O sol pintava do céu da quinta feira de manhã, enquanto o carro balançava incomodo.
O silêncio entre eu e meu pai era pesado, espesso, como se qualquer palavra errada pudesse estilhaçar o que já estava quebrado. Eu olhava pela janela, contando postes, fingindo que o mundo lá fora era mais interessante do que a presença dele ao meu lado. Ele dirigia com as duas mãos no volante, tenso, rígido, como se até o ato de me levar para a escola fosse um grande esforço.
— Suas notas caíram — ele disse de repente, sem me olhar. — Eu consegui o boletim parcial. Oito em matemática. Sete em física.
Não respondi.
Por dentro, pensei no quão impossível era tentar se concentrar nos estudos quando havia um stalker à solta, cada vez mais ousado, e um amigo de infância que carregava um assassinato nas costas, que eu tinha ajudado a encobrir.
— Isso não é aceitável — ele continuou. — A escola já foi avisada de que eu quero relatórios completos. Amanhã vou conversar pessoalmente com a direção.
Continuei em silêncio.
— Eu te busco na saída — concluiu, seco. — Não se atrase.
O carro parou em frente ao portão da escola. Desci sem me despedir. Ele não esperou que eu fechasse a porta direito antes de arrancar.
Na primeira aula, não vi ninguém.
Nem Sadie, nem Noah, nem Caleb, nem Finn. Nenhum deles. Olhei em volta mais de uma vez, esperando encontrar pelo menos um rosto conhecido, mas os lugares estavam vazios ou ocupados por estranhos demais para me oferecer qualquer conforto.
O aperto no peito voltou.
Foi só no intervalo que consegui respirar.
Eles estavam reunidos perto das mesas do fundo, como sempre. Assim que me viram, os olhares se levantaram quase ao mesmo tempo. Houve um alívio coletivo, como se todos previssem o que tinha acontecido.
— Ei — Noah foi o primeiro a falar, abrindo os braços. — Sobreviveu?
— Mais ou menos — respondi, me aproximando.
Sentei com eles e, antes que alguém perguntasse, falei:
— Eu briguei feio com meus pais.
— Tipo... feio quanto? — Maddie perguntou, cautelosa.
— Tipo castigo total — falei. — Sem celular, sem carro, sem computador. Nada. Meu pai que me trouxe hoje e vai vir me buscar depois. E amanhã ele quer vir aqui na escola pra conversar com a diretora.
— Merda — Gaten murmurou.
Respirei fundo antes de continuar.
— Eu queria pedir desculpas pra vocês pelo que a minha mãe falou... — olhei primeiro para o Noah. — Pelo que ela disse pra você. Aquilo foi ridículo. Você sabe que eu não concordo com nada daquilo, né?
Noah deu de ombros, mas o sorriso dele era mais cansado.
— Não é a primeira vez que eu escuto esse tipo de coisa — ele disse. — E você não é a sua mãe. Fica tranquila.
Você não é a sua mãe.
A frase ecoou dentro da minha cabeça, insistente, desconfortável.
Olhei então para o Caleb.
— Me desculpa, Caleb. Ela passou de todos os limites. Foi preconceituosa, desnecessária. Perdão mesmo pelo que vocês tiveram que ouvir.
Caleb sustentou meu olhar por um segundo longo, depois assentiu com a cabeça.
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Como tudo deu errado - Fillie
Fiksi RemajaUm grupo de oito adolescentes vive sob as regras rígidas do Internato Crossfield, um lugar de muros altos, freiras vigilantes e segredos enterrados. Millie, Caleb, Finn, Lilia, Sadie, Maddie, Noah e Gaten cresceram juntos, dividindo risadas, rebeldi...
