Capítulo 8-O MITO da pessoa certa

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EU SEI QUE ESTA AFIRMAÇÃO vai explodir um conceito muito romântico
mantido pela maioria das pessoas. Talvez algumas joguem fora este livro
depois de lerem isto... Quem sabe até o picotem com a fúria de quem acabou
de flagrar o parceiro aos beijos com outra pessoa. Então aqui vai:
Não existe pessoa certa para ninguém.
Pronto, falei. Essa ideia de que existe uma pessoa certa para você, que se
encaixa direitinho como uma luva, a tampa da panela, a metade da laranja,
sua alma gêmea e outros termos semelhantes é uma grande farsa. Você pode
acreditar no mito, se quiser. Ou pode acreditar na verdade. E a verdade é que
ninguém é feito sob medida para ninguém. E vou mais longe: não existe
apenas uma pessoa nesse mundo capaz de satisfazê-lo afetivamente. Há mais
que uma. Se você perde um amor, você pode sim encontrar um outro amor tão
ou mais satisfatório do que o que perdeu. (Agora a cabeça de alguns deve ter
começado a fundir…) E isso é um fato, não um mito.
Mas antes de descartar minha tese, raciocine comigo. Essa ideia de cara-
metade não é plausível nem matematicamente, nem logicamente, nem
espiritualmente.
Como já comentamos, matematicamente, os números não batem. Para todo
solteiro ter sua “metade”, precisaríamos de um número exato de homens e
mulheres solteiras disponíveis. Nenhum país tem um número igual de homens
e mulheres disponíveis para um relacionamento. Presumindo que a “outra
metade” desses homens solteiros está entre as mulheres solteiras por aí em
algum lugar, simplesmente não há par para todo mundo. Alguém vai acabar
sozinho. Tipo dança das cadeiras.
Logicamente, tampouco faz sentido. Por exemplo, se uma jovem recém-
casada perde o seu marido em um acidente e fica viúva, quer dizer que agora não adianta mais ela procurar ninguém para se casar no futuro porque a
“pessoa certa”, a única no mundo que a faria feliz, já morreu? Bastaria apenas
uma viúva que era feliz com seu falecido e depois conseguiu casar novamente
e ser feliz com outro homem para desbancar esse mito. Só eu, conheço vários
viúvos e viúvas assim.
E espiritualmente, também não há base bíblica para isso. Se Eva era a
“pessoa certa” para Adão, então Deus errou gravemente. Afinal, foi Ele quem
a criou para Adão — e todos nós sabemos no que deu. O fato, porém, é que
quando Deus falou em criar a mulher, a descreveu como “uma auxiliadora que
seja adequada” para o homem. Note: adequada, não “certa”. (Mais sobre isso
daqui a pouco). E, mesmo sendo adequada, as escolhas dela trouxeram sérias
dores de cabeça para os dois.
O trabalho de encontrar um parceiro é fruto de nossas escolhas. Permanecer
casado e solucionar os problemas da vida a dois também é fruto de nossas
escolhas.
O apóstolo Paulo, ao falar sobre a mulher cristã que ficou viúva, disse que
ela “fica livre para casar com quem quiser, mas somente no Senhor”1. Quer
dizer, não somente ela tem uma segunda chance de se casar, como também
fica livre e responsável para fazer sua própria escolha, “com quem quiser” —
desde que a pessoa seja da mesma fé. Onde fica então a ideia da única
pessoa certa no mundo? E aquela fantasia de que Deus é quem escolhe a
pessoa com quem você vai se casar?
A verdade é que nós somos responsáveis por nossas escolhas. O que Deus
nos dá é a inteligência para identificar quem é adequado e quem não é para
um relacionamento amoroso. E também institui regras que regem um
relacionamento feliz. Quebre-as e não há pessoa certa nesse mundo que dará
certo com você. A chave para um casamento feliz não é achar a pessoa certa;
é fazer as coisas certas.
Faça o que é certo para achar uma pessoa adequada para você.
