• Vencedor do Wattys na Categoria de FICÇÃO CIENTÍFICA 2019 •
"Após a Grande Guerra, não ficou nada mais do que restos do que outrora formou as nações. Sobraram apenas pessoas quebradas, outras doentes, outras
loucas; lugares sujos e sem vida; u...
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Os instantes até que a porta abra aceleram a nossa batida do coração – tanto o meu como o de Rick, que batem em uníssono. No fundo do meu consciente, peço repetidamente para que esteja certa, para que Amriel não nos tenha enganado. Aliás, não me tenha enganado a mim.
Nós não somos o inimigo. Recordo as suas palavras assertivas. Eu sei disso, mas até que ponto ele acredita nisso? E porque motivo só se deu a revelar agora?
Abano a cabeça, tentando afastar os pensamentos negativos. Não é altura para ficar a duvidar das minhas decisões.
A maçaneta gira, a conversa cessa. Faço sinal para que Rick se esconda. Ele entende de imediato, e corre silenciosamente para de trás da secretária, baixando-se e desaparecendo do campo de vista. Ele não pode correr o risco de ser visto, pois se tudo não correr bem, perdemos a nossa hipótese para sempre. Rick é o nosso bilhete de entrada na Alta Sociedade. Temos de protegê-lo a todo o custo.
Escondo a adaga novamente sob o tecido fino da cauda do vestido, e sorrio.
A porta finalmente é aberta.
Amriel entra acompanhado do Presidente. Todo o meu corpo congela. Não consigo pensar. Este é o momento para o qual tanto me preparei. Toda a minha vida me trouxe aqui. Todos os passos que dei, tudo o que me fizeram e no que me tornaram.
Amriel está a sorrir, mas percebo que está nervoso. A sua vida também está em risco. O Presidente entra no escritório com a sua habitual graça e presença, sem sequer reparar em mim logo.
– Porque quiseste vir falar para aqui, Amriel?
O rapaz coloca-se à minha frente, encobrindo-me.
– Quero discutir algumas ideias políticas consigo, e no salão isso é um pouco perigoso.
O Presidente ri-se. – Depende do que vás dizer. Se vais dizer algo mais impetuoso, compreendo porque não queres ficar no salão. É isso, não é?
Amriel mexe-se, nervosamente. – Talvez, Ross. Queria apresentar-lhe também uma pessoa muito importante.
Penso na intimidade que existe entre eles, quando o Presidente por fim dá por mim.
– Quem é esta encantadora rapariga? – Olha para o seu protegido, com um ar terno. – Ainda não tive o gosto de conhecer.
O Presidente avança até mim, emanando charme. Estende-me a mão, cuja eu recebo com cordialidade. Tenho de manter a charada. Agradeço a máscara que cobre grande parte do meu rosto. Os caracóis presos num coque também ajudam a encobrir a minha identidade.
– Boa noite, Presidente. – E faço uma reverência.
O homem sorri.
De perto, parece muito mais frágil, quase parece um ser humano normal. O seu cabelo cor de mel está desgrenhado, os seus olhos azuis têm rugas em redor, marcas de cansaço e sabedoria. Infelizmente, todo esse conhecimento não foi usado com os melhores interesses para com o povo.