O lobo, o espelho e o receptáculo

614 84 127
                                    


A capela era pitoresca. Can não conseguia dar outro adjetivo a construção no meio de um bosque isolado. Havia estradinhas pavimentadas até o local, mas era obviamente algo colonial e antigo, em desuso a décadas.

E era bonito, quase irreal como a floresta do castelo.

Sorriu assim que Xiao o colocou no chão – Ele tinha lhe pegado nas costas e corrido como um atleta até ali, sem um ofego sequer – E então seus pés lhe levaram até a porta de folha dupla da construção religiosa:

— Em meu mundo haveria uma gárgula protegendo esse lugar – Xiao disse passando por ele e abrindo a porta que revelou um local bem cuidado, diferente do que esperava e estava bem limpo... – Eu limpei antes de trazê-lo, as fêmeas cuidaram da casa do padre. Minha fêmea adorava capelas embora morássemos em um templo. É pacífico, não acha?

Can se voltou para o homem quase duas vezes o seu tamanho e assentiu. Sempre achara aquilo também.

A nave da construção era compacta e tinha meia dúzias de bancos em ambos os lados. O altar de pedra estava vazio, mas havia luzes artificiais. Ao menos tinha energia elétrica ali.

Xiao lhe levou até os fundos que dava para a casa paroquiana de três cômodos amplos e igualmente limpo e com poucos móveis. Cama e cômoda ao menos havia ali, a igreja mandava alguém cuidar esporadicamente, pelo visto.

No cômodo central contudo estava lotado de todos os tesouros do bunker do castelo, além de dois espelhos. O de Jiliard, mais alto e luxuoso e um outro simples, menor, encostado a um canto entre a escrivaninha da Dama e muitos baús com ouro.

— Onde está a M5 e as Cicutas?

— Elas foram providenciar alimentos, tem lugares abertos mesmo nesse horário, segundo elas. Vamos abastecer a casa.

Can assentiu e olhou melhor para todos aqueles tesouros e riquezas que não eram seus, e sim da rainha da OMMP. Tin tinha ficado apenas com os documentos e as perolas negras além da coleira de rubis da outra vez... Ele deveria fazer o mesmo. Ia usar apenas o necessário para executar seu plano e então devolveria tudo para sua dona de direito.

Então Jiliard saiu do espelho sacudindo os cabelos agora cinzas e veio para si sorrindo animado:

— Achei quase todas elas, eu sou um máximo!

— Claro que é – Can disse afável rindo da animação dele e das roupas esvoaçantes. Então suspirou e se concentrou no trabalho que tinham pela frente – Minha prioridade era a Mari, ela está bem?

— A mãe a ama, mas ama aquele homem também, ainda não aconteceu nada, mas está prestes a acontecer. Você pode intervir como planejou ou simplesmente, agora com o espelho ponte, podemos roubá-la.

O avatar do Seok disse um pouco frio e Can sabia o porquê. Havia humanos que não mereciam respirar no mundo, mas Can não queria mais julgar e condenar, ele faria tudo dessa vez com medidas de contenção. Ia dar um basta na era sanguinolenta, do seu jeito.

E não podia mais empurrar as decisões, era a hora de tomá-las.

Suspirou.

— Da outra vez, esse trauma fez com que ela sofresse desnecessariamente por quase um ano, perdida, destruída e sem a mãe. Dessa vez Mari não passará por isso, me diga, conseguiu saber se a mãe dela é religiosa?

Jiliard sorriu feroz:

— Sim, ela é.

— Ótimo, faremos isso essa noite – Ele se voltou para o Xiao – Sei que não é sua responsabilidade nem para isso que veio, mas eu preciso tirar essas crianças do risco e...

Minha Seme EmpoderadaOnde histórias criam vida. Descubra agora