Capítulo 3

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*****🥀 MENTE e Iras 🖤*****

Depois de uma manhã prolongada, entre aulas de canto e violoncelo, minha cabeça já estava estourando. Não estava me sentindo muito bem, precisava do final de semana urgente, com certeza iria relaxar na piscina do condomínio, passear com Fred, ler um bom livro, assistir um ótimo filme de suspense e pronto! Dormir, hibernar, até acordar com Mol me fazendo levantar para as suas necessidades.

Quando já estava pegando os meus documentos, colocando minha bolsa no antebraço, senti que alguém se aproximava pelas costas, rapidamente me virei e assustei com Flávia vindo entre pés.

- Me assustou, menina! - Exclamei.

- Está assustadinha, está? - Flávia tem o costume de todo advérbio ser colocado no diminutivo, e um costume chato de querer fazer cócegas.

- Para de graça, estou atrasada! - A impedi de continuar com seus dedos no meu quadril.

- Atrasada para o que? As meninas da sala 02 perguntaram por você... deixa eu te ajudar. - Ela pega os documentos e vai me acompanhando até a saída.

- Tenho que resolver umas burocracias sobre um concerto que vai acontecer daqui alguns meses, não posso deixar para outro dia e depois vou para casa descansar, essa semana me deixou exausta.

- Sei... E o rapaz bonitinho? Até agora você não me contou onde você foi com ele naquele dia da apresentação das crianças. Aliás, desde aquele dia você está diferente, não deu um minuto do seu dia para conversarmos, ontem foi a quinta do vinho e nem falou nada de nos encontrarmos.

- Quer saber mesmo? Ele foi um grosso, eu divulguei o trabalho dele, fui simpática, tentei ser atenciosa o máximo possível e ele o que fez? Me esnobou, então deixei ele no bar com a arrogância dele.

- Deselegância. - Abri a porta de trás do meu Corolla e depositei a bolsa, retirei os documentos da mão de Flávia e coloquei sobre o banco.

- Obrigada por ter me ajudado e desculpa por não fazermos a quinta do vinho, não estava muito bem. Mas, irei te recompensar.

Deixei a minha despedida em forma de um beijo na sua bochecha rosada e não olhei para trás.

Pode não ser uma quinta feira, nem mesmo estar com Flávia, mas deixei o som ligado numa altura razoável, janela aberta fazendo a noite entrar através da cortina e a luz da sala apagada, somente com o abajur no canto. Me deitei sobre o sofá e coloquei uma taça de vinho do meu lado, já era a segunda e senti o corpo relaxar e a mente ser levada pelo som deep que soa na televisão. Por mais que o corpo estivesse exausto, minha mente pede para caminhar, dançar, extrapolar até as últimas gotas de energia.

Não sei se passaram-se minutos ou mais de uma hora, sei que a música não era a mesma e meus olhos foram obrigados a abrir rapidamente, em um despertar sombrio que fui limpando os olhos até chegar ao interfone que tocou por mais de duas vezes.

- Oi... Flávia está na portaria. - Não sei por que, mas já esperava essa visita.

- Claro, deixa ela entrar.

Descalça deixei a porta aberta, acendi a luz, me sentei no sofá para terminar de beber o restante do vinho e sentir o felpudo do tapete nos pés, isso com certeza me relaxa e muito.

Em prazos de segundos ela compareceu na minha sala, com o cabelo todo arrumado, mas uma camiseta de malha fina preta, shorts azul marinho e nos pés uma rasteirinha.

- Onde você pensa que vai assim? - Comecei a rir meio sonolenta.

- Dormir que não é!

- Senti a ironia. Estou cansada e queria relaxar, mas... - Desviei para olhá-la. - Não tenho folga nem em casa.

- Não mesmo, pode levantar esse bumbum seco desse sofá enorme, deixar o vinho para as quintas, não é belezinha? - Ela acaricia Mol. - E vamos beber, Tequila! - Da sua bolsa enorme de roupas, calçados e kit de beleza ela tira uma garrafa de tequila.

- Ah não, não creio que você vai me fazer beber tequila...

- Beber tequila e sair para dançar, que por mais que você esteja com essa cara de peixe morto eu aguento até você fazer uma maquiagem e se arrumar. Hoje a senhoria não fica em casa.

Com mais de três anos de amizade, não seria hoje que eu conseguiria cancelar uma noitada com Flávia. Para mim, ela deveria arrumar um namorado, mas depois fico pensando que sou encalhada e se eu não estivesse ela, eu seria somente uma encalhada em casa e não uma encalhada na balada fingindo estar somente solteira.

Deixei o gosto de limão azedar minha boca, o sal diminuir e a tequila descer queimando o esôfago, escutei Flávia contar os seus problemas de casa, do pai que compareceu na escola para pegar a filha e o quanto ele era charmoso. Apesar de sermos grandes amigas, Flávia é uma das minhas melhores professora de canto, tem uma voz excelente, talvez seja por isso que não enjoo de ela falar e eu ter que escutar e prestar atenção em todos os seus assuntos infinitos.

Após banho, a maquiagem para disfarçar o cansaço e a bebida me deixar em um grau necessariamente elevado, tomamos a última dose e assim que chamamos o táxi nos despedimos de Mol.

- Vão com cuidado suas loucas!- ok, esse pensamento foi meu, que olhei para Mol e imaginei que se ele tivesse a oportunidade de falar, teria dito isso.

Em milhares de baladas, de lugares para dançar, tem uma que temos o prazer de bater o cartão, de entrar sem ao menos apresentar documentos, somos lista vip e nem mesmo pegamos fila, sem contar com as vantagens de estar sempre no camarote e com alguns shots grátis.

Em diversas vezes vamos para a balada não com a intenção de sair casadas, mas com o propósito de relaxar com a bebida, dançar, gastar a energia, tirar sarro uma da outra, olhar os trajes extravagantes, fofocar e de vez em quando tiramos uma casquinha de algum rapaz que não esteja caindo de bêbado, porque se for o caso já descartamos a possibilidade de interagir e se possível empurrar para que não persistam no xaveco.

Mas, foi em um breve instante que do camarote eu olhei para a pista e vi ele, Jefferson, o esnobe barbudo, o arrogante com um sorriso charmoso e justamente nessa hora trocamos os olhares. Ele me viu. Tentei desviar o olhar, não devia ter deixado ele me ver. Aproveitei que Flávia já tinha dançado o suficiente e seu salto já estava machucando seus pés, pedi para o nosso amigo segurança deixar-nos sair por outra entrada. Sim, eu queria fugir dele. Não podia deixar aquele homem me ganhasse com a sua beleza.

Flávia sem perguntas acompanhou ao meu lado, levemente embriagada tirou os saltos, começou a caminhar descalça e resmungar de dor nos pés até o táxi chegar. Quando já havia colocado minha amiga sonolenta e mais um passo eu estaria dentro do carro com ela, escutei ele me chamando, vinha correndo em minha direção. Pensei rapidamente, estou bêbada, Flávia cansada, taxímetro rolando; é só entrar, fingir que existe mais de uma Tamara no mundo e pronto. O táxi vai embora deixando aquele moço cansado em não poder alcançar.  

*****🥀 MENTE e Iras 🖤*****

Música: "Danny Avila - End Of The Night"

Mente e IrasOnde histórias criam vida. Descubra agora