Trinta dias. Setecentas e vinte horas de mensagens trocadas, de áudios ouvidos até o celular esquentar na palma da mão, de um "tá tudo certo para quinta" que eu li tantas vezes que as letras pareciam gravadas na minha retina. Um mês em São Paulo que passou lento, mas alimentado por essa contagem regressiva. Eu não estava no escuro; hoje, ao menos, a minha vida não se resumiria apenas a sessões de fisioterapia. Hoje eu a abraçaria, sentiria aquele velho cheiro de chuva e terra molhada que só a Lumar tinha.
- Peso na direita - o fisioterapeuta ordena.
A voz dele é um ruído de máquina. Ele toca no meu quadril com uma autoridade técnica que me dá náuseas. Mãos de látex que não sabem nada sobre mim. Eu seguro as barras de apoio. O metal é frio, um gelo que sobe pelos braços. Estive nesta sala três vezes por semana, passo mais tempo aqui do que em casa, e ainda assim não me acostumei com os equipamentos e com o olhar clínico dele.
- Mantém um pouco mais de peso na perna direita - ele diz.
Eu mantenho. Mantenho porque hoje ela vem. Mantenho porque a última mensagem dela ainda está lá, confirmando o horário, me dando o fôlego que o ar condicionado desta clínica me rouba. Se eu aguentar mais dez segundos desse metal cortando minha palma, eu vou ser recompensada pelo cheiro dela daqui a pouco. Minha perna cede. O medo morde o estômago, mas eu engulo. Eu preciso estar inteira para as seis da tarde.
O carro já espera na saída. No caminho, o asfalto passa rápido e eu lembro da conversa com a Adélia há três dias. Eu tive medo e mordia os lábios a cada minuto em que ela fingia não me notar, mas tive coragem de enfrentar o gelo dos olhos dela porque eu tinha certeza de que todo o sacrifício valeria a pena.
- Eu tenho uma visita... ela vem na quinta - eu disse, a voz firme pela primeira vez.
Adélia nem sequer levantou os olhos na minha direção.
- E quem seria essa? - perguntou, com aquele tom que faz o resto do mundo parecer minúsculo.
- Alguém importante. Ela poderá ficar aqui? Eu posso dividir o quarto, se não for um problema... para a senhora.
Adélia finalmente me olhou, escaneando minhas pernas com aquela frieza de quem avalia uma mercadoria estragada.
- Nesta casa não se recebe ninguém de qualquer jeito, Sol. Se ela vem, que seja para um jantar decente. Não quero amadorismo sob o meu teto.
Ela deu uma pausa e chamou a empregada. Ordenou o cardápio, solicitou que o terceiro quarto ao lado do meu fosse arrumado e que trocassem os lençóis de linho por lençóis de seda. Ela não fez mais perguntas, apenas quis saber o que a minha amiga amava comer... e eu só lembrei do risoto de Milão que meu nono fez na primeira vez em que nos vimos.
Entro em casa hoje e o mármore do hall brilha tanto que parece uma acusação.
- Como foi? - Adélia pergunta da sala de estar, impecável no seu sofá de revista.
- Normal - respondo, sentindo o chumbo nos braços.
- Precisa parar de achar tudo normal. É medíocre. E as flores chegaram. Estão na mesa. Espero que sua convidada tenha o mínimo de pontualidade, já que você garante que está "tudo certo".
Vou para o quarto arrastando o peso do mundo nos ombros. O ar aqui dentro é pouco, uma redoma de vidro que me sufoca. Meus braços não são meus; ainda queimam da barra de metal, do esforço repetido na fisioterapia. Cada movimento dói, cada centímetro parece pedir rendição.
O cansaço quer me engolir. Mas a saudade... a saudade pulsa e não me deixa dormir. Ver a Lumar é a única coisa que me mantém inteira.
Abro o guarda-roupa. As peças chiques que a Adélia me deu me encaram como armaduras, todas feitas para o status dela, não para mim. Bonito demais, perfeito demais, sufocante demais. Ignoro cada etiqueta e busco o que pulsa comigo.
Encontro o azul.
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Eu Sou SoL
RomanceSoL, uma jovem de 17 anos, tornou-se paraplégica aos 16 e, desde então, encontra refúgio em seu quarto, isolando-se do mundo exterior. A ausência de afeto romântico e a inexperiência de um primeiro beijo pesam sobre ela. No entanto, o destino reserv...
