XIX

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Nova Orleans, 2005

Fomos para casa sem sinal de Emma.

Ela não atendia as mil ligações que fiz para saber se ela estava bem. Não saímos de nossa cidade, mas era um lugar que não conhecíamos propriamente e estava a noite e escuro.

Amélia e Joseph estavam em completo silêncio e eu até gostava. Minha preocupação enquanto dirigia era apenas saber se Emma estava bem e em algum lugar seguro.

— Emma... Emma só me atende! Droga!

Bati no volante e desliguei a chamada guardando o celular no bolso. Eu estava completamente nervoso e aflito.

Quando estacionei o carro, consegui ver a luz acessa e desci correndo para entrar na cabana na esperança de que fosse Emma o motivo da luz acesa. Felizmente estava certo.

— Por que não me atendeu?

Ela me olhou com desdém e deixou o travesseiro e cobertor que estava segurando no sofá.

— Senhora Elliot, espero que não se incomode mas o Jack precisa dormir no sofá. Não me sinto confortável dormindo ao lado dele. – ela disse com calma desviando toda sua atenção de mim. Eu nem havia notado que Amélia e Joseph já tinham entrado na cabana, um segurando no outro.

— Sem problemas, minha querida. – ela sorriu amavelmente para a menina a minha frente, que continuava a me ignorar. — Senhor Wesley, precisando de mais cobertores me avise.

Emma logo subiu as escadas e eu fui atrás dela. Precisávamos conversar de qualquer forma.

— Emma. Emma, olha pra mim. Emma!

— O que foi? – levantou a voz obviamente irritada e cansada de minha insistência.

— Eu...

— Você o que? Vai dizer que não esperava o que eu te disse? Me poupe, Jack! Achou que depois de tudo que vem acontecendo eu ia querer só uma transa básica com você? Eu não sou a Janice! E você devia me conhecer melhor do que isso. – antes que eu pudesse responder ela entrou no quarto batendo e trancando a porta. Só voltou com minhas roupas de dormir e jogou em mim voltando a se trancar.

Peguei as roupas no chão e me virei encontrando Joseph parado me olhando com um pequeno sorriso.

— Desculpa, não vamos mais gritar. – falei embaraçado e fui caminhando devagar pra escada para descer até a sala.

— Podem ficar a vontade. É bonito ver casais discutindo. – sua fala me fez parar e virar para ele novamente.

— Definitivamente não somos um casal...

— Claro. Não são. – ele sorriu e acenou entrando em seu quarto.

Fui para sala onde dormiria pelos próximos dias e sorri assim que vi um copo de chocolate quente e biscoitos na mesa de centro pra mim. Amélia realmente era uma pessoa maravilhosa.

Andei até o banheiro que havia ali no andar de baixo e troquei de roupa, voltando para sala para dormir.

O sofá não era de todo ruim.

Mentira. Era péssimo. Dormir com a Emma seria mil vezes melhor, mas estava na cara que isso não aconteceria por um bom tempo. Isso se acontecesse.

Na manhã seguinte eu acordei com o sol em meu rosto, queimando meus olhos. Era a pior maneira de se acordar alguém e eu estava sendo contemplado com esse lindo presente.

Arrumei toda minha bagunça no sofá e fui lavar o rosto. A verdade é que eu não havia conseguido dormir de fato. A noite que era para ser incrível para todos acabou como uma tragédia.

Amélia logo desceu as escadas acompanhada do Joseph. Ambos me cumprimentaram com um sorriso piedoso por eu ter dormido no sofá. Eles foram para a cozinha e começaram a preparar o café. Me surpreendia que o senhor Elliot conseguisse ajudar nas tarefas por ter uma idade tão avançada, mas presumi que ele sempre quisera manter uma vida ativa pós-guerra.

— Posso ajudar em alguma coisa? - falei da entrada da cozinha vendo o Joseph cortar as frutas enquanto Amélia parecia concentrada no café.

— Claro, querido. Sabe fazer ovos mexidos? Pode começar com isso. - minha anfitriã me olhou rapidamente sorrindo e voltou a se concentrar no café para não se queimar. Eu peguei os ovos e a manteiga e fui então fazer os ovos mexidos. Eu sabia cozinhar mas tinha muita preguiça quando estava em casa. Por isso as pizzarias eram minhas grande amigas.

A cozinha ficou com um cheiro maravilhoso. Não sentia esse cheiro desde que era moleque e meus pais faziam o café toda a manhã e com todos juntos. O cheiro do café recém passado, das frutas frescas e do ovo mexido feito na manteiga faziam meus estômago roncar e muito.

Não percebi quando Emma entrou a cozinha. Ela ficou encostada no armário sem ousar olhar pra mim. Meu coração apertava por ter ela desse jeito comigo, mas eu sabia que eu fiz por merecer.

Eu havia me esquecido da noite no restaurante e da música que havia cantado. Eu tentei colocar tudo de lado e passar a melhor semana possível com ela. Obviamente eu estraguei em tudo.

Me aproximar de Emma foi a melhor coisa que aconteceu comigo nos últimos meses da minha vida, mas eu sempre teria cuidado. Ela era mais nova, estava pra ir embora...

— Bom dia, senhor e senhora Elliot. - vi o sorriso mais fechado que ela havia dado nessa semana. Parece que toda alegria e bons momentos haviam sumido de sua mente. — Precisam de ajuda?

— Pode servir a mesa, querida? Já estamos acabando aqui. - Amélia respondeu com um sorriso.

Nenhuma palavra foi direcionada a mim.

Suspirei pesado naquele momento sem saber como consertar minha situação com Emma. Não queria que todo nosso trabalho fosse afetado pela minha falta de noção na noite anterior.

— Emma... - falei receoso enquanto a olhava. Ela me deu o olhar mais mortal que alguém poderia ter. Minha garganta fechou, minhas mão suaram... Estava preso. — P-podemos conversar?

Gaguejei. Sempre havia sido um homem confiante, mas Emma sabia me derrubar sem esforços.

— Não.

Com uma resposta seca e rápida ela saiu da cozinha, com uma torrada e xícara de café.

O casal ao meu lado me olharam com piedade, o que eu não merecia de jeito nenhum. Estava apenas sofrendo as consequências dos meus atos.

— Eu vou falar com ela... acho que precisa de um colo de "mãe". - Amélia sorriu pra mim e foi atrás de Emma.

Me sentei na cadeira após ajudar o Joseph a fazer o mesmo e suspirei baixo antes de tomar  um gole de café.

— Mulheres são complicadas, senhor Elliot... - falei deixando a xícara na mesa e o encarei. Ele tinha um sorriso no rosto de quem parecia carregar toda a sabedoria do mundo.

— Não, meu jovem. Nós é que complicamos o ser mais fácil do universo. - ele sorriu tomando devagar um gole de seu café. — Podemos deixá-la com a Amélia por hoje... vamos conversar nós dois, apenas.

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