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Não contei a ninguém sobre a tentativa porca de Isabele de me foder nem depois que a poeira baixou. Os seguranças que ficavam no lugar de Salvador eram umas portas, não falavam direito comigo e comecei a bater recordes de horas em silêncio. O ritmo de visitantes era bem baixo, pensei que não seria assim, que um hotel cinco estrelas não ficaria assim, mas via cada vez menos eventos, parecia até que tinha mudado de emprego.

Comecei a passar medo de madrugada. Vez ou outra ouvia um som estranho e me abraçava com força por alguns segundos até passar. Sabia que deixar as luzes acesas à noite era proibido, mas deixava mesmo assim. Minha mesa era perto da parede de um foyer gigante com saídas para todos os lados, se não estivesse iluminado tudo o que eu fazia era ficar sentado com medo e pedindo a Deus para não acontecer nada de ruim até a troca de turno.

Achei "naoresponda@fuvest.br" pelo menos cinquenta vezes na minha pasta de e-mail. Incrível como cada vez foi tão diferente e mesmo assim com resultado igual. Incrível também como qualquer rota da minha vida ia direto para algo a ver com a Fuvest. Estava nas minhas estantes, na minha mochila, nas minhas roupas e em qualquer ícone no meu celular. Uma coisa que eu quis tanto a ponto de enfiar na minha própria identidade, mas agora não conseguia limpar todo o lixo que aquilo tinha deixado. Como os mentirosos fazem, eu acreditei na mentira a ponto de cravá-la na minha pele e na pele de quem estava comigo. Não sabia o que aconteceria depois, era completamente alheio a isso, eu só queria passar. Meu sonho não era mais ser escritor, mas passar na Fuvest.

Foi mais ou menos isso que Cissa quis dizer para mim no carro.

Não chorei como daquela vez, mas vejo que o fato de não conseguir um tempo para surtar como naquele dia talvez tenha prejudicado meus outros dias. Não tinha mais tempo de me preocupar comigo, estava desesperado com o que Isabele tinha feito e com medo de que ela ou alguém mais aprontasse coisa pior.

Voltei ao mesmo estado de antes do poema.

Continuei meu Edgar Miller numa tarde de chuva. Ele já estava bem mais ousado. Talvez tivesse conseguido um contrato com alguma editora por ali, pois o estilo do livro havia mudado muito, estava cheio de metáforas lindas. Alguma coisa muito boa ou muito ruim devia ter acontecido a ele para tudo aquilo. Gostaria de encontrá-lo por aí e perguntar o que e, mais importante, gostaria de saber se alguém mais vira aquilo.

Tentei forçar o cérebro para ver se saía mais algum poema. Talvez poemas sobre a lua e a chuva fossem bons, mas tinha que ser como o das orquídeas. O problema com aquele momento de felicidade genuína era que a lembrança dele não era o suficiente para me deixar feliz. A maioria das lembranças – por melhores que sejam – só servem para gastar tempo.

Chovia tanto naquela semana que eu me sentia no filme Seven. Não tinha Luigi, Cissa ou Salvador e as amizades desconectadas permaneciam desconectadas. Um estado de solidão que eu não podia permitir. Aliás, que os outros não podiam permitir, mas ninguém estava fazendo nada para me fazer melhor. Eu vivia esperando pelo interesse de alguém.

Sentia falta da energia que tinha quando queria entrar na USP: saía do cursinho correndo, em quinze minutos comia um lanche no McDonald's e corria duas vezes mais rápido de volta para a sala. Às vezes pulava alguma aula de física para comer ou cochilar, tinha que beber e comer o tempo todo para não morrer de sono.

Essa foi a fase boa, o primeiro ano de pré-vestibular. Nos outros eu era um zumbi ridículo tentando sentir a mesma coisa do primeiro ano.

Em algum lugar vi um trecho de Walt Whitman que dizia algo mais ou menos como: "felicidade, conhecimento, não em outro lugar, mas nesse lugar. Não por outra hora, mas nessa hora" e tentei me colocar nesse lugar nessa hora.

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