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"Até os anjos têm seus planos perversos, e você levava isso para novos extremos. Aquela coisa se tornou tão mal, com palavras violentas e ameaças teoricamente vazias. E era tudo tão doentio."
"Tive traumas irreparáveis, e uma dor suicida".
- Geo, olha pra mim... Sou eu. Eu não vou te soltar! – ele suplicava, apertando minhas mãos trêmula, brancas como um corpo sem alma. Espremendo as bochechas contra minha testa que suava frio.
"Nunca fui do tipo que deixa alguém enxergar por dentro, mas como você, eu nunca tive ninguém. Assim, eu deixei. Acordada à noite toda com mais um olho vermelho. Gostaria que nunca tivesse aprendido a voar "
- Eu estou com você Anã, não vou a lugar nenhum. – Tae tentava achar meus olhos, claramente perdidos em alucinações que meu organismo me fazia assistir.
Taehyung me envolvia em um abraço apertado, tão apertado que mal cabia no bolso. Encolhidos em um beco atrás do Night Clube, ele afagava meus cabelos enquanto as lágrimas, atrás de soluços, corriam sem pretensão de cessar, manchando meu rosto. Minhas unhas lutavam com as mãos de Tae, que segurava meus braços, como se fosse minha camisa de força. Minhas pernas miúdas se debatiam violentamente contra o vento, arranhando meu salto.
Eu queria derreter minha pele, formar bordas de sangue por onde desse e doesse mais, queria fazer cair fogo sobre o que era neve, queria fazer parar de arder lá dentro. Onde ele havia torturado e brincado. Como um homem adulto brinca com seus bonecos de corda em um teatro, vezes cheio, vezes, vazio. Meu corpo devia ter sido seu maior público. E em meu coração... Ele já nem precisava mais dar corda.
Antes...
Eu montava as palavras em minha cabeça, e juntava toda a coragem acumulada, enquanto ele me encarava curioso. Não se tratava apenas de um caso onde alguém se apaixonara sozinho, e era chegada a hora de partilhar todo o tornado que me atormentava. Era o meu caso particular, onde milhares de partículas teimosas de mim mesma, não me permitiam ser o que lá no poço sem fundo depois de meu coração, eu sabia que eu era.
A música da boate, que soava longe em meus ouvidos, havia parado. E o chiado de um microfone sendo regulado me tirou de meus segundos onde toda a minha expressão corporal falava por si só. Mas parecia que só Jungkook não enxergava. Ou não me enxergava. Seu olhar se desprendeu do meu ao ver movimentação no palco, onde geralmente ele e Tae dançavam ás noites. O que me fez desfocar minha atenção principal e acompanhar seu olhar.
- Eu realmente gosto de música ao vivo. - Jeon exclama encarando o palco, sorrindo tímido - Sempre que vejo alguém cantando na rua, paro pra assistir. Você gosta?
Eu senti como se o ouvisse apenas com o ouvido esquerdo, e o direito se atentava, até demais, ao som nada peculiar que chegava de um violão já afinado, que eu jurava conhecer dos pés á cabeça, reconheceria o cheiro das cordas mesmo que meu olfato fosse anulado de alguma forma. Franzindo o cenho e sem mal ouvir o que Jungkook falava, preguei meus olhos com mais atenção ao palco, tentando ver quem era o que arranhava as unhas nas cordas que eu pensava conhecer. Minha mão que perpassava feliz a nuca de Jeon foi se baixando lentamente, sendo levada junto de meu olhar já obcecado.
- Ei... O que foi? – o mais novo indagava á procura de meus olhos, parecendo preocupado.
Eb B Gb Db Ab Eb
Am7 D7 Em Bm/D ...
E lá estava ela. Dedilhada com as mesmas unhas que me torturaram, poeticamente tocada, assim como as poesias ardilosas que me laçara um dia, perfeitamente reproduzida, sem acordes errados, sem dedos se atravessando, em seis cordas, com cinco dedos... Dedos ruinosos. Ele apresentava seu ritual que me enfeitiçara anos atrás, ali, no lugar onde eu havia abrido meu leque de perspectivas, onde senti a mínima da mínima esperança ao aceitar as mãos de minha paixão escondida e esquecida naquele momento. Senti uma pontada de morfina sendo aplicada não em meu braço, mas em meu peito, bem do lado esquerdo, onde meu corpo já sofria de parestesia. E assim, eu paralisei, petrifiquei, voltei ao mar de dor onde ao invés de ondas se chocando em pedras, existia aquela viola, aquele dedilhado, aquela voz. E adoeci. Eu não conseguia pensar em forma pior para um primeiro contato após anos, mesmo havendo várias possibilidades, não pensava em quase nada, um zunido de perplexidade tampava meus ouvidos para qualquer pensamento que fosse nítido. Senti meus olhos fervendo a cada segundo que ouvia a voz dele ecoando ali, um oceano chegava por eles, eu sabia. Não era tristeza, não era decepção, não era um corte recente... Era uma das cicatrizes sendo aberta a força.
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Stitches
Romance"Descobri que vencer meus medos me força a acreditar que quando tudo acabar não será você e eu e sim eu e meu silêncio. Aprendi que reprimindo a mim mesma não é a melhor maneira de ser alguém, mas descobri que vinte e três horas por dia posso ofusca...
