— Você o quê? — perguntei sem piscar.
Jacob mastigava com calma, sentado à minha frente. A mesa do almoço ainda estava meio bagunçada, prato pela metade, copos de suco e uma marmita aberta entre nós.
— Vou começar a trabalhar no Crossfield — repetiu, agora com um meio sorriso. — Depois da Páscoa.
Fiquei alguns segundos encarando ele, tentando entender se aquilo era um tipo de piada.
— Trabalhar... como assim, trabalhar? — perguntei, devagar.
— É um estágio. — Ele deu de ombros. — Da faculdade. Meu pai conhece o pessoal da direção, abriu uma porta. Não é nada demais.
Nada demais.
— Você nunca comentou isso — falei.
— Porque era pra ser surpresa. — Jacob se inclinou um pouco sobre a mesa. — Já faz um tempo que eu tô tentando, Mills. Só queria te contar quando tivesse certeza.
Engoli seco.
— Mas e o trabalho com o seu pai? — perguntei. — Você não trabalha na empresa com ele?
— Trabalho, sim. — Ele assentiu. — Mas lá não conta como estágio. É mais informal. No Crossfield vai ser tudo certinho, registrado, com carga horária e relatório pra faculdade.
Assenti, ainda assimilando.
— E... por que na minha escola? Tipo, o que isso tem a ver com a sua faculdade?
Jacob sorriu de novo.
— É gestão — ele explicou. — Administração escolar, contratos, logística, essas coisas. Não vou dar aula nem nada do tipo... É mais parte administrativa.
Fez uma pausa curta, como se escolhesse o tom certo.
— O Crossfield é grande, tem orçamento alto, conselho, patrocínio... é um bom lugar pra aprender.
Depois completou, buscando minha mão:
— Pensa Millie... Agora vou te ver mais, ficar mais perto... A gente tava ficando muito afastado. Eu tinha faculdade, trabalho longe... agora fica tudo mais simples.
Forcei um sorriso.
— E seu pai adorou a ideia. — Ele concluiu tomado um gole de suco.
Claro que gostou.
Assenti, fingindo naturalidade, enquanto algo apertava no fundo do peito. Não era exatamente incômodo, mas também não era empolgação. Eu gostava de tê-lo por perto, sempre gostei. Só que a escola era outra coisa. Ali eu era outra versão de mim, mais leve, cercada pelos meus amigos, longe das expectativas, das cobranças, das regras de casa. Era a parte simples da minha vida.
Ter o Jacob ali misturava tudo. Não porque eu não quisesse ele perto, mas porque aquele espaço sempre foi meu. E agora deixava de ser só meu. Sem contar que eu conhecia meu pai o suficiente para saber o quanto ele ia adorar a ideia. Jacob por perto, trabalhando na escola, era quase uma extensão dele. Uma forma de me controlar de longe.
Mesmo assim, sorri. Porque não era fácil explicar em voz alta.
— Legal — menti. — Fico feliz por você.
Jacob alcançou minha mão por cima da mesa, apertando de leve.
— Vai ser bom pra gente.
Antes que eu pudesse responder, a campainha tocou.
— Devem ser meus pais. — murmurei me levantando.
Eles tinham saído um logo depois de eu voltar da escola, uma reunião de última hora com um cliente do meu pai, coisa urgente. Tinham ido sem nem trocar de roupa direito. Era bem possível que tivessem esquecido a chave ou algum documento.
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Como tudo deu errado - Fillie
JugendliteraturUm grupo de oito adolescentes vive sob as regras rígidas do Internato Crossfield, um lugar de muros altos, freiras vigilantes e segredos enterrados. Millie, Caleb, Finn, Lilia, Sadie, Maddie, Noah e Gaten cresceram juntos, dividindo risadas, rebeldi...
