Capítulo 13

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~Gabriel~

E ela bateu a porta na minha cara. Cerrei a mão em punho embaixo do lençol. A xinguei mentalmente, mas depois respirei fundo.

Porra, Melissa.

Calma, Gabriel. Você está no hospital, lembrei a mim mesmo, há máquinas ligadas a você e qualquer alteração fora do normal pode fazer alguma enfermeira maluca aparecer e me sedar. E o que eu queria era ficar acordado, repassando os últimos acontecimentos na mente.

Os últimos acontecimentos... Arregalei os olhos quando a morte da minha mãe me atingiu em cheio no peito. Eu havia me esquecido.

Mas o luto é assim, me lembrei. Em um dia, lembramos, no outro esquecemos. E todas as vezes ainda dói, por anos. Talvez para sempre.

Não vou chorar. Não vou chorar. Não aqui. Já pareço vulnerável o suficiente deitado nessa cama sem poder sair. Chorar já é demais.

Fiquei tão imerso nos pensamentos que me esqueci completamente de Nathaniel. Eu me lembrava de que nos falamos algumas vezes por telefone depois do falecimento, e o maluco disse que mudaria de cidade junto comigo de vez, ou seja, para cá.

Nathaniel, ou Nathan, foi meu colega de cela. A história dele ainda é mais triste do que a minha. Ele era casado, mesmo novo, e amava sua esposa com todas as forças. Mas foi vítima de uma armação. Havia um cara, Felipe, que era louco por sua esposa desde o ensino médio e simplesmente não aceitou quando os dois se casaram. Alguns anos depois, esse tal Felipe reuniu uns amigos e invadiu a casa de Nathan e da esposa, Amanda, quando Nathan não estava. Assim que ele chegou, viu sangue por toda parte. Chamou Amanda mas ela não respondeu, isso causou desespero. 

Ele a encontrou caída na sala sobre uma poça de sangue. Levou 12 facadas na barriga. A primeira reação que ele teve ao cair de joelhos foi  colocar a cabeça dela sobre seu colo enquanto chorava.

A polícia chegou momentos depois. Havia digitais dele, apenas dele, na esposa e na faca que havia sido usada. Como, ele não sabia. Não havia sinais de arrombamento, nenhuma atividade fora do comum nas ruas.

Nathan foi preso.

Ele esperava que sua família o apoiasse, ficasse ao lado dele e acreditassem nele, mas não aconteceu. Eles se recusavam a acreditar em provas que não existiam de fato. Havia digitais dele por toda parte, e aquilo bastava para eles.

Nós fizemos amizade logo no começo de tudo. Dividimos nossas experiências e dores, nos amparamos como amigos fazem.

— Quero me mudar daqui — ele havia dito uma vez. — Nada mais me prende.

Quando me mudei de cidade e fui para a casa da minha mãe, ele também se mudou para lá, começou a trabalhar em uma empresa de tecnologia e alugou uma casa perto da nossa assim que saiu da cadeia, dois anos depois de mim. Nossa amizade foi crescendo cada vez mais e acho que posso dizer que ele é o único amigo que tenho em muito tempo.

Quando eu decidi que voltaria para minha cidade natal, logo após a morte da minha mãe, comuniquei a ele a minha decisão antes mesmo de falar com minha tia. Ele disse que estava comigo nessa e já veio para cá, procurando uma casa para alugar por aqui. Na verdade, ele veio dois dias antes de mim. Iria ficar em um hotel até achar algum imóvel. Seu trabalho era home office, o que lhe dava bastante liberdade para trabalhar de onde quisesse. 

Por conta do trabalho, eu sabia que ele só conseguiria ir ao enterro um pouco mais tarde, mas não consegui vê-lo, pois fui embora mais cedo, então eu ainda não o havia encontrado desde que voltei.

Bipei uma enfermeira e pedi que ela me deixasse usar o telefone. Ela perguntou quem havia me atendido e eu quase engasguei ao falar o nome de Melissa acompanhado com um "doutora" na frente.

Ela abriu um sorriso e saiu do quarto. Mas que merda está acontecendo? Quando ela voltou, trazia uma espécie de bolsa preta e me entregou.

— A doutora Melissa disse para entregar isso a você assim que acordasse.

Eu abri a bolsa, era uma espécie de mochila, e lá estavam minha carteira, documentos, celular, dinheiro, e a roupa com a qual eu havia chegado aqui.

Melissa ainda me conhece muito bem. 

—  Agradeça a ela por mim. Posso usar o celular?

— Claro. Logo traremos o café.

Assenti e ela saiu da sala.

— Seu idiota, onde se meteu? — perguntou Nathan assim que atendeu — Tô esperando sua ligação faz dois dias!

 — Tô no hospital. Mas relaxa, nada demais. Exagerei com a bebida, só isso.

— Acho bom não estar morrendo, se não eu mesmo vou aí e termino o serviço.

  Eu soltei uma risada.

— Não, cara, relaxa. Ainda está no hotel ou já conseguiu uma casa?

— Consegui hoje mesmo. Foi muito rápido. Achei que ia demorar uns meses, mas foi um achado. Em que hospital você está? Vou aí te dar uns tapas.

 — Naquele perto da funerária. Passa em casa, pega umas roupas para mim? Meu carro com as malas provavelmente ainda está na frente do bar.

— E a chave?

  -—Deve ter uma embaixo do carpete. Tira o piso e está dentro da caixinha. Mas você vai ter que pular o portão. Não é tão alto e tem uns negócios que dá para fazer de apoio. 

— Sei, sei. O máximo que vai acontecer sou eu parar aí com você, todo quebrado. O que ganho com isso?

—  Um abraço?

 — Não, você precisa esfriar essa cabeça oca. Conheci uma garota e você vai sair comigo, com ela e com uma prima dela, amiga, sei lá, na semana que vem. Sem furos. 

— Que isso? Mal chegou e já está passando o rodo?

—  Te vejo em 20 minutos.


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U.U ESSA "GAROTA" VOCÊS SABEM MTO BEM QUEM É.


Os Opostos se Atraem? - Livro 2Histórias para pegar e não largar. Descubra agora