Eu não fazia ideia do tipo de poder que meu pai tinha em seu trabalho até aquele dia. Com algumas palavras trocadas com o outro policial que o acompanhava, papai conseguiu impedi-lo de nos levar à delegacia e deixou de voltar para lá para o resto do seu turno. Afinal, estava claro que ele deveria ter uma longa conversa com sua filha sobre como não era certo invadir residências de pessoas que haviam morrido. Ele mal perdia por esperar o resto da história.
— Eu não tenho o que dizer, Alice. De verdade. Não sei se estou mais surpreso ou desapontado. — ele falou, entrando no carro de Helena. Ela havia lhe dado a chave contato que ele não contasse ao pai dela sobre o que havia acontecido. Eu só queria dar o fora dali antes que os verdadeiros invasores voltassem.
— Pai, por favor. Espere chegar em casa para conversarmos. — eu pedi, sentando no banco ao seu lado. Helena sentou atrás. Ele balançou a cabeça, ficou em silêncio e deu partida no carro. Nós ficamos daquele jeito até chegarmos em casa — e eu tentava encontrar as palavras certas para explicar a ele a verdade.
Ele entregou a Helena as chaves e falou que ela podia ir para casa se quisesse. Eu assenti, deixando que ela fosse. A conversa que deveríamos ter eu já havia tido com ela, então, não havia porquê ficar. Helena partiu para o conforto de sua casa e eu para o olhar franzido e preocupado de meu pai me encarando. Ele se sentou à mesa da cozinha e eu puxei a banqueta em sua frente.
Ele abriu a boca para falar, mas eu o interrompi.
— Pai, antes que você diga alguma coisa... eu não fumo. Tudo bem, eu sei que você me viu com aquele charuto. E não, não estávamos “invadindo” a residência alheia.
— Por Deus, Alice, os donos daquela casa morreram. Que diabos estava fazendo lá? — ele balançou a cabeça mais uma vez e passou a mão pelos cabelos. Eu respirei fundo.
— Primeiro, a porta estava aberta. E, segundo... aquela casa é do Bernardo, pai.
Ele franziu o cenho.
— O garoto em coma?
Meu Deus, a história era longa.
— Bom, na verdade, a casa é dos pais dele. E, sim, eles morreram. Bernardo estava no acidente, mas sobreviveu. E, não, ele não estava em coma. Está fingindo, porque está com medo que voltem para terminar o que começaram.
— Do que você está falando, Alice?
— Ele acredita que sabotaram o carro. Ou a pista. Não sei. Mas era para ele estar morto, também. Por isso está fingindo o coma. Não quer que saibam que está vivo ou algo do tipo. Quer ficar escondido. Ele corre perigo, pai.
— Isso não explica o porquê estava na casa dela.
Eu bufei.
— É mais fácil eu te mostrar do que explicar. Espere aqui. — eu falei, saindo da cozinha e indo até o meu quarto. Peguei o meu notebook, abri a página sobre a teoria dos Cabral e o levei de volta até meu pai, deixando que ele lesse tudo o que a página tinha a mostrar. Quando terminou, ele soltou uma risada nervosa, um tanto incrédula.
— Qual é, Alice. Isso aqui não pode ser sério.
Eu arqueei uma sobrancelha.
— Pai, é tão sério quanto o que eu ouvi na casa de Bernardo. Eu fui lá para buscar o celular dele — tirei o objeto do bolso traseiro e mostrei o tijolão ao meu pai, que o pegou, sem entender — e eu e Helena tivemos de nos esconder. Você viu o estado da casa, não viu? Tudo revirado, destruído. Os caras que fizeram aquilo querem o tesouro. E eles estão esperando o retorno de Bernardo, para matá-lo. Quer dizer, não mais. Eu ouvi um deles dizer que só faltava checar mais um hospital da cidade... e eu sei que é onde Bernardo está. Pai, eles vão matá-lo.
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O projeto.
RomanceAlice Pardal não está preocupada com as notas que terá durante o semestre de sua faculdade de Psicologia; ela sabe que é inteligente e que, se estudar um pouco, já dá conta do recado. O problema é os projetos comunitários que ela precisa fazer, para...