UM PRÍNCIPE QUE NÃO VAI AO BANHEIRO
Cristiane e eu cremos em Deus, mas um dia ela falou que queria se separar de
mim. Se alma gêmea existe, eu não sou a da Cristiane nem ela a minha, pois,
por 12 longos anos, havia muitas brechas e arestas em nossa relação
exatamente porque nós não completávamos um ao outro perfeitamente.
Nosso casamento estava indo para o brejo.
As coisas só mudaram quando entendemos que para nosso casamento
funcionar, teria de ser com nossas próprias escolhas e esforços.
Muda isso, deixa de ser egoísta naquilo, reconhece que precisa mudar aqui,
faz um esforço para ser diferente ali, usa a inteligência acima da emoção,
busca a Deus, mas faz a sua parte também — foi assim, resumidamente, que
tudo mudou.
E não foi algo que fizemos naquela altura, para resolver os problemas de então, e depois deixamos de fazer. Até hoje, todos os dias, nós continuamos
trabalhando em nossa relação. Temos de prestar atenção um no outro. Temos
de ser vigilantes com a cultura anticasamento ao nosso redor. E temos de
manter nosso relacionamento com Deus em dia, pois disso vem a habilidade
para praticarmos o que sabemos.
É assim que você vai se adequando à outra pessoa e ela a você. Por isso,
uma das características mais importantes que você deve procurar em alguém
para se casar é a flexibilidade da pessoa na convivência e também a
inteligência de saber apreciar diferentes pontos de vista. Vou repetir isso pois
é muito importante você gravar. Uma das características mais importantes que
você deve procurar em alguém para se casar é:
A flexibilidade da pessoa na convivência e também a inteligência
de saber apreciar diferentes pontos de vista.
Somos muito abençoados pelo fato de termos essas duas qualidades em nós.
Sem elas, não estaríamos mais juntos.
Ainda hoje, Cristiane e eu não somos “certos” um para o outro e nunca
seremos. Se ela fosse “certa” para mim, ela comeria mais vegetais verdes;
não se chatearia quando eu coloco uma ervilha no prato dela quando ela não
está olhando, só para irritá-la; ela se divertiria comigo em algumas
brincadeiras mais físicas, como rolar no chão, empurrá-la da cama e coisas do
tipo (tudo isso eu já tentei, com resultados desastrosos, como você pode
imaginar); ela desestressaria lendo um livro comigo ou estudando alguma
coisa nova em vez de assistindo a um filme; e gostaria dos meus gostos
musicais, alguns dos quais ela simplesmente despreza… Entre outras coisas.
Cristiane
E se o Renato fosse “certo” para mim, não apenas ele não gostaria dessas
coisas, mas também não soltaria pum debaixo dos lençóis quando estamos
na cama… Entre outras coisinhas.
Quem nunca o fez, que atire a primeira pedra! E deixe-me avisar as solteiras
românticas que idealizam um príncipe que não vai nem ao banheiro que dirá
soltar gases: em uma recente pesquisa2
, 9 de cada 10 homens casados
admitiram, anonimamente, soltar pum debaixo dos lençóis. O estudo indicou
que o décimo também solta, com uma diferença: tem a coragem, como eu, de
admitir publicamente. Portanto, meninas, não se esqueçam de incluir uma
máscara de gás no enxoval. (Sinto muito, não há blindagem contra isso.)
Não existe pessoa certa para ninguém. A ideia de que só há uma pessoa
nesse mundo que se encaixará perfeitamente com outra é a razão por que muitos continuam solteiros e outros tantos infelizes no casamento. Veja se
este diálogo lhe soa familiar:
— E aí, ainda está solteiro?
— Pois é, eu ainda não encontrei a pessoa certa.
Solteiros sonham com a pessoa que preencherá todos os requisitos na lista
que idealizaram.
Casados que vivem com problemas no relacionamento batalham com a
dúvida em suas mentes: “Será que me casei com a pessoa errada?”.
Vida amorosa feliz, pura e simplesmente, é fruto de trabalho. Casamento
feliz é possível sim, e muito bom, mas dá trabalho. Não é fruto do acaso. Não
é automático. Não é consequência de sorte, nem de cupido, nem de achar a
pessoa certa, nem de crer em Deus.
