Capitulo Dois

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Millie

O despertador tocou cedo demais. Lilia já estava de pé, arrumando o cabelo em frente ao espelho, enquanto Maddie e Sadie ainda dormiam profundamente.

Levantei com preguiça, escovei os dentes, lavei o rosto e encarei meu reflexo pálido e sonolento no espelho. Prendi o cabelo num meio-rabo e vesti o uniforme do internato: camisa branca, blazer azul-marinho, gravata, saia plissada, meias até o joelho e sapatilhas pretas. Não era o uniforme dos meus sonhos, mas pelo menos me fazia parecer mais confiante do que eu realmente era.

Hoje teríamos a missa de abertura do ano letivo, o que significava que ninguém podia se atrasar.
Mas Maddie, sendo Maddie, demorou uma eternidade pra tentar esconder o chupão que ganhara de Romeo no dia anterior. Quando finalmente saímos, o sino da capela já ecoava pelo pátio.

— Aí estão as atrasadas... — disse a Irmã Teresa, com o olhar gélido por cima dos óculos.

— Desculpa, irmã, tivemos... problemas femininos — improvisou Sadie.

— Ah, sim? Todas vocês? — a freira arqueou a sobrancelha.

— Só Maddie — acrescentei rápido, tentando encerrar o assunto. — O resto foi só solidariedade feminina.

A freira bufou e nos mandou entrar. A missa se arrastou como um castigo e logo depois vieram as aulas, longas e cansativas, sem nada muito importante.

O sol do meio dia queimava sem dó, e o pátio estava cheio de alunos espalhados pelos bancos e pelo gramado, rindo, tirando fotos, fingindo que estudavam. Peguei minha bandeja e sentei sozinha, mas o barulho me incomodava, então levantei e comecei a andar sem destino.

O caminho pro fundo do campus sempre me atraiu. Lá ficava a estufa velha, esquecida desde antes de eu entrar no internato. As vidraças sujas deixavam passar só o suficiente de luz pra criar um clima meio fantasmagórico. Era o meu refúgio — ninguém nunca aparecia por lá.

Quando estava quase virando a esquina do pátio, algo chamou minha atenção. Dois meninos discutiam perto da quadra, meio escondidos atrás das arquibancadas. Levei um segundo pra perceber quem eram. Caleb, com aquele jeito calmo demais pra própria segurança, e Logan Foster, o jogador de basquete famosinho da escola, que todo mundo evitava contrariar.

Não dava pra ouvir o que diziam, só o tom — tenso, contido. Logan deu um empurrão de leve no peito de Caleb, como quem testa limites. Caleb ficou imóvel por um instante, os olhos firmes, e depois sorriu, aquele sorriso sínico que ele usava quando queria parecer no controle.

Continuei andando, fingindo que não vi nada. Mas a cena ficou presa na minha cabeça, como um presságio que eu ainda não sabia decifrar.

Entrei na estufa e sentei num banco quebrado, peguei o celular do bolso e abri o chat.

Jacob: "Você sumiu. Achei que tinha esquecido de mim."
Millie: "Tive aula o dia inteiro. E missa."
Jacob: "Missa? Então é verdade o que dizem sobre o internato."
Millie: "O que dizem?"
Jacob: "Que as meninas de lá vivem presas num outro mundo. Chega a ser estranho imaginar você nisso."
Millie: "Estranho por quê?"
Jacob: "Porque você parece mais livre do que qualquer pessoa que eu conheço."

Sorri.

Conheci Jacob há alguns meses, pela internet. Nem lembro direito como — acho que foi um comentário num post sobre música, depois uma curtida, e de repente já estávamos conversando todos os dias. Ele estudava em outra escola, estava no último ano do ensino médio e tinha dezoito anos, dois a mais que eu. Era bonito, mas não daquele jeito óbvio; tinha um olhar calmo e um jeito de falar que fazia tudo parecer simples.

Como tudo deu errado - Fillie Onde histórias criam vida. Descubra agora