- Oito e meio? - Olho pra nota da redação corrigida sem acreditar. Alguns meses antes minhas notas não eram maiores que seis.
Carol sorriu como se estivesse orgulhosa de mim, como se finalmente todo o seu próprio esforço estivesse rendendo frutos.
- Você melhorou bastante, é verdade... mas...
É claro que nada podia ser perfeito, não é mesmo? Enquanto guardava minhas provas corrigidas na mochila, Carol parecia hesitar, e aquilo me deixou meio preocupado.
- Mas...?!
- Aconteceu alguma coisa? Normalmente você tem grandes ideias mas não sabe direito como expressá-las... Agora seu texto melhorou muito, mas parece que você está perdido num lugar obscuro.
Uni as sobrancelhas, tentando entender o que ela estava querendo dizer com aquilo. Enquanto esperava por alguma reação minha, ela mordeu os lábios, com uma ponta de arrependimento em seus olhos.
- Ah! Apenas ignore o que eu disse... é só que... sua última redação me deixou um pouco tocada, então fiquei pensando nisso por mais tempo que deveria.
Tentei me lembrar do conteúdo daquela redação, mas pra dizer a verdade não me lembrava. Na verdade o que eu me lembrava era de escrever enquanto estava muito bêbado, sozinho em casa, cheio de um rancor momentâneo. Era impressionante que mesmo assim eu tivesse conseguido aquela nota...
- Ei, Carol, você pensou que eu não pudesse ser uma pessoa profunda? Eu te surpreendi não apenas com meu charme mas com meu intelecto superior, não é?
Ela ri escandalosamente, seu riso ecoando pela sala quase vazia.
Enquanto caminhávamos por aqueles corredores, Carol virou-se para mim:
- Nat... eu não costumo errar sobre isso, mas é que eu acho que você tem muito...
- Por favor não diga...
"Potencial", falamos juntos. Ela empurra meu ombro.
- Por que você é tão exigente com você mesmo?
- O problema é que as pessoas têm expectativas demais... e isso cansa pra caralho.
Carol para de andar e me fita por um tempo. Sei imediatamente que existe algo perigoso crescendo por trás daquele olhar.
- Carol, você é legal e eu gosto de você mas...
- Eu já sei...
Não digo nada, apenas sustento seu olhar.
- Apenas quero que saiba... se algum dia precisar conversar... estarei aqui.
Carol parece sincera, e aquilo de certa forma me toca. Já que meus amigos estavam tão distantes naquele momento, ocupados vivendo suas próprias vidas, de repente me dei conta de como eu me sentia sozinho e perdido em meus próprios pensamentos.
Quero dizer alguma coisa pra Carol naquele momento, mas ela apenas fita a pessoa encostada no muro bem na saída do cursinho. Ela me lança um olhar que não sei definir antes de se despedir e tomar seu rumo. Eu a observo ir embora, então ando até Eric. Percebi que nesse caminho, seus dedos apertavam com força a alça da sua mochila, mas ele lutou bravamente com aquele sentimento e então sorriu pra mim.
Quando eu me aproximei o bastante, ele colocou seus lábios sobre os meus suavemente. Talvez aquela fosse a primeira vez que Eric fizera algo assim publicamente de livre e espontânea vontade.
- Hey, não fique me olhando assim! - Ele disse limpando a garganta, como se de repente tivesse ficado tímido.
Como ele podia acabar com todas as minhas defesas com um gesto tão banal?!
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Romansa"Eu não era do tipo de cara que acreditava que algo pudesse durar para sempre. Existiu um tempo em que eu achei que não podia gostar de alguém tanto assim. A maior parte do tempo eu estava apenas.... existindo. Mas às vezes encontramos pessoas em no...