Quem acha que é fruto de sorte tem que primeiro crer na sorte. Quem crê na
sorte, crê no azar. E como em qualquer jogo de azar, a chance de dar sorte é
muito menor do que a de dar azar. A chance de perder na loteria é
infinitamente maior do que a de ganhar. A chance de perder no dominó, no
baralho, no bingo etc. — sempre é maior que a de ganhar. Você tem certeza
de que quer basear sua vida amorosa na sorte?
Quem acha que casamento feliz depende de achar a pessoa certa realmente
precisa de toda sorte do mundo.
E quem acha que crer em Deus é o suficiente para ser feliz no amor explique,
por favor, tantos crentes divorciados ou vivendo em casamentos de fachada.
Cristiane
Não existe um parceiro ideal, porque todos temos falhas, defeitos e
fraquezas. Então, se ficar procurando uma pessoa perfeita, nunca vai achar.
O certo é saber se ajustar ao outro. Se você começa um relacionamento
pelas razões certas, já entra sabendo que terá de fazer ajustes. Porém, se
começa com o egoísmo, não irá aguentar a outra pessoa. Você só vai
pensar em você, nas suas necessidades. Por isso dá errado.
Quando entra em um relacionamento querendo fazer a outra pessoa feliz,
você releva muita coisa. E não cria resistência à ideia de mudar para se
adequar àquela pessoa — ideia que, hoje em dia, muita gente vê como um
problemão. Muitos ficam com raiva quando falamos que têm que mudar.
Não querem e insistem que o outro é que deveria mudar, o outro é que
está errado. Esse ponto de vista é egoísta.
Quando amo, quando quero fazer o meu marido feliz, se eu sei que há
certas atitudes minhas que prejudicam o nosso relacionamento, vou mudar
o meu jeito. E isso não será um problema, porque se amo, vou fazê-lo. E
ele fará a mesma coisa.
Então a “pessoa certa” é esta: você não ser egoísta, querer realmente fazer
a outra pessoa feliz. Aí sim, você tem o perfil para estar em um casamento.Pessoa certa é fantasia, porque se você tivesse o poder de desenhar o
parceiro ideal para você, dentro de três ou seis meses com certeza iria enjoar
dele. Iria achar defeitos no parceiro que você mesmo desenhou. Isso porque
você é falho e também porque o ser humano muda com o tempo, a idade, as
circunstâncias e as experiências que passa na vida. Ninguém é estático. Logo,
não existe parceiro perfeito. O que existe são pessoas reais, que evolvem, com
qualidades e defeitos aos quais você tem de aprender a se adaptar. E é isso
que chamamos de pessoa “adequada”.
ADEQUADA, NÃO CERTA
Como mencionei anteriormente, quando Deus decidiu criar uma companheira
para o homem, as palavras que usou para se referir a ela foram “auxiliadora” e
“adequada”3.
Uma coisa adequada é bem diferente de uma coisa certa. “Certo” exprime
exatidão, algo que atinge a medida correta. Para entender a diferença entre
certo e adequado, basta consultar o dicionário:
Adequado: (adjetivo) que é bom ou próprio para determinado efeito, lugar ou objetivo.
Apropriado, conveniente. Adequar (verbo): modificar ou modificar-se para determinado uso o
que estava feito para outro uso. Adaptar, moldar. Fazer ou sofrer adaptação ou
ajustamento consoante a situação. Ajustar.
Isso sim faz muito mais sentido e está bem mais próximo da realidade do
que deve acontecer em um relacionamento. O melhor que podemos achar
para um bom casamento é uma pessoa adequada e que nos ajude na longa
caminhada da vida. E os críticos da fé em Deus ainda a julgam irracional e
insensata. Mas eu vejo muito mais juízo e lógica no que Deus ensina do que
nas mirabolantes invenções humanas, como a ideia da pessoa certa, por
exemplo.
Veja outro exemplo. Como é um típico dia de casamento sonhado pela
maioria dos noivos de hoje? Um gasto altíssimo para o grande dia, para
eternizar o momento, render boas fotos e um bom vídeo. A igreja
impecavelmente decorada com flores da entrada ao altar. Orquestra e
cantores clássicos provendo os momentos musicais da cerimônia. O singular
vestido da noiva, o terno do noivo, a dama de honra e o pajem, os trajes dos
padrinhos… tudo em perfeita harmonia visual. As mesas para os convidados. O
jantar de três pratos. O DJ animando a festa. O filme com a história romântica
do casal. A limusine esperando na porta. A lua de mel em um lugar exótico.
