Capitulo Treze

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Millie

Segundas-feiras sempre tinham um gosto estranho naquela escola. Como as matérias mudavam de acordo com o horário e não existiam turmas fixas para todas as aulas, eu podia passar metade do dia sem ver ninguém que eu realmente conhecia, e depois do final de semana que eu tinha tido, isso até parecia um alívio.

Mesmo assim, dava para sentir a tensão no ar, como se alguns corredores ainda carregassem restos da festa. Eu peguei uns olhares tortos, ouvi duas meninas cochichando quando passei, e fingi que não era sobre mim, mesmo sabendo que era.

As duas primeiras aulas passaram sem que nenhum rosto familiar aparecesse. Quando o sinal tocou anunciando minha aula de Jardinagem, eu peguei meu avental amassado na mochila e caminhei até a estufa, respirando ar puro pela primeira vez no dia.

A porta era pesada e sempre rangia, e quando empurrei, o ar úmido e quente me envolveu de imediato. O cheiro de terra molhada, folhas cortadas e a mistura viva de verde me abraçaram. A estufa tinha sido reformada há alguns meses, mas ainda guardava um pedaço que eu amava quando ela era só um lugar esquecido no fundo da escola.

Coloquei o avental, amarrei atrás da cintura, prendi o cabelo e fui para minha bancada. Peguei o borrifador e comecei a umedecer as violetas da fileira do meio, concentrada no movimento repetitivo. Era bom ter algo para fazer com as mãos. Algo que não envolvia pensar.

A porta da estufa se abriu de repente e entrou uma ruiva, atrasada como sempre, esbaforida, com o avental meio torto e as luvas ainda enfiadas no bolso.

— Ai meu Deus! — ela exclamou quando me viu — Você tá aqui! Eu não te vi nem no corredor hoje. Você sumiu!

Sorri.

— Tive outras matérias. Não bati horário com ninguém do nosso grupo.

Sadie largou a mochila no chão, tropeçou no próprio cadarço, xingou baixinho, e só depois amarrou o avental direito. Ela tinha uma energia leve que fazia tudo parecer menos sério por alguns segundos. Mas quando chegou perto de mim, o sorriso dela murchou.

— Você tá bem? — ela perguntou, mais baixa — Tipo... de verdade?

Eu continuei borrifando as flores.

— Tô.

Ela levantou uma sobrancelha, claramente não acreditando, mas não insistiu. Pegou uma tesoura de poda e começou a aparar uma planta na bancada ao lado da minha.

— Você não respondeu nenhuma mensagem no fim de semana inteiro — ela comentou, cortando uma folha amarelada — Todo mundo ficou preocupado.

Engoli seco.

— Eu só... precisava pensar.

Sadie olhou de lado para mim enquanto jogava as folhas cortadas no balde.

— Eu... eu não devia ter ido na festa da Iris. — desabafei.

Sadie franziu o cenho, confusa.

— Por quê?

— Porque eu namoro. — Engoli em seco — E aquela festa... não era pra mim. Não pra alguém comprometida. — minha voz enfraqueceu — Eu fiz besteira.

Sadie soltou a tesoura na bancada e se aproximou.

— Millie, você não fez nada. — Colocou as mãos na cintura.

— Fiz sim. — Suspirei — Finn.

O nome dele saiu quebrado.

— Aquilo nunca deveria ter acontecido. Nem por um segundo. Eu não deveria ter sentido o que eu senti.

Como tudo deu errado - Fillie Onde histórias criam vida. Descubra agora