Ritmo narrativo

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@RodrigoLimaReis sugeriu falar a respeito do ritmo da narrativa e qual poderia ser mais interessante levando em conta o tema ou tipo de história. Começar no olho de um furacão com a trama se desenvolvendo a partir de um conflito, ou percorrer a famosa jornada do herói? E principalmente, os cuidados para não ter uma narrativa muito lenta ou rápida demais.

Um pouco complexa essa questão se considerarmos alguns pontos que vieram aí na sua sugestão. Mas como diria Jack o estripador: vamos por partes.

Antes de abordar alguns dos pontos citados, vamos falar um pouco sobre ritmo. Várias coisas tem ritmo, a respiração, as batidas do coração, as ondas do mar, mas uma boa forma de se pensar em ritmo é a música.

Daí vem nossa primeira dica. Uma música que tem a mesma batida do início ao fim, sem muita variação em melodia, etc, tem a tendência de se tornar monótona.

A música Bohemian Rhapsody do Queen, começa com vozes a capella, depois tem uma sequência em balada com piano e baixo ao fundo que na segunda repetição já passa a contar com a bateria, ainda suave. Poderia ser apenas mais uma baladinha, mas a tensão vai crescendo e entra um solo de guitarra que vai subindo e subindo até que abruptamente começa a sequência lírica de ópera que culmina no rock... uma explosão. E depois, tudo fica mais lento para a finalização. 

O que essa música pode nos ensinar é que temos algo no ritmo que vai além de uma batida, ou cadência, nós temos a subidas e descidas, crescimento de tensão e seu decréscimo para momentos de calma. Praticamente toda história também conta com esses movimentos.

Mas o que exatamente define um ritmo na narrativa? 

Visão local
Se olharmos para uma cena, ou sequência isolada de uma história, há como identificar elementos que ajudam a construir ritmo:

* o tamanho das frases; (curtas x longas)
* combinação de palavras escolhidas;
* quantidade de ações que ocorrem em sequência;
* revelações de algo significativo para o leitor;
* emoção envolvida ou destacada, etc.

A presença ou ausência desses elementos podem tornar um trecho mais veloz, ou lento, mais tenso, ou calmo. 

Visão global
Se olharmos para o conjunto da história, soma de cenas, capítulos, teremos o ritmo da história como um todo. Mais ou menos como o exemplo da música, boa parte das histórias segue um ritmo semelhante que vem das estruturas básicas dos três atos: 

Inicio
É comum que o início seja mais calmo/lento, uma introdução dos personagens e da ambientação. Isso até surgir o o incidente que coloca a história em movimento.  Algo, geralmente tenso, que precede o segundo ato.

Meio
Temos o crescimento gradual da tensão representados por sequências de obstáculos que levam até o clímax, no final do segundo ato.

Fim
A resolução do conflito e volta da história para o ponto de descanso.

Bem, essa é a estrutura geral, mas não a única possível.

Ritmo narrativo
Agora, mesmo fora desse desenho global de estrutura da história, você como escritor, vai querer manter o interesse do leitor, construir um bom ritmo narrativo. É nesse ponto que o escritor precisa dar o seu melhor. E há muito de ritmo que pode ser impresso ao andamento da história como um todo, mesmo fora dessa ideia dos três atos.

Uma história com sequências de ação, ação e mais ação, sem parar, acaba ficando cansativa. É preciso dosar ação/tensão com momentos de descanso. Quando falamos de ação, não é necessariamente lutas ou perseguições, pode ser um diálogo que move a história adiante, por exemplo, o momento em que um filho resolve assumir a homossexualidade perante os pais. E o descanso, pode ser um diálogo sem muita relevância, o momento de explicar alguma coisa, ou mesmo a descrição de um ambiente, lembranças, etc.

Então, para criar ritmo, é interessante construir tensão crescente e ter momentos de descanso.

Ritmo nos capítulos
A própria forma de estruturar os capítulos é um componente rítmico da narrativa. Capítulos curtos e que terminam com alguma revelação, ou prenúncio de uma grande tensão, vão ajudar o leitor a continuar preso a história, mantem o ritmo acelerado. 

Mas cuidado, é fácil errar neste ponto. Você pode terminar um capítulo com: "Então, ele abriu a porta e...". Próximo capítulo: "E seu gatinho estava lá fora... Pegou ele no colo, fez um carinho. Pensou na vida, blá, blá, blá..." Se o que estiver do outro lado da porta não for algo realmente relevante, a coisa não funciona. O leitor vai perceber.

Ou seja, se você terminar um capítulo dizendo algo como: "mas aquela acabaria se mostrando uma péssima decisão, é o que ele estava prestes a descobrir." É preciso que o que vem a seguir seja realmente convincente/interessante.

Uma boa técnica para não perder seu leitor nas pausas entre os capítulos é colocar os momentos de descanso no meio dos capítulos. Assim, um capítulo pode começar já lento, ou acelerado, ter um descanso no meio, mas voltar a ter um crescendo de tensão que culmina no final do capítulo, ainda não totalmente resolvido, convidando o leitor a querer ler o próximo.

Ritmo através ideias/emoções
Outra técnica para estabelecer ritmo é pensar em cada cena/sequência em termos de uma emoção ou ideia que se quer passar. Certifique-se que você não tem emoções idênticas uma depois da outra. Você não quer raiva e depois raiva de novo. Você quer algo como raiva, surpresa, investigação/questionamento, algo triste, depois algo tenso, etc. 

Mito da jornada do herói
Ah, a famosa jornada do herói. Bem, estrutura sugerida pela jornada do herói não quer dizer que uma história comece lenta para depois acelerar. Vamos analisar os dois primeiros pontos: O Mundo Comum e O Chamado da Aventura.
Um entendimento que se pode ter sobre "O Mundo Comum" é que você vai introduzir sua história introduzindo seu personagem lentamente, de boa na lagoa, tudo calmo e favorável até que vem uma "mega-treta" (O chamado da Aventura) trazendo alguma tensão à história e colocando o personagem em movimento.
Vocês já devem ter ouvido falar que Star Wars segue essa estrutura (e é verdade), mas a primeira cena do filme é de ação, o império aborda a nave de Leia e a captura, mas ela consegue enviar um pedido de socorro através de R2D2 e C3PO para Tatooine.
Como no exemplo, e acreditamos ser uma boa opção, você pode começar com uma sequência de ação, mostrar seu personagem em ação, é sempre uma boa. O livro O Poder da Espada de Joe Abercrombie começa com uma sequência de ação de tirar o fôlego, e isso já mostra de cara o "Mundo Comum" de Logen Nove Dedos, que é um guerreiro.
O ponto é: se você quiser seguir a estrutura da jornada do herói, você pode fazer introduzindo o protagonista lentamente, ou já no olho do furacão, tanto faz.

Para terminar, vale lembrar que não estamos falando dos "planos infalíveis do Cebolina". Não tem fórmula certa, há leitores que gostam de histórias mais lentas, enquanto outros, de histórias frenéticas. Ainda assim, vale muito dominar a técnica para criar um ritmo narrativo apropriado à história que você pretende criar. Tente observar o ritmo de histórias de seus escritores favoritos. Que técnicas eles utilizaram? Você consegue perceber? Pensando neste aspecto, o que consegue aprender para aplicar em seus próprios livros?

Contem aí nos comentários a experiência de vocês. Com certeza vai ajudar outros colegas escritores.


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