"UMM"

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A babá durou pouco tempo. Não é possível dizer que a senhora de meia idade fosse pouco atenciosa, pelo contrário. Depois de criar muitos filhos de outras pessoas, ela acabou aprendendo a ter um afeto particular para com a criança que cuidava. A mãe de Beca teve de viajar por quatro dias e contratou a babá, indicada por uma amiga. A senhora de meia idade era irremediavelmente fascinada por ensinar crianças a falar.

– Ma-mãe – ela dizia encarando Beca frontalmente.

– Ma-mãe – tentava outra vez.

Mas Beca simplesmente sorria, fazia algum ruído ou levantava os bracinhos. Seu olhar corria do djinn para a babá, da babá de volta ao djinn. Sabia que a babá queria que ela fizesse alguma coisa, mas o que? Por isso olhava constantemente para o djinn, quem sabe ele pudesse ajudar?

– Ma-mãe – votava a babá à carga.

Mas Beca continuava não entendendo nada. Bateu palmas, deu pulinhos, colocou as mãozinhas na cabeça, fez bolhinhas de cuspe. Usou todo seu repertório corporal e terminou concluindo que não, não era isso que aquela mulher queria.

O djinn ria muito, suas flautas tocavam. Beca ria também, o que a desconcentrava, ela adorava a música do riso do djinn. A babá não perdia a calma. Estava acostumada com aquela batalha, já vira muitas crianças que tinham "preguiça de falar" ou que teimavam em dizer uma única palavra, nunca se dava por vencida.

Quando a babá fez mais uma tentativa, Beca voltou a olhar o djinn, ele encolheu os ombros e sacudiu a cabeça, fingindo não saber das pretensões da mulher. Beca fixou os olhos firmemente nos olhos da babá e usou toda concentração que seu cérebro conseguia, ainda que fossem tantas distrações naquela sala que era quase impossível pensar numa coisa só, mas estava decidida a entender. Era uma questão de honra... para as duas.

O djinn não conseguia se segurar, ria muito. Gargalhadas e mais gargalhadas vendo sua menina confrontando aquele desafio com tanta seriedade. A babá se levantou, colocou as mãos na cintura e saiu da cozinha resoluta como se tivesse tido uma ideia brilhante. Voltou alguns instantes depois com um porta-retratos que exibia uma foto do pai e da mãe de Beca durante a lua de mel.

– Ma-mãe – recomeçou, agora apontando para a mãe na foto.

Beca esticou o bracinho para a moldura na intenção de pegá-la, mas a babá não deixou. Em seguida, a mulher apontou para o pai.

– Pa-pai – repetiu a babá.

Beca estava começando a entender, afinal, parecia que a mulher queria que ela fizesse alguma coisa relacionada àquelas duas pessoas. O djinn parou de rir, se aproximou de Beca e sussurrou.

– Quem são esses, menina?

Beca arregalou os olhos e escancarou a boca! Era como se uma luz tivesse se acendido dentro dela e entendesse tudo. Então era isso que a mulher que falava palavras estranhas queria!

– Umm! – Beca gritou batendo palmas.

– Não criança, não – repreendeu a babá. – Ma-mãe.

– Umm! – a menina retrucou, enquanto dava pinotes no cadeirão e quase matava o djinn de tanto rir.

Ela se achava engraçada e se exibia para ele.
A babá não tinha como saber, mas Beca reconhecia a própria mãe na foto e chamava pelo nome, exceto pelo fato de dizer mamãe em árabe, Beca era uma menina como todas as outras de sua idade.

Quando a mãe voltou depois de quatro dias distante, encontrou uma Beca cheia de saudades que lhe encheu de beijos e carinhos. No mesmo dia, enquanto ganhava a papinha sentada no cadeirão, Beca segurou as bochechas da mãe com as duas mãozinhas e disparou:

– Umm! Mãma!

Os olhos da mãe se encheram d'água, mas pelo melhor motivo do mundo.

– Mãma ama você – foi o máximo que conseguiu dizer.

A menina pulava no cadeirão, e o djinn sorria ao seu lado com uma ponta de um sentimento que ele desconhecia até então. Imaginou ser o que os humanos classificam como sentimento penoso provocado em relação a uma pessoa de que se pretende o amor exclusivo, vulgarmente chamado de ciúmes.

Naquela noite, depois de Beca exibir seu novo dom diversas vezes em múltiplas tonalidades e inflexões, foi para o berço. O djinn se aproximou dela, e a menina – com bochechas rosadas e olhos muito meigos – movimentou os lábios deixando escapar deles uma única palavra que fez o pobre coração de djinn despedaçar-se da melhor maneira possível em centenas de fagulhas de emoção.

– Tim – ela disse, depois fechou os olhos e adormeceu.

A menina e o djinnHistórias para pegar e não largar. Descubra agora