Capítulo 6

2.2K 171 13
                                        

~Gabriel~

"Everyone I know goes away in the end

(Todos que conheço vão embora no fim)   


Quando percebi que minha mãe estava morta, um grito de horror saiu da minha garganta. Segundos (ou foram horas?) depois, minha tia, ainda de camisola, estava ao meu lado, me amparando. Ela chorava, e o resto da noite foi um borrão.

Não consigo me lembrar o que aconteceu depois que levaram o corpo embora. No dia seguinte, parecia que a ficha não havia caído ainda e eu saí de casa, passei o dia todo fora. Quando voltei, à noite, minha tia me disse que a autópsia declarou como um AVC e que ela já estava dormindo quando aconteceu.

Tudo aconteceu muito rápido a partir de então. Eu decidi que ela seria velada na cidade onde nasceu, em Ribeirão Preto, onde morei até meus 18 anos e onde Mirella está enterrada.

Na cidade onde deixei tudo para trás.

Um carrossel de pensamentos rodava em minha cabeça. Toda a dor do luto, que consegui, finalmente, colocar em uma caixa no fundo da minha alma, saiu de repente, estourando as barreiras do meu coração.

Perdi minha irmã, não sei por onde anda meu pai e perdi minha mãe. Perdi Melissa. Perdi todos que eu amava. Perdi, junto com Melissa, a família dela, que gostava de mim, que se importava comigo.

Todos os que eu amava se foram.

Ao fazer minha mala para partirmos para Ribeirão Preto, minha tia ainda não sabia, mas eu não voltaria a morar aqui. 

Telefonei para Nathan para contar todo o ocorrido, mas não consigo me lembra das exatas palavras que usei. Quase não me lembro do que ele falou, mas sei que vai me encontrar lá.

Já em Ribeirão Preto, ficamos em um hotel. Eu nem queria imaginar o estado da minha antiga casa, após 10 anos fechada. Da última vez que estive lá, mal olhei para os arredores, na tentativa de evitar qualquer lembrança.

Minha tia quem foi lidar com as burocracias necessárias e escolher o caixão e a coroa de flores enquanto o corpo não chegava, pois eu não teria cabeça para fazer isso. Na verdade, eu não tinha cabeça para nada.

Durante boa parte do dia, eu me dividia entre sentir o coração acelerado e não sentir nada. Quando percebia, minhas mãos estavam tremendo, mesmo para executar tarefas simples. Eu estava ansioso. Precisava distrair a cabeça.

Como toda a burocracia iria demorar alguns poucos dias, tomei uma decisão impulsiva. Com o coração aos saltos, me dirigi à minha antiga casa. Não se enganem, eu não entrei. Ainda não estava pronto. Apenas abri o portão da garagem e fui mexer na moto que havia ficado ali. Eu realmente precisava me distrair com qualquer coisa. 

Apesar de ter prometido a mim mesmo que voltaria para buscá-la, acabei esquecendo e ela ficou anos parada. A maior parte das peças estava ressecada, o óleo estava extremamente velho e a corrente, assim como quase todo o resto ali, precisava ser substituída. 

Ver a moto de novo depois de tantos anos acendeu uma chama em mim. Eu amava correr com ela pelas ruas, me sentia extremamente livre, poderoso, invencível. Era uma pena que ela estivesse naquele estado. 

Entrei em contato com uma oficina que ficava próxima dali e eles vieram buscar o veículo. Como previsto, a maioria das peças precisava ser trocada para que fosse seguro pilotar, então, deixei a moto com eles e pedi uma vistoria completa, a substituição de tudo que estivesse ressecado, uma restauração e limpeza.

Os Opostos se Atraem? - Livro 2Histórias para pegar e não largar. Descubra agora