POR QUE FUNCIONAVA

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No geral, note que o processo colocava praticamente toda a responsabilidade
e o trabalho da conquista nas mãos do homem. Ele é que tinha de enfrentar os
pais da moça e conquistar o respeito deles. Ele é que tinha de se mostrar
responsável e capaz de cuidar dela. Se conseguisse convencer os pais, teria
então de conquistar o interesse e a afeição dela.
Além disso, durante o cortejo na casa dos pais da jovem ou em ocasiões
sociais, o casal permanecia o tempo todo sob os olhos vigilantes de algum
membro da família dela. Isso inibia qualquer tentativa de o rapaz tirar
vantagem dela ou desrespeitá-la. Ele sabia que se a desrespeitasse, teria de
dar satisfação à família dela. Sim, a condição para ter contato sexual com a
moça era casar com ela.
O objetivo do cortejo era realmente conhecer o que estava dentro da outra
pessoa, não o que estava por baixo de suas roupas. Esse conhecer era feito
por meio da conversa, da troca de ideias, informações e opiniões entre os dois.
Por isso, beijar, abraçar ou até segurar na mão eram considerados
desnecessários, fora do objetivo do cortejo. E sem a tensão do contato físico,
os dois podiam manter o foco no que realmente importava naquele momento:
conhecer um ao outro.
Considerando que o divórcio não era uma opção fácil nem muito bem-vista
na sociedade, o casal tinha de avaliar muito bem um ao outro e estar bem
seguro de que ambos realmente queriam assumir um compromisso por toda a
vida. Chegar a essa decisão o quanto antes era o objetivo — ou casavam logo
ou deixavam de enrolar. E como a intimidade física não era permitida antes da
noite de núpcias, isso também incentivava o homem a partir logo para o
casamento, em vez de ficar enrolando a moça. Em muitos casos, o namoro era
muito rápido. Já partiam para o casamento.Contraste isso com o que acontece hoje em dia. Como as pessoas veem o
namoro, em grande parte, como diversão, uma oportunidade de ter contato
físico sensual, passam um longo tempo se relacionando dessa forma e se
conhecendo mesmo muito pouco. O namoro físico lhes satisfaz os desejos
sensuais e a necessidade de companhia. Assim, elas não têm nenhuma pressa
para casar. Por isso é comum hoje ver “namoros” de dois, três, cinco anos ou
mais, sem nenhum planejamento ou projeção para casamento.
O cortejar funcionava bem para os devidos fins. Vejamos alguns dos
benefícios:
Envolvimento das famílias: pessoas maduras e de confiança guiavam
seus filhos para um bom casamento. A aproximação dos parentes de ambos
os lados fortalecia os laços familiares do futuro casal. O apoio familiar para
que o casamento funcionasse era muito forte. E, é claro, por essa tradição,
raramente se casavam membros de famílias rivais ou que não se davam
bem.
Já se conheciam: porque ambos normalmente eram de famílias próximas,
era comum já se conhecerem desde a infância. Quando não, mesmo assim,
as referências familiares já atestavam as boas origens dos candidatos. Não
era como hoje, quando as pessoas sabem praticamente nada sobre o
passado de quem começam a namorar.
Responsabilidade do rapaz para com os pais da moça: ele sabia que
teria de cuidar e tratá-la bem, pois empenhou sua palavra aos pais dela.
Hoje, honrar o compromisso com a família da esposa é uma preocupação
quase inexistente na mente de muitos maridos na hora da crise conjugal. Às
vezes, quem volta para casa dos pais é ele, deixando sua esposa e filhos em
casa.
Filtrava os fanfarrões: todo o processo do cortejo — a seriedade, o
envolvimento das famílias e o objetivo em si (casamento) — já mantinha os
que tinham segundas intenções com a moça bem longe. Ela, por sua vez, já
sabia que o rapaz era sério e estava realmente determinado a conquistá-la.
O foco era certo: descobrir e decidir se queriam ser marido e mulher pela
vida toda. Isso fazia a avaliação ser bem mais racional e calculada do que
emocional e impulsiva, como costuma acontecer atualmente.
A dificuldade valorizava a conquista: com tanto trabalho e tantas
barreiras para chegar à moça e finalmente se casar com ela, o homem
costumava valorizar mais o que conquistou a duras penas.
Não havia intimidade o bastante para haver brigas: sem o sexo, o
casal não tinha tanta intimidade, os jovens não tinham a sensação de posse
um do outro e por isso não tinham razões para brigar. Ao contrário de hoje,
quando namorados são ativos sexualmente e vivem brigando, terminando,
voltando e brigando novamente. Assim, desgastam a relação antes mesmo
do compromisso.É claro que o cortejo não era um sistema perfeito. Alguns pais acabavam
impondo sobre seus filhos a escolha do cônjuge, em vez de deixá-los decidir.
Motivações sociais, econômicas e políticas muitas vezes influenciavam a
escolha do par para os filhos. Mas nem sempre isso significava que o casal era
infeliz. Na sua maioria, os casais aprendiam a se amar e construíam uma vida
juntos.
Porém, as vozes de descontentamento com esse sistema falavam alto.
Estamos acostumados a ver nos filmes de época a jovem sendo forçada pelos
pais interesseiros a casar com um amigo rico da família, que, para reforçar o
drama no enredo, costumava ser um homem bem mais velho que ela, feio de
doer, asqueroso, bêbado, mulherengo, violento e barrigudo. Foram histórias
como essas que rotularam os casamentos arranjados como uma absurda
violação dos direitos dos jovens, especialmente das mulheres. (Mas não vamos
nos esquecer que no sistema atual isso ainda acontece, não por imposição de
ninguém, mas por livre escolha de muitas mulheres. É só dar uma olhada nas
colunas sociais e sites de celebridades para verificar.)
Apesar de não serem a norma, casos de abusos sofridos por mulheres em
casamentos arranjados ecoavam em todas as classes sociais. É a velha
história: má notícia corre rápido e vende mais.
Isso, somado à popularidade dos contos românticos que ganhavam espaço
nas artes literárias, fez com que o cortejo saísse de moda. Entra a era do amor
romântico.

