INÍCIO

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Beca tinha somente três meses de vida quando viu o djinn pela primeira vez, mas a história dessa amizade começou antes mesmo dela vir ao mundo. À noite em que a menina nasceu, chovia muito. Começou como uma tempestade repentina, mais ou menos na mesma hora em que a mãe sentia as primeiras contrações. O pai estava preparado, porque os médicos avisaram que a criança poderia chegar a qualquer momento nos próximos dias. A mãe de Beca decidiu por um parto natural, aconselhada por uma amiga mística que insistia em que a criança deveria escolher sua hora de vir ao mundo, e não o contrário. Lá fora, a tempestade castigava as árvores com um vento de rajadas fortes e chuva abundante. Raios cortavam o céu parecendo grandes rachaduras de luz na imensidão escura. E quando a mãe e o pai de Beca estavam dentro do carro, um blecaute tomou conta da cidade. As luzes se apagaram logo depois que um trovão encheu a noite com seu estrondo.

Dentro do carro, dividindo a atenção entre as ruas alagadas e a mulher em trabalho de parto, o pai estava apreensivo. Tentava aparentar calma para que a esposa não perdesse o controle. Entre um e outro comentário casual, reafirmava sua convicção de que tudo daria certo. Com a chuva forte, as ruas se encheram d'água. Para escapar de serem bloqueados, eles tiveram de mudar de caminho, andar sobre a calçada ou voltar na contramão algumas vezes. Em certo momento, o pai de Beca começou a perder as esperanças. Chegou a acreditar que o destino da criança seria nascer no banco traseiro de um Chevrolet: "Pelo menos seu nascimento vai ser notícia amanhã", ele riu nervoso para si mesmo, mas escondeu a piada da mãe.

Então, quando tudo estava dando errado, aconteceu a história que ele contaria em todos os aniversários de Beca, todos os anos. O pai da menina sempre acreditou que aqueles acontecimentos eram obra do destino.

Já quase não era possível conter o nascimento da criança, ele acelerava ao máximo dirigindo no limite de segurança. Já havia perdido as esperanças de chegar a tempo na maternidade, e agora, aguçando o olhar, se dedicava a procurar por uma viatura com policiais que pudessem ajudar ou mesmo fazer o parto. O pai imaginava que policiais fossem treinados para tais emergências.

Foi aí que tudo mudou.

Entrou à direita saindo de uma avenida principal para uma rua secundária. Diferente das demais ruas que passavam, percebeu que todos os postes dessa via estavam acesos. A chuva parecia ter diminuído subitamente, e não havia nenhum carro bloqueando seu caminho. Assim que acelerou para ganhar terreno, nesta única rua iluminada, o motor do carro explodiu. Bem, não exatamente explodiu, mas ele gostava de contar a história assim, incorporando ainda mais drama. Na verdade, ele ouviu um estrondo forte vindo do motor como se algo tivesse se rompido. Imediatamente o carro perdeu velocidade até parar, quando uma nuvem de fumaça branca subiu pelo capô saindo pela grade. Sua primeira reação foi de desespero, enquanto a mãe de Beca despejava todos os palavrões que conhecia, procurando um culpado para sua má sorte. "Definitivamente", pensou o pai assustado, "meu filho vai nascer na rua".

Desalentado, debruçou-se sobre o volante tentando organizar o que fazer quando algo inesperado aconteceu. Percebeu de relance, vindo do nada, o reflexo de uma luz vermelha e azul que brilhava na pista molhada. Olhou para o lado e viu a figura da policial protegida por uma capa de chuva preta, com um simpático sorriso no rosto, fazia sinal para que ele abrisse a janela do carro. Ele abriu.

– Olá! Está tudo bem com o senhor? Parece que está tendo problemas com o carro. Precisa de alguma ajuda?

– Minha mulher está dando à luz! – ele mal conseguiu balbuciar, e a mãe de Beca já estava dentro da viatura.

Foram até a maternidade rasgando a noite, com luzes e sirene acesas. Era como se o tempo tivesse parado, a água recuado nas ruas, e todos os outros carros estivessem fora do caminho do carro de polícia. Pelo rádio, a policial avisou aos plantonistas do hospital que estavam chegando. Os plantonistas a preveniram de que não havia energia no hospital. Ela foi impositiva, falou com uma voz serena, mas que parecia uma ordem. Confirmou que iriam mesmo assim. O pessoal do outro lado não continuou a discussão.

Quando chegaram à maternidade tudo estava preparado e esperando por elas. Exatamente no momento em que a mãe de Beca desceu do carro, a energia elétrica retornou, ainda que todo o restante da cidade permanecesse no escuro.

Nodia seguinte, e nos dias que se seguiram, o pai de Beca tentou em vão localizara policial que havia salvado sua família. Era impossível imaginar o que poderiater acontecido se não fosse a ajuda dela. Ele e a esposa tinham uma gratidãoeterna para com a policial e não mediram esforços por encontrá-la novamente. Opai começou questionando na própria maternidade, mas não havia qualquerregistro de quem havia chegado com eles. Visitou várias delegacias durantesemanas, sempre perguntando se havia sido registrada alguma ocorrência na noiteem que Beca nasceu, mas também não encontrou nada. Estava frustrado, queria dealguma maneira poder agradecer, mas parecia que a policial da capa de chuvapreta havia desaparecido depois daquela noite. Sua determinação de encontrar a mulherfoi esmaecendo com o tempo. Se ao menos ele soubesse o nome dela, provavelmentepublicaria alguma coisa nas redes sociais, e ela acabaria aparecendo. Infelizmente,depois da noite tumultuada em que Beca nasceu, somente o que ele conseguialembrar eram os olhos bondosos da policial e o cabelo cor de fogo por debaixodo quepe. Havia também um sobrenome estranho, que somente viu de relance bordadono uniforme, Dina, Jinna, ou algo parecido com Djinn.    

A menina e o djinnHistórias para pegar e não largar. Descubra agora