Millie
O Internato Crossfield sempre pareceu um lugar fora do tempo.
Paredes brancas demais, janelas altas demais, silêncio demais. Tudo ali era projetado pra domesticar adolescentes ricos e problemáticos — e, de certa forma, funcionava. Pelo menos até alguém como Caleb aparecer.
Naquela manhã, a aula de matemática se arrastava como um castigo. A freira escrevia fórmulas no quadro, e eu rabiscava no caderno só pra fingir que acompanhava. Foi quando senti um toque rápido no braço.
— Psiu, Millie — Caleb sussurrou, enfiando um papel amassado debaixo da minha folha.
O bilhete estava torto, a letra dele ilegível como sempre.
Mas eu consegui decifrar:
"No intervalo, no bosque. Tenho uma ideia genial."
Revirei os olhos. Só ele pra achar que "ideia genial" e "problema" não eram sinônimos. Mas o pior é que eu sorri. Sempre sorria. Caleb tinha esse tipo de efeito: caos embrulhado num sorriso bonito.
O sinal tocou, e a sala virou um campo de fuga. Todos correram pelos corredores como se tivessem sido libertados da cadeia. No Crossfield, o intervalo era o único momento em que o ar parecia entrar de verdade.
O bosque ficava nos fundos do terreno, um pedaço esquecido entre o muro e a quadra. Tinha árvores retorcidas, bancos quebrados e aquele cheiro de terra úmida que grudava na roupa. Era o esconderijo de sempre.
E lá estavam eles — meu grupo, meu pequeno desastre ambulante.
Caleb encostava num tronco, o uniforme meio aberto, o cabelo bagunçado. Alto, pele escura, corpo de atleta e olhar de quem sempre sabia mais do que devia. O mais velho de nós — dezessete — e o mais inconsequente também.
— Demorou, Mills — ele disse, abrindo uma lata de refrigerante como se fosse champanhe.
Do outro lado, Finn chutava uma pedra, distraído. Branquelo, magricelo, com cachos que caíam na frente dos olhos e um ar meio sombrio, como se o mundo fosse uma piada que ele não achava graça. O mais bonito também.
Ao lado dele, Noah — baixinho, olhos verdes — mastigava chiclete e fingia não ouvir nada. Tinha só quinze, mas a cara de quem já carregava o peso de vinte.
Maddie e Lilia chegaram juntas, as duas rindo de alguma coisa que provavelmente envolvia meninos.
Lilia, loira, sempre parecia saída de um comercial de perfume. Maddie, com o cabelo castanho claro e olhos gentis, era o equilíbrio do grupo — até beber.
Sadie veio por último, ruiva, sardas, um batom vermelho que quebrava todas as regras do internato. Gaten veio atrás dela, cantarolando alguma coisa. Ele era baixinho, tinha cabelo bagunçado e aparelho nos dentes.
— Tá todo mundo? — Caleb perguntou, olhando em volta. — Então ótimo. Tenho a melhor ideia do ano.
— O que é? — Maddie quis saber.
— Uma festa.
Silêncio. Depois, risos.
— Sério isso? — Finn perguntou, cruzando os braços. — Esse é o seu conceito de genialidade?
— Espera — Caleb levantou o dedo, teatral. — Uma festa... na piscina.
As risadas se intensificaram.
Era absurdo, perigoso, impossível.
E por isso mesmo, perfeito.
— Caleb, você esqueceu que da última vez quase foi expulso? — perguntei.
O flash veio automático: a festa nos fundos da escola, música alta, bebidas roubadas, alguém desmaiando, o caos. Foi incrível, umas das minhas primeiras festas no auge dos 15 anos. No fim, Caleb assumiu a culpa. A diretora quase o mandou embora, mas os pais dele apareceram no dia seguinte — ternos caros, sorrisos educados, um envelope discreto. E o problema evaporou.
Dinheiro, no Crossfield, também era uma forma de milagre.
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Como tudo deu errado - Fillie
Teen FictionUm grupo de oito adolescentes vive sob as regras rígidas do Internato Crossfield, um lugar de muros altos, freiras vigilantes e segredos enterrados. Millie, Caleb, Finn, Lilia, Sadie, Maddie, Noah e Gaten cresceram juntos, dividindo risadas, rebeldi...
