Aos oito meses, Beca voava pela casa. Não literalmente, ainda que o djinn pudesse fazê-la voar se assim desejasse. A menina circulava pelos cômodos como se tivesse dois anos. Os pais ficaram impressionados com a esperteza dela e provocavam inveja nas outras mães no parquinho quando exibiam as habilidades precoces da filha.
– Oito meses – eles diziam inchados. – Ela é muito esperta.
Os pais não sabiam que cada vez que a menina ensaiava alguns passinhos, as mãos invisíveis do gênio estavam por perto para ampará-la. Beca nunca caía, e a confiança entre os dois cresceu de tal maneira que a menina conseguiu seus primeiros passos mais cedo do que o esperado. Ela caminhou às gargalhadas, numa tarde cinzenta de terça-feira, quando uma chuva fina caia sobre as árvores na rua.
A mãe de Beca deixou a garota sozinha por alguns instantes enquanto foi até o quarto buscar o telefone celular. Beca estava sentada no tapete felpudo, cercada por travesseiros e almofadas. Brincava distraidamente, tentado arrancar um pedaço do mordedor de borracha, o que – além de divertido – aliviava a incrível coceira que sentia nos dentes nascendo.
Ela quase nunca chorava quando os pais a deixavam sozinha, e eles agradeciam a sorte de ter uma criança tão serena, mas desconheciam que esse comportamento tinha um motivo. Na verdade, ela nunca ficara sozinha desde o dia em que viu o djinn pela primeira vez. Sempre que os pais se ausentavam, ali estava ele, etéreo, transparente e cintilante, flutuando sobre as coisas e fazendo acrobacias para distrair a garota.
Tão logo a mãe saiu, a menina virou a cabecinha em todas as direções procurando o djinn. Ela já aprendera que ele sempre se materializava quando não havia ninguém por perto. Estendeu o brinquedo cheio de baba em direção ao djinn, oferecendo-o docemente.
– Hoje não, pequena, temos coisas novas para aprender – sussurrou seu amigo.
Ele flutuou até ela e a ergueu por debaixo dos bracinhos colocando-a em pé. Em troca de ser segurada pelo djinn, Beca escancarou seu melhor sorriso naquela circunstância, o sorriso de dois dentes inferiores. Ela adorava quando ele fazia contato físico. Suas mãos eram mornas na medida certa e nem sequer chegavam a tocá-la. Irradiavam um calor delicioso. Ele tinha um cheiro doce, diferente dos cheiros da mãe, do pai e do leite. O djinn emanava um aroma suave e confortável que fazia a menina se sentir aconchegada e segura perto dele. Para ela, era cheiro de carinho, de cuidado e também cheiro de diversão garantida. No futuro, sempre que Beca comesse um algodão doce se lembraria do djinn e seu cheiro de açúcar queimado. O perfume adocicado do djinn e a sensação calorosa de suas mãos moldadas no fogo sem fumaça ficariam gravados para sempre no coração de Beca desde aqueles primeiros dias de vida. O djinn firmou as perninhas da menina no chão e orientou.
– Prepare-se, agora é com você.
Beca era só sorrisos babados. Assim que o djinn soltou a menina, as pequenas pernas perderam a rigidez e ela desabou. O corpinho ainda não estava preparado para o teste. Antes mesmo que a fralda tocasse o chão, o djinn fez um gesto mágico com a mão e amparou o bebê fazendo-o flutuar levemente até sentar, impedindo o choque com o piso. Com o susto, Beca arregalou os olhinhos, mas na sequência gargalhou percebendo que estava segura. O djinn achou aquilo engraçado e gargalhou também, divertiu-se com a reação da menina. Aos ouvidos dela, foi como se milhares de flautas tocassem uma melodia linda e envolvente, que a fez sentir uma alegria tão profunda como jamais tivesse sentido naqueles seus oito meses de vida.
– Fatāti allatifa ual dhakia! – disse o djinn em árabe, "minha doce menina esperta".
Daí para a frente as lições de caminhar foram intensificadas. Beca começou a compreender qual era o objetivo daquilo tudo: liberdade. Em pouco tempo, a menina adquiriu a coordenação necessária para dar alguns passos, ainda que cambaleante.
Olhando Beca caminhar, o djinn imaginou que aqueles pequenos passos dados pela menina eram a soma de milhões de anos de evolução desde a criação. Quando as primeiras criaturas feitas de argila conseguiram ficar sobre duas pernas, toda a história do mundo natural se transformou. Capazes de alcançar lugares mais altos, ver mais longe e equilibrando-se o suficiente para manejar ferramentas usando os membros superiores, transformaram a obra natural do Criador em um lugar onde se sentissem seguros. Um pequeno passo para uma menina, um novo passo na história da humanidade.
Beca surpreendeu a mãe quando se levantou no cerco de almofadas e caminhou até um brinquedo próximo. A mãe soltou um gritinho de espanto e alegria e correu para abraçar a menina. Beca se assustou com a reação, afinal, estava acostumada a caminhar quando estava sozinha com o djinn. A mãe levantou Beca no alto e giraram juntas, Beca ria sua risada mais solta, e a mãe tinha os olhos cheios d'água. Enquanto giravam no ar, unidas em um só amor, a mãe de Beca olhou para o rosto corado da menina e cheia de orgulho falou:
– Minha doce menina esperta!
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A menina e o djinn
Ficção GeralEsta é a história de Beca, uma menina comum, mas que tem um Djinn todo seu, uma criatura mágica capaz de realizar qualquer desejo. A trama acompanha a vida de Beca mesmo antes de seu nascimento até a idade adulta. A menina recorre ao seu Djinn para...
