Os dias seguintes passaram sem cerimônia, como se ninguém tivesse avisado que algo tinha mudado.
O nome ainda estava lá. Etan Gorlosf. Falso ou não, alguém tinha usado o laboratório exatamente no mesmo dia em que a ameaça apareceu no armário do Caleb. Não era aluno. Não era funcionário. Não era ninguém que a escola admitisse conhecer. A conclusão era simples e desconfortável: o buraco era mais embaixo do que a gente tinha imaginado.
Contamos pro grupo no dia seguinte. Não teve drama, nem teorias mirabolantes. Só aquela sensação estranha que se instala quando todo mundo entende que não está mais lidando com uma brincadeira de mau gosto. Caleb ficou mais fechado do que o normal. E eu segui com o incômodo de estar no centro de algo que nunca escolhi.
Depois disso, os dias continuaram. Estranhamente normais.
A Páscoa se aproximava e, com ela, a semana mais importante do calendário da escola: a semana dos Jogos da Fundação.
Era uma das tradições mais antigas dali, da época em que o colégio ainda funcionava como internato. O momento em que os pais vinham, a cidade inteira aparecia, e os alunos deixavam de ser só alunos. Durante uma semana, tudo girava em torno disso. Treinos, ensaios, listas, reuniões. Quatro dias de preparação intensa e, na sexta, os jogos. Participar valia nota. Vencer valia status. E, pra quem estava no último ano como nós, valia também a consciência de que aquela seria a última vez.
Na segunda-feira, os cartazes começaram a surgir pelos corredores. Na terça, a escola já parecia outra. As aulas foram substituídas por horários livres para os atletas treinarem e para o resto ajudar na organização das barracas e das apresentações.
Eu voltei a treinar handebol.
Fazia tempo que não fazia aquilo de verdade. O corpo estranhou nos primeiros minutos, os braços queimaram, as pernas reclamaram, mas algo em mim encaixou rápido, como se nunca tivesse esquecido. Quando a bola batia no chão e voltava pra minha mão, eu respirava melhor. Passava as tardes na escola, suada, cansada, com a cabeça vazia o suficiente pra não ouvir a voz da minha mãe me cobrando e me lembrando do castigo.
Pelo menos agora eu estava com o celular de novo.
O grupo inteiro se envolveu nos preparativos. Sadie, Noah e Gaten ficaram responsáveis pela barraca de waffles artesanais, como todos os anos. Já tinha virado tradição. Desde que Sadie e Noah descobriram a receita quando tinham uns doze anos, na primeira vez em que trabalharam juntos nos Jogos, a barraca nunca mais ficou vazia.
Maddie e Lilia ensaiavam as coreografias das líderes de torcida no pátio, sempre cercadas de gente, enquanto Caleb praticamente morava na quadra de basquete. Era uma das poucas coisas que ele realmente levava a sério.
Os Jogos da Fundação funcionavam quase como um ritual dentro do Crossfield.
Na semana que antecedia o evento, cada aluno escolhia um esporte pra treinar. Não existia obrigação de participar como atleta, mas quem entrava, entrava pra valer. Durante aqueles dias, as tarde eram ocupadas por treinos. Os professores avaliavam desempenho, técnica, resistência e trabalho em equipe.
Na quinta-feira vinha a parte mais aguardada: a escalação oficial.
Os alunos selecionados eram divididos em dois grandes times, que se enfrentariam no dia seguinte. Esse ano, o tema era Grécia Antiga. Os nomes vieram à altura: Time Atena e Time Ares.
A partir daí, cada esporte virava uma disputa direta entre os dois. Handebol, basquete, vôlei, futebol. Atena contra Ares. Além disso, havia a prova de natação, individual, um representante de cada lado, valendo ponto direto.
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Como tudo deu errado - Fillie
Teen FictionUm grupo de oito adolescentes vive sob as regras rígidas do Internato Crossfield, um lugar de muros altos, freiras vigilantes e segredos enterrados. Millie, Caleb, Finn, Lilia, Sadie, Maddie, Noah e Gaten cresceram juntos, dividindo risadas, rebeldi...