É o sonho dos noivos, especialmente da noiva (desculpem, mulheres), de
que casamento é aquilo que dizem os cartões que acompanham os presentes.
“Vocês nasceram um para o outro.” “Que todos os dias sejam cheios de amor,
paz e harmonia.” Tudo esbanjando romantismo.A dura realidade, porém, pode começar já na primeira noite da lua de mel.
O que me intriga é que quase não se fala por aí dos dias difíceis do
casamento. Casamento dá trabalho e haverá dias — semanas, meses, ou anos
— de dificuldades. Você tem que saber disso de antemão, porque quem entra
no casamento pensando nas historinhas da Disney vai acordar um dia ao lado
de um sapo.
Pergunte a qualquer casal maduro, que hoje vive feliz e bem ajustado, se
não tiveram seus anos de deserto. Cristiane e eu finalmente só nos ajustamos
depois de 12 anos de casados! Fico pensando nos casais que desistiram nos
primeiros cinco, sete, dez anos de casamento — ou que ainda estão casados,
mas pensando no divórcio. Abandonaram o barco na primeira tempestade
porque só esperavam brisa e dias de sol.
“Ele não me ama mais.” “Ela não é mais a mesma.” “Eu o amo, mas não
sinto mais nada por ele.” (Difícil de explicar este último, mas ouvimos isso
demais.)
Mulheres, sabem aqueles votos que os casais trocam no altar quando dizem
“na alegria e na tristeza”? O que vocês acham que “tristeza” quer dizer?
Homens, o que adianta zerar a conta bancária para alegrar a mulher no dia
do casamento e depois investir zero de tempo e esforço nos anos a seguir?
Saiam do mito. Entrem na realidade. Casamento feliz existe, sim — para
quem escolhe com inteligência e trabalha para construí-lo.
POR QUE OS CASAMENTOS FRACASSAM?
Por que muitos casamentos de hoje não têm dado certo?
Por várias razões. Temos visto que, principalmente, não têm dado certo
porque em geral já começam errado. As pessoas têm começado o
relacionamento por todas as razões erradas:
Para sair da casa dos pais — por conflito ou busca de independência
Para ter uma vida estável, estabilizada
Para ser feliz
Porque se apaixonou
Porque engravidou
Para fazer sexo
Enfim, as pessoas usam as razões erradas para se casar. Então, quando
chega o convívio do dia a dia de um casamento, elas constatam que aquelas
razões pelas quais se casaram não sustentam a relação. E por isso fracassam.
A pergunta que precisa ser feita é: enquanto uns fracassam, por que outros
são bem-sucedidos?
Não é bom que um casamento comece mal. Ao começar errado, as chances
de não dar certo são muito grandes.
Entre outras qualidades, casamentos bem-sucedidos costumam ser frutos de:1. Decisões feitas com inteligência, não com emoção (ex: na escolha do
parceiro, na hora das brigas etc.).
2. Empenho em cumprir a palavra de compromisso dada no dia dos votos de
casamento (aquele velho princípio, “minha palavra é minha honra”).
3. Fé em Deus e obediência aos Seus conselhos.
4. Paciência e tolerância com as falhas um do outro.
5. Ter padrões altos para si mesmo e para o parceiro.
6. Observação de certos limites em respeito ao parceiro (ex: não ter amizade
íntima com pessoas do sexo oposto).
7. Esforço constante para agradar o outro.
8. Colocar o casamento acima dos egos.
9. Perseverar, por saber que os dias ruins passarão.
10. Adaptabilidade do casal, que é a capacidade de se adequarem um ao
outro.
Note a ausência da palavra “amor” na lista acima. Não foi proposital, mas
notei isso depois que escrevi. Sabe por quê? Porque amor é praticar essa
lista. Não é sentir isso ou aquilo, mas sim fazer o certo e fazer o bem pelo seu
cônjuge — mesmo quando não se sente vontade.
