• Vencedor do Wattys na Categoria de FICÇÃO CIENTÍFICA 2019 •
"Após a Grande Guerra, não ficou nada mais do que restos do que outrora formou as nações. Sobraram apenas pessoas quebradas, outras doentes, outras
loucas; lugares sujos e sem vida; u...
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A brisa abafada remexe-lhe os cabelos dourados enquanto ele aguarda em frente da mansão. Mais uma noite em que tem de seguir ordens e atender a toda aquela pompa que o rodeia. A vida de festas sinceramente não faz muito o seu estilo.
- Amriel.
Vira-se quase automaticamente.
O Presidente Ross não é um homem tão assustador como muitos pensam. Lentamente, chega perto de si e coloca a sua mão sobre o seu ombro, embora com alguma dificuldade pois ele é muito mais alto que o homem.
- Obrigada por teres vindo.
Amriel observa-o. Há quase uma década que o conhece, desde os seus quinze anos. Ele mudou imenso, mas também o homem à sua frente. Visto de fora, ao seu lado, pode ser facilmente considerado o seu filho. Partilham o mesmo tom de cabelo, tom de pele. No entanto, enquanto os olhos de Amriel são de um negro infuso, Ross tem-nos de um castanho-mel.
- Sei que não és louco por este tipo de festas, nem eu, mas há algumas pessoas importantes com as quais preciso de falar - o homem que ele vê como pai diz. - E só confio em ti, neste momento.
Amriel assente. Sabe bem pelo que o Presidente Ross está a passar e sabe o tipo de confiança que nele deposita. Esse foi o único motivo para ter aceite.
O Presidente Ross ajeita a sua própria gravata e então entra no salão. Rapidamente as vozes aumentam quando tomam percepção da sua presença e todos começam a aproximar-se. Isso poderia intimidar qualquer um, aliás se fosse Amriel ali ele sentir-se-ia sufocado, mas o Presidente Ross não. Aquele homem nasceu para desenrolar aquele papel.
Observa atentamente cada uma das pessoas que se aproximam daquele que ele tem de proteger, só descansando quando tem a certeza que está tudo seguro. Nesse momento, ele dirige-se para o bar. Pede a bebida habitual e encosta-se ao balcão enquanto a bebe.
Não, realmente ele não suporta estas festas. Há luxo e desperdício por todo o lado. Não que ele esteja a colocar-se contra as medidas que o Estado toma ou que o Presidente Ross decide, no entanto só um cego não seria capaz de ver a abundância excessiva de tudo que os rodeia.
Mas então a sua atenção é captada por outro factor.
Em qualquer outra circunstância, Amriel não teria reparado neles. O casal avança por entre as pessoas como qualquer outro casal. Porém, alguém segue o seu encalço. Amriel sente o seu coração a saltar uma batida.
- Imogen - os seus lábios sussurram inconscientemente.
A sua razão diz que não. Quase automaticamente culpa o seu inconsciente pela vontade irracional que tem de a voltar a ver. No entanto, ele não está enganado. A rapariga que nervosamente segue o casal é Imogen. Ele reconhecê-la-ia em qualquer lugar.
De um trago, bebe a sua bebida. Esta é a sua grande oportunidade. O Presidente encontra-se a meros metros. Pode finalmente entregá-la e fazê-la pagar pelo que fez.