Depois de encarar o próprio reflexo por horas no espelho da penteadeira de seu quarto, Clarke tomou coragem e levantou-se, ensaiando o sorriso forçado que precisaria usar naquela noite para cumprimentar a maioria daquelas mesmas pessoas cheias de si por fora, mas tão vazias e sem qualquer conteúdo por dentro. Não estava nem um pouco afim de ir, se olhassem bem para ela perceberiam, mas claramente não tinha qualquer escolha. Sabia que aquele jantar não seria apenas um simples jantar e que a noite se estenderia mais do que devia por conta das intermináveis conversas sobre dinheiro, política, jogos de Polo, conhaque, roupas chiques e mais dinheiro. Um ciclo sem fim. Jamais compreenderia o fascínio mútuo que eles tinham em abordar o mesmo assunto sempre que se reuniam. Por que não falar ao menos uma vez sobre qualquer coisa que fosse considerada interessante?
Calçou os sapatos e deu uma última olhada em sua própria imagem refletida no espelho antes de ir à sala de estar em busca de sua mãe e de Finn. Estava deslumbrante dentro daquele vestido longo que realçava as suas curvas inegavelmente perfeitas. Era perfeita. Logo, assim que chegou à soleira da porta, foi avaliada pelo olhar dos dois presentes e esboçou um sorriso que mal chegou às bochechas. Finn terminou de beber o champanhe e buscou o paletó sobre o encosto da poltrona, seguindo em direção ao Salão de Jantar da 1ª classe na companhia das duas damas.
Previsivelmente, a noite passou arrastada para Clarke como em todas as outras vezes e a dor incomoda em sua cabeça tornou-se insuportável. Não sabia se era por causa dos burburinhos que preenchiam o ambiente ou se era porque sentia-se, na maior parte do tempo, sobrecarregada. Estava exausta, não só fisicamente, mas psicologicamente, e este cansaço a destruía por dentro, sugando aos poucos a sua sanidade. Remexia com o garfo a comida intocada em seu prato, tentando resgatar de suas lembranças a felicidade um dia vivida, mas que se extinguiu. Sentia a falta de seu pai todos os dias de sua vida e sentia a falta de sua liberdade. Sentia-se à beira de um abismo, onde, embora gritasse por ajuda, ninguém estava disposto a tirá-la de lá.
Levantou-se de uma vez da mesa depois de um tempo, seguindo para fora do Salão, pois sabia que não notariam sua ausência tão cedo. Voltou às pressas a sua suíte, imediatamente chamando por Zoe que, para a sua infelicidade, não estava. Lágrimas de frustração inundaram completamente a sua face. Gritou mais uma vez por sua camareira particular, mas ganhou como resposta o silêncio absoluto do cômodo. Escorou-se na porta do quarto e tentou desfazer o penteado bem feito de seu cabelo. Estava com raiva, desconsolada e a dor infernal que sentia na cabeça só piorava a cada segundo. Estava cansada de sorrir quando, na verdade, queria chorar; cansada de dizer "sim" quando queria dizer "não"; extremamente farta de fingir que sempre estava bem quando claramente não estava. E, pior, ninguém se importava. Num momento de exasperação, Griffin cogitou arrancar os próprios cabelos quando o enfeite preso neste embolou em suas madeixas. Soltou um ruído esganiçado com a garganta, como se suprimisse um grito, e jogou o abajur que estava em seu campo de visão contra a parede. Cerrou os dentes para se controlar e, inexperientemente, tentou descer o fecho-éclair nas costas de seu vestido para tirá-lo, mas a sua mão infelizmente não alcançava o zíper, para piorar ainda mais a sua frustração.
Desesperada e estafada, correu por todo o convés que levava à popa, desviando com destreza dos objetos que surgiam à frente, mas não podia evitar esbarrar em quem quer que fosse que aparecesse em seu caminho. Lágrimas ainda escorriam por seu rosto, expondo explicitamente o quão miserável estava o seu estado de espírito naquele momento e só parou quando chegou. Respirava ofegante, seu peito subia e descia denunciando a necessidade do ar em seus pulmões. Os olhos, levemente inchados, divagaram pela escuridão da noite e o único som perceptivelmente audível era o seu coração batendo forte contra os seus ouvidos. A noite estava fria, bastante fria, de modo que o vento gelado açoitou o seu rosto e corpo, fazendo-a se arrepiar e o seu queixo tremer. Clarke olhou para todos os lados como se quisesse ter a certeza de que estava sozinha e, lentamente, aproximou-se da borda da popa. Suicídio. Jamais cogitou esta ideia, porém agora parecia ser o certo a se fazer, a única saída de sua realidade. Sem pensar muito, apoiou-se no haste que segurava a bandeira do Reino Unido e colocou um pé em um dos "degraus" do parapeito, não tardando a estar completamente pendurada para fora do navio. Estava defronte ao rastro que o Titanic deixara ao passar e de costas para o convés, segurando firmemente a borda. Engoliu em seco, tomando coragem para finalmente se jogar. Sentia o seu peito doer com a força que o seu coração martelava contra ele e lágrimas ainda insistiam em cair de seus olhos. Mentalmente, questionou-se se sentiriam a sua falta depois de sua atitude fatídica, concluindo que talvez não. Se eles sequer se importavam antes, por que se importariam depois? Com esta certeza formada na cabeça, inclinou o corpo para frente, vagarosamente soltando o parapeito.
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Bitanic
RomanceNum jogo de mesa, Lexa Fairchild e sua melhor amiga, Anya Walsh, ganham duas passagens de 3ª Classe para a primeira viagem do transatlântico Titanic. O "Navio dos Sonhos", como assim é chamado, é um luxuoso, colossal e imponente navio que parte para...