Da lista acima, o que está faltando você praticar?
Encontrar e ser uma pessoa adequada é o que você precisa para ter um
relacionamento feliz.
SERVE?
Uma maneira bem simples de pensar sobre a pessoa adequada é responder à
pergunta: “Ela me serve?”. (É claro, servir no sentido de ser compatível, não
de ser serviçal.)
Você deve se perguntar se aquela pessoa serve para você, e vice-versa.
Em nosso casamento nós não somos perfeitos um para o outro, mas
servimos um para o outro muito bem. Por exemplo, a Cristiane tem uma
personalidade mais impulsiva, de fazer as coisas na hora, quando lhe vêm à
cabeça. Eu já sou mais pensativo, cauteloso, penso sempre nas consequências
antes de agir. São qualidades diferentes, com seus prós e contras, mas bem
complementares. Ela serve bem para mim, pois a personalidade dela me
impulsiona a agir e a minha a ajuda a ser mais cautelosa e menos
inconsequente. Somos adequados um para o outro.
Imagine se nós dois fôssemos impulsivos ou cautelosos… Ou se não
fôssemos flexíveis em nossa maneira de ser. Importariam outros fatores como
sentimentos, beleza, objetivos ou atração?
Não importa se você gosta muito da pessoa, se a acha bonita, se ela tem
muitas qualidades. O que importa, realmente, é: ela lhe serve? E você, serve
para ela?Para entender melhor a importância de servir, considere as roupas e outros
acessórios que você tem no seu guarda-roupa. Você provavelmente tem
muitas peças de roupa — dezenas, senão centenas. Vários pares de sapatos,
cintos, acessórios etc. Agora, observe quais você realmente usa.
Você provavelmente tem lá uma roupa ou um sapato que você gosta muito
por sua beleza, qualidade, custo ou até pelo que aquele item representa para
você sentimentalmente. Mas, infelizmente, ele não lhe serve mais. Você
mudou de peso, aquilo saiu de moda ou você simplesmente não tem outras
peças para usar com ele. Se perceber bem, a maior parte do seu guarda-roupa
se encaixa nesse critério.
Por outro lado, você tem aquele par de sapatos muito fiel, que você usa
quase todos os dias e torce para que ele não acabe… É tão confortável, vai
com qualquer roupa… E aquela camiseta velha que você usa para dormir?
Aquela que já tem um furinho de tão velha, mas você se recusa a jogar fora
porque é tão gostosa?
As coisas que nos servem, nós usamos, usamos e usamos sempre e nunca
jogamos fora. Assim é no relacionamento também.
Chega uma hora na relação que a beleza perde o seu apelo4. O dinheiro tem
valor limitado. A profissão da pessoa se torna apenas algo que ela faz. As
viagens cansam, os passeios enjoam… Quer dizer, como uma roupa que tem
um brilho momentâneo, certas coisas no relacionamento também são
passageiras e não sustentam o amor.
O que fica realmente são aquelas coisas que nosso parceiro nos proporciona
que precisamos e desfrutamos diariamente. Coisas como paz, atenção,
compreensão, auxílio, amizade, apoio, respeito, alegria, cuidado… e outras
que nunca ficam velhas, saem de moda ou nos cansam.
São estas qualidades que uma pessoa adequada proporcionará a você e que
você também deve desenvolver para oferecer a ela. A pessoa adequada a
você nunca, intencionalmente, o ferirá nem tentará mudá-lo em alguém que
você não é.
Portanto, esqueça a pessoa certa pois ela nunca existiu. Aprenda a ser e
buscar a pessoa adequada.
ME AJUDA?
A outra palavra que qualifica uma pessoa para ser uma boa companhia para o
resto da vida é “auxiliadora”. Não basta servir, ser adequada para você. Tem
de lhe ser útil também.
A princípio, isso parece um tanto egoísta. Mas uma breve consideração
mostrará que não. Até porque estamos tratando de uma via de mão dupla
aqui — você também precisa ser útil ao seu parceiro. Logo, os dois ganham.
Um parceiro para toda a vida precisa ser útil. Senão, considere o oposto.
