I

79 12 35
                                        

Nova Orleans, 2005

Cartas, cartas e mais cartas. A amostra de "Romances da Segunda Guerra" estava me tirando do sério. Nada parecia interessante, e aqui estou eu, um homem de 27 anos preso num depósito de museu procurando coisas românticas durante um desastre da humanidade.

— Jack, eu tenho que fechar! - a estagiária baixinha do museu, Emma, me chamou como sempre na última semana indicando que estava na hora de eu ir atrás da minha vida.

— Eu posso levar essa caixa pra casa? - a perguntei enquanto erguia uma caixa cheia de cartas unidas por um elástico.

— Claro, mas devolva todas até o fim da semana! - ela exigiu enquanto desligava as luzes, deixando apenas uma acesa para que não batêssemos em nada na saída.

— Não se preocupe, devo devolvê-las amanhã mesmo. - suspirei enquanto agarrava a caixa e saia com ela, que logo trancara o depósito.

— Sem planos essa noite? - perguntou quando guardou suas chaves na bolsa e fomos andando para fora do museu.

— Nem um sequer. - suspirei e apertei o botão que abria meu carro e a olhei. — E você?

— Encontro às cegas. - foi sua vez de suspirar agora e se apoiar no meu carro.

— Quem dessa vez? - perguntei me apoiando ao lado dela enquanto rodava as chaves em meus dedos.

— Filho da sobrinha de uma amiga da minha avó. - ela sorriu forçando animação e logo rimos. - Ainda tô esperando você me convidar pra sair. - ela piscou pra mim e eu sorri.

Ela não era feia, era linda na verdade. Olhos azuis, cabelos castanhos, 1,60m de altura e um copo estonteante. Mas 22 anos e recém-formada na faculdade.

— Você sabe que eu tenho 27 anos, né? - perguntei enquanto abria a porta do carro e entrava no mesmo.

— Idade e tamanho são só números que não importam. - ela piscou pra mim novamente e colocou o capacete de sua moto, acenou e subiu na mesma indo pra casa.

Soltei um riso baixo e dei partida indo pra casa.

Vinho, queijo e cartas, meu lindo plano para uma noite de terça-feira. Não que eu fosse sair pra balada, bar ou algo do tipo durante uma semana de trabalho, mas esperava estar com uma garota e não uma pilha de cartas velhas.

— Eu odeio essa vida. - me joguei no sofá suspirando depois de tomar um banho. Tentei esfriar minha mente no chuveiro com a água gelada, mas só me fez perceber que me ferraria na hora de acordar amanhã para trabalhar. Me ajeitei no sofá e me servi uma taça de vinho enquanto pegava um rolo de cartas lendo algumas.

As cartas basicamente tinham a mesma coisa "Eu te amo...", "espero que isso acabe logo..." e mais coisas nessa linha.

— Bla bla bla... nunca vou te esquecer. - suspirei enrolando aquele bolo de cartas e os deixando na caixa novamente. — Os casais eram monótonos nessa época.

Continuei a procurar por algo que me interessasse, até que achei um bolo de cartas fechadas endereçadas à Nova Orleans e não haviam respostas.

— Mas... - peguei uma carta do bolo e abri a mesma percorrendo meus dedos pela caligrafia nunca lida, a não ser por quem escreveu.

O tempo não fez muito bem as cartas, mas estavam conservadas o suficiente para que eu conseguisse ler.

"Querida Rute,

Já faz um mês desde que nos vimos pela última vez. Um mês que senti seus lábios aos meus pela última vez, um mês que a abracei com seu corpo nu ao meu, um mês que olhei nos olhos e disse que a amava e, agora, faz uma semana que estou de volta à Alemanha lutando contra o cara do bigodinho e minha motivação sempre é você. Nossa foto tirada naquela cabine de fotos no cinema mantém-se em meu bolso esquerdo, ao lado do meu coração, pra assim poder sentir você com ele. Sentir que seu coração ainda bate no mesmo ritmo que o meu.
Conto os dias para que eu possa tê-la em meus braços novamente.

Com amor,
Seu soldado."

Aquela era uma carta como todas as outras que eu li, mas o fato de jamais terem sido abertas, lidas ou sequer entregues me intrigou como nenhuma outra fez.

Eu analisei o envelope novamente procurando o dono da carta ou ao menos a quem nunca foi entregue.

"Nova Orleans, Rua... 178"

O endereço da rua estava borrado, mas a carta era endereçada à Nova Orleans, o que me fazia mais curioso ainda.

Dei mais um gole no meu vinho e separei as cartas que levaria para o museu amanhã e decidi ir dormir.

Mas a curiosidade e a aflição cresciam em mim e não conseguia parar de pensar nas cartas para a tal Rute. Ela era daqui. Será que ainda estava viva? Ou melhor, o soldado estaria vivo? Isso renderia algo ótimo para o museu.

Está decidido, essas vão para a exposição.

~•~

Hey guys! Mais uma historinha da minha pessoinha pra vocês! Espero que gostem de lê-la tanto quanto estou gostando de escrevê-la! Até à próxima!

Cartas Para RuteHistórias para pegar e não largar. Descubra agora