VIAGEM

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Beca estava eufórica quando chamou o djinn. Recebeu a notícia de que os pais viajariam no final de semana, e isso era estupendo. Melhor ainda, era saber que eles pediram para ela tomar conta da casa naqueles dois dias, sozinha! Para coroar, sentindo o bom momento de sua reputação de menina bem-comportada e responsável (que vinha cultivando nos últimos meses), ela arriscou pedir autorização para promover uma Noite do Pijama com quatro de suas amigas preferidas. Eles disseram sim! Era demais! Quando a menina contou tantas novidades para o djinn, ele fingiu uma grande surpresa para agradá-la, mas no fundo, estava descontente.

Naquele fim de tarde de sexta-feira, Beca se sentia nas nuvens outra vez. Os pais viajariam no sábado pela manhã para uma cidadezinha próxima. Era o aniversário de casamento, e eles decidiram comemorar sem a presença de Beca pela primeira vez em dezesseis anos. A cidade era um amontoado de casinhas antigas de porta e janela, dispostas lado a lado nas ruas com calçamento de pedras irregulares. Muitas lojinhas e lugares charmosos onde era quase possível segurar o romantismo com as mãos, flutuando entre postes de iluminação que imitavam lampiões e restaurantes à luz de velas e toalha xadrez.

A menina não quis pensar no que aconteceria entre seus pais na noite de sábado. Era um pouco repugnante imaginar. Por isso, só pensava nas amigas e em sua pequena reunião. Para começar, depois que saiu da escola e com o dinheiro que a mãe havia lhe dado para organizar sua festinha, foi até o supermercado. Um lugar como esse pode ser uma perdição para uma garota de quatorze anos que planeja uma noite de pijamas com as amigas. Ela comprou pipocas, sorvete, chocolates, refrigerantes. Comprou também leite condensado, Nutella e doce de leite, "nunca se sabe" – ela piscou para o djinn.

O pai e a mãe estavam um pouco apreensivos. Era a primeira vez que Beca ficava sozinha na casa, e – apesar de toda segurança que o condomínio fechado oferecia e do sentimento de comunidade dos vizinhos – essa sempre era uma decisão difícil. Eles concordaram que se Beca recebesse algumas amigas poderia ser uma forma de passar o tempo enquanto se sentiria mais segura. Dormir sozinha numa casa pela primeira vez na vida não é uma tarefa fácil.

Na noite de sexta-feira, a família saiu para jantar num restaurante da cidade.

– Este vai ser o início dos trabalhos de comemoração do aniversário de casamento – disse o pai. – E como você é resultado disso, não podíamos comemorar sem você.

Beca sorriu. Nos últimos dias seus olhos estavam cobertos por um filtro cor-de-rosa. Depois que voltaram do jantar, se empoleiraram no sofá e assistiram a um filme, comeram pipocas, não sem ouvir as queixas de Beca de que aquela pipoca estava reservada para a noite de sábado. Quando o programa familiar acabou e era hora de dormir, Beca abraçou com força a mãe e o pai, um de cada vez.

– Amo muito você – ela repetiu para cada um deles.

No quarto, os pais riram sobre aquilo. Beca estava excessivamente amorosa durante a noite, e eles atribuíram isso à viagem e à falta deles que ela presumivelmente já começava a sentir. Pais são assim, sempre procuram explicações para as demonstrações de amor dos filhos.

O sábado amanheceu com o céu muito bonito, radioso de sol e com uma temperatura agradável. O dia perfeito para viajar. Eles carregaram o carro com as pequenas malas de bordo, repetiram mais uma vez as recomendações que já tinham repetido durante toda a semana. Beca manteve a postura de recente-adulta, concordado com tudo. Em nenhuma hipótese, lembraria a eles que já haviam dito isso trezentas vezes, além de deixarem anotado em um quadro magnético na porta da geladeira. Depois de abraçarem Beca com uma força incomum para as despedidas do dia a dia, os dois sentiram uma espécie de calor que correu pelo corpo, como se uma lufada de vento muito quente os tivesse envolvido. O pai e a mãe nunca comentaram sobre isso.

A menina e o djinnHistórias para pegar e não largar. Descubra agora