Capítulo 3.

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— NÃO! — a voz grossa e ímpar me impediu, no exato momento em que toquei o trinco.

Eu paralisei, sem conseguir me virar. Eu sabia que era a voz de Bernardo.

— Não saia — ele continuou. Eu fechei os olhos com força e respirei fundo.

Será que eu estava enlouquecendo? Será que era coisa da minha cabeça, só porque eu queria que ele acordasse logo? Eu balancei a cabeça, sem ligar para o fato de Bernardo poder estar me vendo.

— Por favor — ele implorou. Eu engoli em seco e, lentamente, ao soltar o trinco, eu me virei.

Eu vi o garoto com o rosto virado em minha direção, deitado, os olhos abertos. Havia uma expressão de preocupação em seu rosto, mas seus sinais vitais se mantinham iguais, apesar de ter acordado. Eu não sabia se estava mais abalada pelo fato de ele ter acordado ou por ele ser ainda mais lindo com os olhos abertos.

Bernardo ficou me olhando, sem dizer mais nada. Eu me aproximei, passo a passo, da cama, voltando à cadeira em que eu sentava. Parei em frente a mesma, vendo os olhos do garoto me seguir enquanto eu andava. Ao seu lado, eu pisquei repetidamente, sem acreditar.

— Você está acordado? — eu perguntei, retoricamente e baixinho.

— Estou — ele disse.

— Desde quando? — eu ousei pedir.

— Eu nunca estive em coma — ele explicou. Eu arregalei meus olhos, estupefata. Ele estivera mentindo todo esse tempo. — Você é Alice. Veio aqui essa semana para ler para mim, não é?

Eu fiz que sim com a cabeça.

— Obrigado por isso. Acho que era o que eu precisava.

— Você quer que eu chame alguém?... — eu falei, sem saber o que fazer.

— Não, por favor. Não faça isso. Não quero que saibam que estou consciente — ele disse. Eu me sentei a cadeira, deixando o peso do meu corpo se espalhar por tudo. Seu rosto se virou um pouco mais, vendo-me fazer aquilo. Eu não conseguia desviar o olhar.

— Por que não ia querer? — eu ecoei. — Não quer falar com alguém?

Bernardo deixou o olhar vagar pelo quarto, as sobrancelhas se unindo.

— Eu sei que meus pais estão mortos. Não tenho com quem falar. Para ser sincero, até teria. Mas não sei em quem confiar.

Eu franzi o cenho.

— Problemas na família?

Eu vi o maxilar dele se contrair.

— Não sei se estou aqui por acidente.

A frase dele fez um arrepio percorrer meu corpo.

— Você acha que...?

— Que mataram meus pais. E que, infelizmente, eu fui mais forte e não morri.

Eu me levantei na mesma hora, colocando-me de pé e parando perto da cama.

— Não fale isso. Se você ainda está aqui... você pode corrigir tudo, não?

— Não me diga o que falar ou não — ele respondeu, ríspido. Eu era péssima naquilo. Não sabia o que dizer para um garoto que havia perdido ambos os pais ao mesmo tempo.

— Desculpe-me — falei, baixinho, encolhendo os ombros. — Eu não quis me meter. Meus pêsames. — e eu me virei, colocando o livro dentro de minha bolsa e, em seguida, levando a alça até meus ombros. Comecei a andar até a porta.

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