Você gostaria de ficar ao lado de alguém que o atrapalhasse?
Quem um dia sonhou em se casar com uma mala pesada e carregá-la até que a morte os separe?
É claro que por um amor verdadeiro, uma pessoa é capaz de continuar com o
parceiro mesmo que este não tenha ou perca a habilidade de lhe ser útil de
alguma forma. Por exemplo, alguém que tem uma deficiência física não
poderá ser útil ao parceiro no que tange àquela deficiência. Talvez, para quem
olha de fora, se torne até um fardo. Mas mesmo assim, à sua maneira, aquela
pessoa ainda oferece algo para o parceiro que lhe é útil e compensa o que
falta. É o caso do marido de Theresa.
Nós conhecemos Theresa quando moramos em Londres. Ela é casada com
John há 19 anos. O amor deles começou na adolescência, mas foi interrompido
por caminhos profissionais diferentes. Somente duas décadas depois se
reencontraram e se casaram. No terceiro ano de casamento, John sofreu um
AVC e perdeu todas suas funções motoras. Ficou confinado a uma cadeira de
rodas. Não fala, não movimenta nenhuma parte do corpo, exceto os olhos.
Quem olha para Theresa não imagina o que ela já passou e tem feito por seu
marido desde então. Ela o alimenta, lhe dá banho, lê livros em voz alta para
ele, o empurra em sua cadeira de rodas para todo lugar — hospital, parque,
igreja (não falta a nenhum compromisso)... E faz tudo com um sorriso, como
se fosse a esposa mais feliz do mundo.
Eu perguntei para ela: “O que você ganha com isso, por tudo o que faz por
seu marido, já que ele não pode lhe retribuir nada?”.
“A paz e a alegria de saber que eu estou fazendo a coisa certa por meu
melhor amigo”, ela respondeu.
Pausa.
Há muito para digerir nessa resposta.
Nos três primeiros anos que eles passaram juntos antes do seu AVC, John
deixou uma marca de amor muito profunda em Theresa: sua amizade. Hoje,
apesar de não poder se expressar, nem fazer nada por ela, John continua
dando a sua esposa, além das boas memórias, paz e alegria — dois
ingredientes extremamente importantes do amor. E isso através de sua
simples existência.
Quantos namorados e maridos de corpos e mentes perfeitos não
proporcionam estas duas coisas às suas parceiras?
Um dos papéis principais do cônjuge em um casamento é auxiliar o parceiro,
ajudá-lo a se tornar uma pessoa melhor, trazer para fora o que há de melhor
nele. A esposa ajudará o marido a alcançar coisas que ele nunca sonhou ser
capaz. O marido ajudará sua esposa a se desenvolver de modo que ela se
sentirá como a flor mais linda que desabrochou no jardim.
Infelizmente, muitos que se juntam por “amor” não têm ajudado um ao
outro, e pior: têm atrapalhado. Quando você se casa, o esperado é que você
cresça, que melhore em todos os sentidos. Seu cônjuge tem de lhe fazer bem
— e você a ele.
Quando alguém entra no casamento pensando em se servir da outra pessoa,não em servi-la, logo vêm as cobranças. “Você não faz isso para mim.” “Você
não se importa com o que eu quero, só com o que você quer.” “Se você não
me atende aqui dentro eu vou buscar lá fora.” “Você não me ajuda.”
Você isso, você aquilo. O foco está no receber, não no dar. Em ser servido ao
invés de servir. Uma disputa de egoísmos.
É claro que queremos receber também, não apenas dar. E à primeira vista,
parece lógico que, para receber, precisamos pedir. Porém, na lógica do Autor
do Amor, dar é pedir.
Quando eu dou a alguém, aquela pessoa fica endividada comigo. Quanto
mais eu dou, maior a dívida. E não há um ser humano que goste de ficar
endividado — muito menos de ser cobrado. Portanto:
O caminho para receber é dar e não cobrar.
Dar, porque é nosso papel, nossa responsabilidade. Dar, porque cremos na
lei do dar e receber. Dar, porque queremos ser úteis.
