duas colheres e se sentou do meu lado.

— Essa Nutella é da Bella. Só avisando. E ela vai te matar.

— Se eu cumprir a promessa de dormir uma noite com ela, ela me perdoa.

— Faz um ano que você prometeu isso. E faz um ano que ela te cobra.

 — Vai,  desembucha.

— Você se lembra do Gabriel?

 — O gostosão que te engravidou? — deu mais uma colherada

— Sim — rolei os olhos —Tenho uma leve impressão de que a Bella conversou com ele hoje.

Ela parou com a colher a meio caminho da boca.

— O quê?

— No velório da mãe dele. Eu fui. Bella insistiu para vir comigo. Eu sabia que ele podia estar lá, mas não o vi a princípio, então imaginei que não estivesse. Ao menos, não aquela hora. Bella saiu de perto de mim, e eu a vi conversando com um rapaz alto e loiro. Quando eu a chamei e me aproximei, ele se foi. Não sei se me viu.

— E só existe o Gabriel de homem alto e loiro?

— Não, idiota, mas eu estava no velório da mãe dele, entendeu? As chances só aumentam. Bella disse que ele tinha olhos azuis iguais aos dela. Escutou? Ela disse iguais. E ela é o tipo de garota que falaria algo como "Ele tem olhos azuis mais escuros/ mais claros do que os meus". Bella é bem observadora e detalhista, você sabe.

— Tá, isso é verdade. No dia do aniversário de 6 anos dela, ela me olhou e disse que eu estava sem calcinha. E nem data para ver, eu estava de jeans escuro, como ela viu isso?

— E você estava sem calcinha? — levantei uma sobrancelha.

— Sim. — ela riu — Matheus havia rasgado a minha. A gente estava na casa dele um pouquinho antes da festa.

— Não entendi por que terminaram.

— Longa história. Continua.

— A questão é: Bella tem exatamente o mesmo tom dos olhos de Gabriel. Nada muda. Ele é o único cara com olhos azul-escuros que eu conheço. É um tom extremamente específico.

Bruna não disse nada por um tempo.

— Tá, tudo bem. O que eu tenho a fazer é te perguntar: e se for ele?

— Eu não sei. Se for, ele falou com a filha sem saber; se não for, ainda não sei onde ele está.

 — Ele tinha a tal tatuagem? Esse cara tinha a tatuagem que o Gabriel tem?

— Não sei.— encolhi as pernas no sofá.— Que merda.

— Que merda. Uma merda bem grande. Mas, sabe, Mel, acho que ele tinha que saber. É filha  dele. Filho é uma coisa que não dá para desfazer, ele tem que aceitar. Talvez até goste.

— Ele tem uma vida muito instável, Bruna. Tinha, pelo menos. Não sei como está agora. Em um segundo ele está sorrindo para você, e no outro ele pode estar cortando o último fio da corda que te impede de cair para a morte. Esse é o Gabriel. Bipolar. Mas... ele tem uma coisa... Tinha uma coisa que me fazia... Não sei. Ir para perto dele sempre, ficar com ele e querer mais... Difícil explicar.

—  Amor. É bem assim.

— Nem me fale.

— E Renato? Como ele está? 

— Estressado por causa da editora. Parece que tem uma funcionária lá que não está trabalhando direito, é complicado — suspirei. 

 —Brigando muito?

— O de sempre: às vezes. Casais brigam.

— Sim. Brigam. Falando em casais, eu tenho uma coisa para contar. Conheci um garoto.

— Novidade — rolei os olhos e ela jogou uma almofada em mim.

— Tô falando sério. Nathan, apelido de Nathaniel. A gente se conheceu duas vezes.

  A olhei sem entender.

— A primeira foi quando eu estava no parque tomando um sorvete que minha TPM tanto pediu, e vi ele passando. Aí o telefone dele caiu do bolso do jeans, e ele nem viu. Saí correndo e entreguei, aí ele sorriu — ela se encostou no sofá sonhadora — E que sorriso...

Não pude deixar de rir.

— A segunda foi quando eu estava saindo do trabalho, lá do escritório, ontem. Saí mais tarde porque fiquei lendo um manuscrito, e ouvi alguém me seguir. Dava para perceber que era um cara, então eu comecei a correr. Quando olhei para trás para ver se ele ainda estava vindo, trombei com alguém. E era ele, o Nathan. Ele percebeu o que estava rolando e perguntou para o cara: "O que está fazendo com minha namorada?" num tom de ameaça. O cara se virou e foi embora, então o Nathan me acompanhou até em casa e trocamos telefone. Conversamos um pouco hoje. Só quero ver no que vai dar.

— Olha só, arranjou um herói para você.

— Estou até pensando na fantasia de qual heroína vou usar para ele quando estivermos no motel.

— Meu Deus, Bruna! 

  Nessa hora, fomos interrompidas pelo toque do  meu celular.

— Alô?

— Doutora Melissa, tudo bem? É a Patrícia, da recepção. Seu plantão de amanhã foi trocado para hoje.

— Que horas?

— Para hoje à noite, mas precisamos da senhora aqui agora. Consegue vir? Acabou de chegar um paciente à beira do coma alcoólico. Vou mandar a equipe prestar os primeiros socorros o mais rápido possível e esperar suas ordens.

— Me dê 5 minutos. —falei, já me levantando e desliguei o celular

— Hospital de novo? Mas eu nem acabei de contar!

— Bruna, chegou o dia de cumprir sua promessa com Bella. As amiguinhas dela vão vir, não posso desmarcar. Avise Bella que precisei sair com urgência, durma aqui com elas, pegue minhas roupas se quiser. A casa é sua.— enquanto eu falava, fui fechando o casaco e colocando os sapatos. Soltei o cabelo.

 — Virei babá?

— Por hoje, sim. A gente marca de sair depois. Tem um cara que acabou de chegar no hospital, está à beira do coma. Não quer que eu assista ele morrer, quer?

 — Quer mesmo saber minha resposta?

 — Tchau. Se comporta — peguei a bolsa — Elas são só crianças. O Vinícius e a Alice vão trazer elas. Até amanhã.

Saí correndo de casa, arranquei o carro cantando pneus em direção ao hospital, imaginando quem seria o idiota que bebeu até quase morrer no meio da tarde e se ele tinha um motivo forte o suficiente para fazer isso.

Provavelmente, não.

Os Opostos se Atraem? - Livro 2Histórias para pegar e não largar. Descubra agora