O final de semana na fazenda foi espetacular. Mas quando Beca voltasse para casa, usaria somente uma expressão para responder aos pais: normal – ela diria com um ar desinteressado.
Na sexta-feira à noite, ela e as amigas ficaram acordadas até quase de manhã dentro da barraca somente iluminada por algumas lanternas. Comeram coisas deliciosas, jogaram um estranho jogo de tabuleiro onde os personagens eram zumbis e folhearam álbuns de fotografias.
De uns tempos para cá, a fotografia com máquinas instantâneas se tornara o hobby preferido de Beca. O pai tentou fazê-la entender que esse tipo de fotografia não era novidade, que havia sido novidade nos anos sessenta. Desistiu quando percebeu que era como tentar explicar a uma borboleta que a vida tem mais do que vinte e quatro horas. Beca não prestou atenção, fotografava tudo e continuou achando sua máquina muito inovadora.
Com seu novo equipamento de fotos instantâneas, vislumbrou a possibilidade de fotografar o djinn, mas seu esforço foi em vão. Na verdade, ele não queria ser fotografado, então ficava invisível para as fotos. Beca logo descobriu que fotografar alguém invisível não era uma tarefa para amadores. Difícil foi explicar para suas amigas as várias fotos de seu próprio quarto sem nenhuma pessoa nelas, todas tinham sido tentativas frustradas de surpreender o djinn materializado. O resultado era esse conjunto de fotos de coisa nenhuma, na maior parte das vezes, nada mais do que seu quarto bagunçado. A menina inventou uma história inverossímil sobre registrar seu dia a dia, e as meninas deixaram por isso mesmo, afinal, as melhores amigas são aquelas que não fazem perguntas quando sabem que você está mentindo.
Quando amanheceu, ninguém saiu das barracas até que o sol forte tornou a vontade de dormir totalmente impraticável. Reuniram-se para o café da manhã quase na hora do almoço, e depois, passaram a tarde ao redor da piscina. Muitos dos meninos e meninas aproveitaram o mormaço da tarde e adormeceram nas espreguiçadeiras, outros, juntaram lenha para a fogueira. Beca e suas principais melhores amigas resolveram dar um passeio pelo campo, o djinn foi com elas.
A conversa variava entre assuntos que iam desde garotos a roupas, maquiagens e novas descobertas de material para scrapbook, mas tomou um rumo inesperado, pelo menos para o djinn. Foi uma menina muito magra e levemente mais alta que as demais que levantou a questão do que aconteceria com elas no futuro. Assim como Beca não sabia que tinha três meses quando tinha três meses de vida, também não fazia uma ideia muito clara do que representava o futuro, mesmo agora. Era natural, na idade em que estavam, que o tempo fosse relativo ao "agora", medido em vontades realizadas e preguiça de fazer alguma coisa.
– Eu gostaria de poder perguntar a alguém como será o meu futuro – disse a menina magrela e mais alta do que as outras.
A frase chamou a atenção do djinn, antes voltada para os movimentos coletivos dos carneiros.
Ele sabia que aquela menina vivia em um lar desfeito, com um pai violento e uma mãe que não se sentia forte o suficiente para reconstruir sua vida. Ficou muito triste por isso e solidarizou-se ao anseio da menina. Ela queria alguma garantia de que sua própria vida não repetiria os erros dos pais.
Em seguida, o djinn foi abalroado por um lufar de desejos que brotaram quase instantaneamente em cada menina. Houve um momento de raro silêncio entre elas, e ele pode ouvir Beca se perguntando se tinha essa sorte, se ele poderia contar algo sobre o futuro dela. Assim como vieram, os desejos de conhecer o futuro se transformaram em medo. O djinn ouvia pensamentos de insegurança, dúvida, quase um pânico contido naquelas jovens meninas. Elas continuaram conversando, o assunto se dissolveu lentamente, mas o djinn ainda sentia dentro de cada uma o despreparo do espírito para a mudança radical pela qual passavam. Teve vontade de amparar cada uma delas, contar seus futuros, dizer que tudo ficaria bem. E quando teve este pensamento, sentiu um peso indescritível em seu coração de djinn, e mesmo tendo sido forjado nas chamas do Criador, não pode deixar de pensar que o destino, algumas vezes, era mesmo cruel.
Depois que a conversa mudou para outros assuntos menos angustiantes e mais divertidos, as meninas recuperaram sua vivacidade e sua cor gradualmente. O djinn podia ver que aquela sombra do futuro continuava pesando sobre cada uma delas, afinal, esse era o eterno pesar da humanidade. Lembrou-se do ogro que vendera um dos olhos ao diabo em troca de conhecer seu futuro, mas – enganado pelo diabo – só recebeu o dom de saber o dia, modo, e hora exata de sua própria morte desde o dia em que nasceu. Nenhum ser conseguiria viver com tal dom, pensou o djinn, nem mesmo a mais mágica das criaturas do Criador.
Naquela noite, quando foi acesa a fogueira, depois de muitos preparativos e muita agitação, quando o fogo se ergueu acima da cabeça do mais alto dos meninos, o djinn dançou. Ele rodou e rodopiou ao redor das chamas atravessando os jovens, invisível, apenas materializado para os olhos de Beca. Deixava atrás de si um rastro de fagulhas, como se vestisse uma grande saia rodada, e da ponta de seus dedos pendia uma chuva de minúsculas estrelas de prata. Ela sorria encantada e ficou tão feliz ao ver a imagem tão alegre do djinn dançando com o fogo, que começou a girar com os braços abertos imitando os movimentos dele. Em pouco tempo, todos os garotos e garotas imitaram Beca girando com os braços abertos como ela e seu djinn. Com gritos de alegria, fizeram um grande círculo ao redor da fogueira.
Nesse momento, o djinn finalmente se fez um só com o fogo e se embrenhou por completo dançando sobre a lenha ardente. Beca soltou um gritinho de felicidade, parou de girar e bateu palmas, todos olharam para o centro da fogueira e bateram palmas com ela. Uma enorme nuvem de fagulhas se ergueu formando o que parecia ser a imagem de um daqueles gênios que se vê em gravuras de livros infantis. Era uma figura linda e colorida por milhares de tons cor de fogo, com longos cabelos de fagulhas vermelhas e um manto rodado desenhado pela fumaça. Foi a mais espetacular fogueira que jamais eles viram, e todos se impressionaram pela coincidência da imagem que pareceu tão real. Todos tiveram a estranha impressão de ter ouvido milhares de flautas tocando em uníssono. Os meninos e meninas julgaram que isso fora apenas uma impressão causada pelo barulho do fogo. Entre eles, havia somente uma doce menina esperta que conhecia toda a verdade.
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A menina e o djinn
General FictionEsta é a história de Beca, uma menina comum, mas que tem um Djinn todo seu, uma criatura mágica capaz de realizar qualquer desejo. A trama acompanha a vida de Beca mesmo antes de seu nascimento até a idade adulta. A menina recorre ao seu Djinn para...