Cristiane e eu tivemos essa experiência. No início do nosso casamento, as
expectativas dela para comigo eram grandes. E eu nunca as alcançava. Daí ela
fazia o que parecia lógico: me cobrava. E eu justificava que já estava fazendo
mais do que o suficiente e a acusava de reclamar de barriga cheia. Não
funcionou. Apenas nos trouxe frustração.
Então ela mudou de tática. Decidiu parar de cobrar e começou a dar. Não
demorou muito e uma competição sadia começou entre nós.
Eu passei a querer lhe agradar, fazer os gostos dela porque ela estava
fazendo os meus. Quer dizer, finalmente entendemos o que é o casamento.
Já você, lendo isto, não precisa cometer esse erro e só lá na frente, depois
de muitas frustrações, descobrir que casamento é uma parceria de ajuda
mútua. Você pode se preparar a partir de agora para se tornar uma pessoa
auxiliadora e também aprender a identificar se o seu pretendente possui essa
característica.
O que é ser útil a alguém? Como ser um auxiliador?
Algumas definições do verbo ajudar:
Contribuir para que alguém faça alguma coisa, facilitando ou lhe dando condições para
alcançar seu objetivo com sucesso; fazer uma situação melhor, mais fácil ou menos
dolorosa.
Eu compilei uma lista de sinônimos desta palavra tão rica em significado e,
ao lado dela, o seu oposto. Uma pessoa auxiliadora pode ser descrita desta
forma.
Como você avaliaria a si mesmo e ao seu parceiro olhando para esta lista?
(Leia a primeira coluna inteira, depois a segunda.)
Sinônimos de ajudar Contrário de ajudar
- auxiliar - impedirdar assistência
- servir
- remediar
- aliviar
- ser útil
- promover
- mudar para melhor
- prevenir
- servir com alimento ou bebida
- ser uma fonte de auxílio
- melhorar
- consertar
- dar apoio
- fazer algo por
- atender a
- fazer algo que beneficia
- confortar
- levantar
- resgatar
- dar uma mão
- contribuir com força ou meios
- trazer suprimentos
- sustentar
- animar
- torcer por
- estar ao lado de
- trabalhar para
- facilitar
- cooperar
- aliviar o fardo
- motivar
- resistir
- deter
- dissuadir
- frustrar
- se fazer inútil
- obstruir
- amarrar
- opor
- barrar
- bloquear
- chatear
- limitar
- parar
- atrapalhar
- criar problemas
- ser inconveniente
- colocar em desvantagem
- desagradar
- causar contratempo
- causar perda
- ser um obstáculo
- restringir
- agravar
- debilitar
- piorar
- desanimar
- não cooperar
- não apoiar
- atrasar
- ir contra
- causar estresse
- desviar do caminho
- enfraquecer
- não deixar crescer
Resista à tentação de dar uma passada de olhos rápida nesta lista. Leia cada
palavra com atenção, primeiro pensando em você e, depois, se já tem um
parceiro, pensando nele. Se as atitudes ou comportamentos na lista da direita
se assemelham aos seus ou aos de seu parceiro, pare tudo! Vocês não estão
habilitados para um relacionamento.
Primeiro, foquem em se tornar pessoas adequadas e adquirir um caráter de
auxiliador. Sem essas duas qualidades, nenhuma quantidade de sentimento
afetivo será suficiente para manter o relacionamento de vocês.
Use a lista para eliminar atitudes impróprias e adotar um comportamento
útil. Mesmo fora de um relacionamento você pode praticar isso com as pessoas
mais próximas a você — familiares, amigos e colegas.
Esperamos que você tenha entendido de uma vez por todas que não existe pessoa certa para ninguém. A partir de agora, não vamos mais usar este
termo aqui, mas sim “pessoa adequada”. E da próxima vez que você ouvir
alguém dizer que está esperando ou buscando “a pessoa certa”, se puder,
procure educá-la a respeito. Empreste este livro para ela ou a presenteie com
um exemplar. Você poderá poupá-la de muitas frustrações.
Infelizmente, o mito da pessoa certa não é o único que tem atrapalhado as
pessoas em seus relacionamentos. Vamos então revelar e desbancar mais
alguns. Aperte os cintos!

namoro blindadoOnde histórias criam vida. Descubra agora