Capítulo 8

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~Gabriel~

Não fui para casa.

Dei algumas voltas na cidade, sem rumo. Perdido. 

Melissa tinha uma filha.

Minha tia ligou. Busquei-a depois do enterro. 

Melissa tinha uma filha.

Fizemos checkout no hotel e a levei de volta para sua casa, há duas horas dali, prometendo que logo voltaria para vê-la.

Melissa tinha uma filha.

De volta em Ribeirão Preto, sequer pensei antes de estacionar na porta de uma cachaçaria muito conhecida na cidade. Há pelo menos 15 anos, era um dos melhores lugares para ir quando você queria beber coisas caras e gastar dinheiro. A fachada era bem elegante e em uma das paredes havia uma coleção enorme de bebidas que custavam uma fortuna.

Nessa coleção, estava uma vodca polonesa chamada Spirytus Rektyfikowany. Uma relíquia. Uma das bebidas mais fortes do mundo, com teor alcóolico de 96%. Eu já havia ouvido falar dela. Bastavam dois copos para ficar embriagado. 

Pedi uma dose. Desceu queimando.

Fechei os olhos, mas tudo o que enxerguei foi Melissa. Quem ela era agora? Ainda era a mesma, mesmo sendo mãe ou havia mudado sua essência de alguma forma? No que ela havia se formado?

O que estaria ela fazendo agora, neste momento, enquanto eu estava aqui, pensando nela?

Mais uma dose. Minha visão desfocou.

Quando lembro do nosso passado, me pego pensando que éramos jovens e estúpidos. Será que ela ainda se lembrava disso? Será que ela ainda se lembrava dos desenhos que dei a ela, dos poemas que fiz para ela, de tudo o que eu já disse?

Eu passei 10 anos tentando não me lembrar do seu nome, passei 10 anos imaginando que seria bem mais fácil não me lembrar dela para poder continuar vivendo. Mas agora, ao vê-la ali, mesmo de relance, percebi que era tudo uma grande mentira.

E ela é mãe.

Não importa o quanto eu lute, não importa o quanto eu tente esquecê-la. Ela não sai da minha cabeça. E me dói pensar que talvez ela nem saiba disso.

Eu ainda preciso dela, eu ainda me importo com ela.  Mesmo que todas aquelas malditas coisas aconteceram, mesmo que eu disse para ela que não queria mais vê-la, eu ainda a sinto perto de mim, como se ela estivesse bem ao meu lado.

Mas faz 10 anos que não tenho notícias dela, e isso não foi o suficiente para apagar o que sinto.

Era irônico pensar que ao invés de seguir em frente, eu simplesmente me recusava a enxergar que eu estava preso no passado. Pensei ter superado, mas estava preso em um momento nosso, que talvez não devesse ter durado. Mas durou, muita coisa aconteceu. Depois de todas aquelas coisas, desistir me pareceu o certo. 

Mas eu devia ter lutado. Ela fazia questão de me ver, eu devia ter deixado. Devia ter aceitado. Não deveria ter me mudado de cidade, não devia tê-la abandonado.

Não adianta lamentar agora. Já estava feito.

O líquido desceu mais uma vez queimando minha garganta.

Fechei os olhos novamente. Se eu me concentrasse, poderia sentir sua mão delicada e meu ombro, descendo pelas minhas costas e acariciando. Era o que ela fazia quando percebia que eu estava tenso. Eu me apeguei tanto àquela garota.

Preciso dela, pensei pela segunda vez. Já cheguei ao ponto de gritar sozinho no quarto "Não me importo!", me referindo a não estarmos mais juntos. Mas eu me importava, como eu me importava. Queria pedir para que ela esquecesse todas aquelas coisas e voltar para mim. Eu definitivamente tinha mudado.

Mas não ia mudar nada. Mesmo que eu tenha mudado, mesmo que ela saiba que não sai da minha cabeça e diga "não" se eu pedir para voltar para mim, eu ainda precisarei dela, ainda a amarei.

Queria poder ir até lá e encontrá-la novamente. Do mesmo jeito que ela me encontrou da primeira vez que nos conhecemos. 

A quarta dose descia pela minha garganta.

Eu estaria perto dela... e diria... Diria que nunca mais a deixaria ir. Nunca mais...

Na sexta dose, o dono do lugar estava alerta. Meus olhos estava se fechando sozinhos, e eu não sentia mais o gosto de nada, nem ouvia mais nada.

Não sentia mais nada. 

Ouvi alguns gritos de espanto. Começou uma correria. Alguém disse algo como "ambulância", mas por quê? Estava tudo bem.

Meu corpo caiu com um baque surdo no chão.

Tudo ficou preto.



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pequeno, mas tenso

Lembrando: Ingerir quantidade de álcool a mais que o corpo suporta pode levar ao coma alcólico.

Para as meninas que não entendem inglês, coloquei a letra toda traduzida no capítulo (Claro que não uma frase abaixo da outra, bonitinha, mas se pegarem a tradução, verão que eu introduzi as frases em português no meio do capítulo e para isso tem o link abaixo)

https://www.vagalume.com.br/backstreet-boys/i-still-traducao.html

Até mais!! Besitos

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