Millie
As sextas no internato eram sempre as mesmas.
Os portões se abriam e cada aluno voltava para o conforto das suas casas — mansões frias, vazias, onde o barulho mais alto era o do próprio eco.
Pais sempre em viagens de negócios, mães em retiros espirituais ou escondidas atrás de janelas de vidro fumê.
A gente cresceu cercado de tudo, menos de presença. E talvez por isso buscássemos o caos, pra sentir alguma coisa.
Os rolês de sexta à noite já eram tradição não declarada entre a gente: bebida, música e uma dose de adrenalina suficiente pra esquecer o vazio de ser "filho perfeito" de gente que mal lembra a cor dos nossos olhos.
Mas hoje a festa da escola prometia algo ainda melhor.
Nos reunimos na casa do Noah, que ficava a poucos quarteirões do internato. Eu, Sadie, Maddie e Lilia ocupávamos o quarto dos pais dele, transformando o lugar num campo de batalha de maquiagem, risadas e perfume.
O som tocava alto, saindo do nosso celular e batendo nas paredes, o espelho embaçado refletia quatro versões de nós mesmas: bonitas, impacientes e perigosamente animadas.
— Caleb conseguiu mesmo? — Sadie perguntou, passando batom e fazendo biquinho.
— Conseguiu. — Lilia respondeu, sentada na cama, com a toalha ainda enrolada no cabelo. — Prendeu os seguranças dentro da sala de câmeras.
Sadie riu.
Caleb tinha esse dom: um sorriso convincente e uma facilidade absurda pra burlar regras.
Foi ele quem garantiu que, às dez em ponto, o internato estaria em festa — sem adultos, sem câmeras, sem juízo.
Enquanto Maddie escolhia o sapato e Lilia pintava as unhas, Finn apareceu na porta.
A camiseta preta grudava no peito e os cachos molhados pingavam sobre o rosto.
— Vocês vão demorar muito? — ele perguntou, com um meio sorriso que sabia o efeito que causava.
— O suficiente pra ficarmos mais bonitas que vocês — respondi, ajeitando o cabelo no espelho.
Ele me lançou um olhar rápido. Tão rápido que qualquer pessoa normal ignoraria. Mas eu não. Eu não conseguiria ignorar.
Noah apareceu logo depois, com uma garrafa na mão, rindo alto de alguma piada do Gaten. Atrás dele, Caleb entrou, o celular na orelha e uma expressão distante, diferente. Ele andava de um lado pro outro, os ombros tensos.
— Tá tudo certo? — Noah perguntou, jogando uma almofada nele.
— Tá, tá sim — respondeu Caleb rápido, guardando o telefone no bolso e forçando um sorriso. — Só... resolvendo umas coisas.
Lilia levantou uma sobrancelha.
— Espero que essas "coisas" não estraguem a festa.
— Relaxa, loirinha. — Ele piscou, voltando ao tom confiante. — Hoje vai ser épico.
Quando saímos, o céu já estava escuro. O som das risadas enchia o ar. Cada um de nós escondia a ansiedade do próprio jeito: Sadie falava demais, Maddie checava o celular o tempo todo.
O caminho até a escola foi curto. As luzes estavam apagadas, mas dava pra ver o brilho de lanternas e ouvir o eco distante de vozes.
Atravessamos o portão lateral, e o som das caixas começou a crescer — batidas graves, pesadas, pulsando como um coração acelerado.
A piscina refletia as luzes coloridas e dezenas de alunos dançavam, pulando na água com roupa e tudo. O cheiro de álcool, perfume e cloro se misturava num vapor quente.
Íris apareceu com um copo na mão e um sorriso quase maníaco.
— Millaw! — ela gritou, o tom de voz arrastado. — Você veio!
— Claro que vim. — ergui meu copo. — Vê se pega leve, Íris.
— Pegar leve é coisa de gente morta. — Ela piscou, sumindo na multidão.
