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Dizem por ai que uma vez na vida aparece alguém destinado a ficar com você para o resto da vida. E bem ai, tudo fica perfeito, as estrelas se alinham e corpo e espirito se formam em equilíbrio. Uma força superior extraordinária que conta por ai histórias de romances incorrigíveis, vez formada por um feliz acaso, vezes formada por nada mais que a força da experiência humana, da incapacidade de dominar os acontecimentos da vida e de construí-la por si só.
Aqui encontramo-nos em ambas, acredito eu. Apesar de cada passo que eu insistia em dar dentro ou fora de meu casulo, cada vez que um dos dedos de meus pés tocava o chão um novo ar de choque era recebido em minhas costelas. Meus ombros caíam mais, minhas coxas se viam em estado vegetativo, minhas costas imploravam por misericórdia e minha alma só pedia por mais um dia de esperança. Não importava dor alguma, por mais agudas que fossem, por mais misturadas com o medo que elas se encontrassem, nenhum deles me faria submissa. Eu acreditava em certa parte de mim mesma todos os dias, até mesmo nos mais pantanosos, onde eu jazia em minha cama só com o som de meu estomago pedindo por atenção. O que eu quero dizer é que, se conseguimos ter fé mesmo em meio à realidade sofrida, porque temos tanta dificuldade em crer nos acasos? Nos momentos onde o destino invade nossas noites, nossas horas, nossas mentes. Os momentos onde o universo gira de forma mais lenta e começa seu jogo, colocando cada pecinha do quebra cabeça em seu lugar. Seria tão difícil assim?
Uma mancha de café respingada na calça em uma manhã importante, um olhar trocado em um ponto de ônibus vazio, o rompimento de uma porcelana que abrigava um coração e meio, uma melodia tocada alta demais para uma conversa em um pub local, um passo para frente meio milímetro maior que o de costume, um aperto de mão mais forte lhe formigando a palma das mãos, um relógio despertando tarde demais em um dia chuvoso, um banco vazio em um parque movimentado... Um lugar no passado se dividindo com o presente, ambos sentados no mesmo carvalho envelhecido, ambos caminhando na minha avenida. Ambos dividindo o mesmo céu em forma de coração. Todos com a mesma perspectiva da criação de uma parte do que poderia ser uma história de destinos, acasos, coincidências ou até mesmo o puro e clássico romance.
Serendipidade.
É o acaso de uma roupa peculiar o bastante para se tornar bonita. É uma chance que a vida nos deu, é o universo mandando um abraço apertado. É achar um amor para chamar de meu. É tropeçar em um momento feliz e se deleitar em volta dele. É não esperar e se encontrar bem, mesmo em meio as chamas. É o sentimento de acordar feliz sem motivo aparente. É sorrir por acidente e se derreter sem se preocupar com os enfeites.
[...]
Caminhávamos com os pés arrastados até um banquinho de madeira, ele abria um saquinho de petiscos que havia comprado no caixa do restaurante que havíamos saído á algum tempo. Uma nuvem densa que ambos teimávamos juntos ter o formato de um animalzinho distorcido nos perseguia. A noite nos perseguia. Entre todos os acasos ou jogadas de dados em meu consciente quando se tratava dele, do moço primavérico, a noite estava quase sempre presente. Fosse ela mais clara ou mais escura, mais fria ou mais calorosa, mais flores menos vendavais... Ela nos acompanhava como um cupido acompanha seus alvos antes das flechadas. Eu mal pensava ou mal me coçava. E tremor algum me fitava, para o aquietar de minha alma. Éramos só eu e ele, ele e eu. A sós. Mais uma vez, dessa em especial a lua nos assistia, porém ela era crescente — Assim como o ardor que meu coração sofria pelo moço ao meu lado. — Ao contrário da ultima vez quando a observamos em seu mais belo estado, cheia e aparentemente sangrenta.
Sentamos ambos menos tímidos que o normal, eu evitava olhar seus olhões enrugados ao sorrir sem jeito, evitava a distância que me faria descompassar os dedos dos pés e transformar minhas orelhas em grandes amoras. Depois da tarde e suas lembranças pesarosas no consultório, tudo que eu poderia buscar da noite era meu equilíbrio, meu estalar de dedos que controlaria a monotonia presa em mim e adicionaria o fim do arco íris, mesmo ainda sem saber o que havia ao fim dele.
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Stitches
Romance"Descobri que vencer meus medos me força a acreditar que quando tudo acabar não será você e eu e sim eu e meu silêncio. Aprendi que reprimindo a mim mesma não é a melhor maneira de ser alguém, mas descobri que vinte e três horas por dia posso ofusca...
