XXXVII- Porquê eles?

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O meu despertador toca e eu sento-me na cama com aperto no coração.  Lágrimas involuntárias escorrem pelo meu rosto.



Há 17 anos atrás

- Papá, tu e a mamã fazem anos de casados hoje?

- Sim, amor. - ele responde, enquanto me aperta as sandálias.

- Vais te vestir de príncipe e dar-lhe flores? E eu e o mano vamos dormir a casa do tio Paul?

  -Sim, amor. Tal como nos outros anos.

- Olha? Porque é que casaste com a mamã e não com outra senhora?

Ele sorri, senta-se ao meu lado na cama e começa a contar a história que eu nunca esqueci:

- Como tu sabes, eu sempre toquei piano, então eu tinha muitas meninas que queriam namorar comigo. Só que elas só se interessavam por aquilo que eu parecia ser e não por aquilo que eu era mesmo. A mamã também gostava de mim, mas eu não lhe ligava muito. Eu não queria gostar de ninguém a sério, só me importava em divertir. Só que houve uma vez que eu fui participar num concurso de talentos e achavam todos que eu ia ganhar, mas cheguei lá e mandaram-me embora, disseram que o meu talento não era para um concurso daqueles. Eu fiquei muito triste e todos se afastaram de mim, menos a mamã. Aí eu percebi que só ela gostava de mim como eu realmente era... Começámos a namorar, apaixonei-me de verdade e estamos juntos até hoje. Eu até posso não ser um pianista muito famoso, mas consigo viver da minha paixão, tenho a mulher que amo e dois filhos lindos, não podia ser mais feliz!

- Eu sou mais linda que o Liam!

- São os dois, amor. São os dois...



Os soluços já saem da minha boca completamente descontrolados. As saudades são tantas, são maiores a cada dia que passa, mas nestas datas especiais ainda custa mais.

Visto uma roupa simples e calço os meus ténis. Dirijo-me à minha casa-de-banho e maquilho-me de modo a que não se perceba que estive a chorar. Não tenho por hábito mostrar fraqueza, nem mesmo às pessoas mais próximas de mim.

Acabo de me arranjar e tomo coragem para descer as escadas. Quando entro na cozinha dou de caras com os meus dois irmãos já acordados e ambos cabisbaixos.

Quem tem mais recordações destes dias sou eu e Liam, mas Sam também fica afetado como é óbvio. Apesar das escassas recordações, ele sente tanto ou mais do que nós.

  - Podem começar a tirar essas caras. - falo.

  - Sabes bem que é impossível. - Liam responde, sem levantar os olhos.

  - Não sei para que é que estás para aí a falar, Martha. Tu estás aí a fazer-te de forte, mas no fundo és a que estás pior. Deves achar que eu não sei que já te fartaste de chorar! A carrada de base que puseste explica tudo!

Engulo em seco após as palavras do meu irmão mais novo. Se há coisa que por vezes me irrita nele é o facto de, apesar da sua tenra idade, me conhecer tão bem.

  - Apenas não fiquem assim, está bem? It's okay.- digo a frase que a mãe sempre nos dizia quando algo corria mal.

Embora de forma triste, eles sorriem-me e admito que fico um pouco melhor com isso.

(...)

Entro no meu local de trabalho e logo vejo Niall a correr para mim para me dar um abraço. Quando os nossos corpos colidem oiço a sua voz no meu ouvido:

  - Eu sei que hoje não é um dia fácil, mas sabes que eu estou aqui para qualquer coisa que precises.

  - Eu sei, Nialler, eu sei...

Aproximo-me do balcão onde se encontra Paul e este coloca a sua mão sobre o meu ombro.

  - Hoje ficas na cozinha com o Harry. Mas se a alguma altura do dia não te estiveres a sentir bem é só dizeres e vais para casa ou para onde tu quiseres. Nós aguentamos isto aqui por ti.

Sorrio-lhe em forma de agradecimento e dirijo-me à minha sala para me preparar.

Quando entro na cozinha, o rapaz de cabelos encaracolados dirige-se a mim com um sorriso animado.

  - Chegaste, baby!

Ele deposita um leve beijo nos meus lábios e logo depois franze as sobrancelhas.

  - O que é que se passa?

Mal ele faz esta pergunta desabo num choro desesperado. É tão complicado!

É tão complicado ter que ser sempre eu a forte, ter que ser sempre eu o suporte de tudo e de todos, é tão complicado não partilhar os meus medos com ninguém! No entanto, agora eu tenho o Harry. E com ele eu sinto que posso partilhar aquilo que não partilho com mais ninguém.

  - Hoje os meus pais faziam 25 anos de casados. - revelo, entre soluços. - E tu não tens noção do quão especial este dia era... O meu pai fazia sempre uma surpresa à minha mãe ou vice versa, até que chegou a um certo ponto em que já éramos eu, Liam e Sam que preparávamos surpresas para eles. Não era só o aniversário de casamento deles que se festejava, festejava-se também a nossa união enquanto família.

  - Calma, amor. Eu percebo que este dia te custe mais do que os outros  mas baby, eu estou aqui.

Encosto-me ao seu peito e o som do seu coração a bater acalma-me um pouco. Ele deposita inúmeros beijos na minha cabeça e aconchega-me mais nos seus braços. Cada vez tenho mais a certeza que posso confiar nele...

  - Mas Harry... Eles amavam-se tanto, eles amavam-nos tanto! E eles eram tão felizes, porra, éramos todos tão felizes! Porque é que algo assim teve que acontecer? Porquê a nós ? Porquê?

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⏰ Última atualização: Mar 26, 2017 ⏰

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