A música aumentou. Sadie e Lilia começaram a dançar, e eu me deixei levar. O mundo girava, quente e barulhento.
A cada copo que alguém enchia, outro já vinha.
Vodka barata, gin e cerveja — ninguém mais sabia o que era o quê. As risadas ecoavam como trovões, misturadas com o som de garrafas batendo, os pés batendo no chão e a batida eletrônica que fazia o peito vibrar.
Lilia subiu na borda da piscina, o vestido colado no corpo pela umidade, e gritou alguma coisa sobre ser "a rainha da noite". Maddie ria tanto que caiu sentada no chão, o copo virando sobre o próprio cabelo. Sadie, que sempre jurava que não sabia dançar, estava no meio da pista, girando com Íris, os olhos brilhando de tanto álcool.
Noah e Finn disputavam quem bebia mais rápido, e Gaten narrava a "competição" com a empolgação de um comentarista esportivo. Eu observava tudo, o rosto quente, o coração leve demais — a bebida fazia o mundo parecer simples, e por alguns minutos, era.
Mas em meio à bagunça, percebi uma ausência.
Procurei Caleb no meio da multidão, mas ele não estava em lugar nenhum. Nem perto da piscina, nem nas mesas, nem na pista improvisada.
— Viu o Caleb? — perguntei pra Noah, que ria encostado num poste, o copo transbordando espuma.
— Foi fumar lá atrás, eu acho — ele respondeu, enrolando as palavras. — Disse que já voltava.
Mas ele não voltou.
A noite seguiu, e quanto mais o álcool corria, menos as vozes pareciam claras. Os copos viraram extensão das mãos, os risos viraram gritos, e o ar cheirava a liberdade e erva.
Depois de um tempo, comecei a sentir a cabeça girar.
Fui até o banheiro com as meninas, e enquanto elas tiravam fotos, decidi sair um pouco. O pátio estava escuro, iluminado apenas pelas luzes da piscina. Foi aí que ouvi passos atrás de mim.
Virei e dei de cara com Finn.
— Que susto, caramba. — Levei a mão ao peito.
Ele riu.
— Sempre dramática, Millie.
— E você, sempre aparecendo quando não devia.
Ele se aproximou, o olhar fixo.
— Talvez eu devesse aparecer mais.
O ar pareceu mais pesado.
Finn deu um passo à frente, e o espaço entre nós se desfez. Senti o calor do corpo dele, o cheiro, a respiração curta e contida, como se ele também não soubesse o que estava fazendo ali.
Os dedos dele tocaram de leve uma mecha do meu cabelo, enroscando por um instante antes de soltá-la, e o gesto foi tão delicado que pareceu um erro. Meu coração disparou. Ele manteve o olhar fixo em mim, os olhos escuros demais, intensos demais, e por um segundo juro que o mundo sumiu.
Pensei que ele fosse me beijar.
Mas antes que qualquer coisa acontecesse, um som cortou a música.
Um estrondo seco. Como um trovão vindo de dentro da terra. Pulei de susto e desgrudei de Finn, encarando-o confusa.
As luzes piscaram.
Sadie, Lilia e Maddie saíram correndo do banheiro, assustadas.
Caminhamos juntos até o fim da arquibancada, o coração martelando. A festa continuava atrás de nós, mas parecia que nossa alma se desgrudava do nosso corpo e que não participávamos mais daquilo.
E então vimos.
A música pareceu parar.
E o silêncio que veio depois pareceu mais alto do que qualquer som do mundo.
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Como tudo deu errado - Fillie
Novela JuvenilUm grupo de oito adolescentes vive sob as regras rígidas do Internato Crossfield, um lugar de muros altos, freiras vigilantes e segredos enterrados. Millie, Caleb, Finn, Lilia, Sadie, Maddie, Noah e Gaten cresceram juntos, dividindo risadas, rebeldi...