Cristiane

O nome já parece vir com flores: Romantismo… ahhhh, uma idealização
feminina que nos faz sonhar. Mas você sabia que isso foi um movimento?
O Romantismo começou nas últimas décadas do século 18 na Europa e se
estendeu até o século 19. Ele veio em contrapartida ao século anterior, que
promoveu a razão, o Iluminismo.
Depois de séculos de escravidão mental promovida pela religião e pelos
governos, a Reforma Protestante criou espaço para que as pessoas
começassem a pensar por si mesmas. Assim, o mundo ocidental saiu do
que a História hoje chama de “Idade das Trevas” e, com o passar do
tempo, começou a abraçar as ideias dos pensadores iluministas. Muitos
desses pensadores, para romper definitivamente com a dominação religiosa
dos séculos anteriores, foram para o outro extremo, colocando a sabedoria
humana como centro de tudo. Mas, com as pessoas sendo motivadas a
pensar por si mesmas, poderiam encontrar o equilíbrio, entendendo que o
homem não era o centro e que a razão não precisava excluir a fé.
Porém, antes que as pessoas pudessem encontrar um equilíbrio, o
Romantismo veio para anular o que o Iluminismo buscava. Agora era hora de viver pelos sentimentos e não pela razão. E foi assim que o mundo
voltou a ser escravo, dessa vez não de uma religião ou governo, e sim do
próprio coração. Se o coração sentiu, é porque tem que ser, como vários
cantores hoje entoam com tanta dor. A ideia do romance é tão
influenciadora e entranhada em nossas veias femininas, que a primeira vez
que me dei conta dessa realidade foi como quando descobri que Papai Noel
não existia. Uma verdadeira decepção.
Os escritores desse período, como a inglesa Jane Austen, foram os que
mais contribuíram para que o romance se transformasse em idealização
amorosa no imaginário popular. Até hoje, mulheres suspiram por seus
personagens inventados. Apesar de ter vivido séculos antes, o dramaturgo
William Shakespeare influenciou o trabalho de muitos romancistas da
época, que bebiam de seu espírito para contar suas próprias histórias.
Detalhe, Jane Austen nunca se casou, e Shakespeare, com sua vida pessoal
obscura, não foi conhecido como um grande sucesso em sua vida amorosa.
Sem contar que ninguém se lembra de que Romeu e Julieta, a mais famosa
peça de Shakespeare, acabou com o suicídio de ambos e mais três mortes!
Em uma época sem televisão e internet, era dos livros o papel de moldar o
pensamento da sociedade, para o bem ou para o mal. Considerado marco
inicial do romantismo, o livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, do alemão
Goethe, levou vários leitores à morte quando foi lançado. As pessoas
ficaram tão envolvidas com a história de amor frustrado do protagonista,
que imitaram seu suicídio.
E foi sobre essas tragédias literárias que muitas pessoas passaram a
basear suas vidas amorosas e o fazem até hoje. Vamos sentir em vez de
pensar e de analisar. Vamos sofrer pois amar é sofrer, arriscar, se lançar de
um prédio alto e ver no que vai dar… Será que já não sabemos o final
dessa história?
“O sentimento do artista é sua lei” — disse um dos grandes artistas da
época, resumindo bem o que os guiava em suas obras. E o sentimento se
tornou mesmo lei. Jovens começaram a se rebelar e resistir à interferência dos
pais, tomando em suas próprias mãos a responsabilidade de encontrar o amor
de suas vidas. No antigo sistema, os pais escolhiam e os filhos consentiam. No
novo, os filhos escolhiam e os pais consentiam. Mais tarde, os filhos escolhiam
e os pais, consentindo ou não, tinham de aceitar. Hoje, a maioria dos pais não
tem ideia do que seus filhos estão fazendo de suas vidas amorosas, com quem
nem onde. Quando muito, ficam sabendo por terceiros que a filha engravidou
ou que o filho foi morar junto com alguém. E o pior: muitos desses pais acham
que é melhor assim. “Eles precisam errar para aprender”, dizem.
Cada velha geração tem a nova geração que merece.
Tentando consertar um sistema que facilitava abusos em alguns casos, criou-se uma desordem generalizada. A emenda ficou pior que o soneto…

namoro blindadoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora